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07/11/2018
POLÍTICA

Após oito anos de hegemonia total republicana nas duas casas que compõem o Congresso americano, os Democratas passarão a comandar a Câmara com poderes de fiscalizar os atos de governo
Por Marcelo Menna Barreto

Foto: Michael Appleton/NYC Town Hall/Fotos Públicas

O voto da diversidade marcou as eleições americanas desta terça-feira, 6

Foto: Michael Appleton/NYC Town Hall/Fotos Públicas

As Midterms Elections nos Estados Unidos, pleito nacional que é realizado dois anos após cada eleição presidencial, praticamente na metade do mandato do presidente, são segundo analistas uma forma da sociedade americana demonstrar se está satisfeita ou não com seu governo. Apesar de Donald Trump afirmar ter tido uma grande vitória nas urnas, aumentando a maioria do partido Republicano no Senado e até o momento elegendo 20 governadores ante os 16 dos Democratas, seus próximos dois anos não deverão transcorrer tranquilamente. Após oito anos de hegemonia total republicana nas duas casas que compõem o Congresso americano, os Democratas passarão a comandar a Câmara, com poderes de fiscalizar os atos de governo e inviabilizar projetos polêmicos como o de construção de um muro separando a fronteira do país com o México.

Ainda faltando votos a serem contabilizados, com a possibilidade de pedidos de recontagem em processos até muito diferenciado de estado para estado, devido ao sistema eleitoral dos Estados Unidos que não é uniforme, 220 deputados Democratas já foram eleitos contra 194 Republicanos. Mesmo com 21 vagas em processo de definição, é inconteste que o poder na Câmara está mudando de mãos. Ironicamente, em 2015, em pleno mandato de Barack Obama, o congresso majoritariamente Republicano, criou medidas que facilitam fiscalizar o poder executivo federal. Se as medidas tinham o objetivo de ter mais controle sobre o governo do Democrata, primeiro negro eleito presidente dos Estados Unidos, elas agora se voltam contra o presidente Republicano.

Concretamente, em janeiro, com a posse dos novos deputados o resultado das Midterms Elections aponta que pela primeira vez, Donald Trump e sua administração deverá enfrentar uma verdadeira e dura fiscalização. Ao contrário dos órgãos legislativos de muitos países, a Câmara dos deputados dos Estados Unidos trabalha essencialmente no conceito de maioria simples. Com 218 votos, a maioria não precisa de um único voto da minoria para emitir intimações para testemunhos e documentos – ou mudar seu próprio regimento. Após dois anos sem nenhum grande incômodo, a administração Trump poderá em breve ser forçada a ser mais transparente com o público americano sobre seus conflitos de interesse, inconformidades com a legislação e uma miríade de exemplos nebulosos de corrupção, como o caso do filho do presidente que manteve contatos com o governo Russo, acusado pelos Democratas de ter interferido na campanha presidencial passada.

Diversidade

A diversidade marcou as eleições americanas desta terça-feira, 6. Mais de 270 mulheres concorreram ao Congresso, um número recorde que se refletiu nos resultados e trouxe minorias até então não representadas no parlamento americano.

O pleito também destacou a eleição do primeiro governador declaradamente homossexual, o político, empresário e filantropo, Jared Polis. Democrata do Colorado, Polis de 44 anos de idade não escondeu sua orientação sexual durante toda a campanha, ao contrário do governador de Nova Jersey, Jim McGreevy, também democrata eleito em 2001, que se declarou homossexual enquanto ocupava o cargo.

Onda azul e poder feminino

Chamado pela imprensa americana de “onda azul”, o avanço dos Democratas dá muitos motivos para os membros do partido serem otimistas. Eles aumentaram sua base de apoio em grandes áreas do centro-oeste e em regiões onde Donald Trump triunfou em 2016.

Se os democratas conseguiram manter a hegemonia na maioria dos distritos que votaram em Hillary Clinton em 2016, os republicanos perderam vários distritos em estados que votaram em Trump há dois anos. O caso mais emblemático é Iowa, onde os democratas venceram em dois dos quatro distritos e reduziram a maioria dos votos do republicano Steve King em 16 pontos para pouco mais de 3%.

Outro aspecto que marcou o pleito americano foi o número recorde de mulheres que se elegeram para o congresso. Com os votos ainda sendo contabilizados, ao todo 117 mulheres já podem entrar na fila para a sua posse em janeiro próximo. Com o número podendo aumentar, até o momento nove mulheres foram eleitas governadoras, 96 como deputadas e 12 senadoras. A onda azul também esteve presente nesse caso, com a eleição de 100 democratas e 17 republicanas.

Entre as mulheres que passarão a integrar o Congresso americano oito passarão para a história pelo seu pioneirismo: Ayanna Pressley, primeira mulher negra eleita pelo estado de Massachusetts; Ilhan Omar e  Rashida Tlaib, primeiras mulheres muçulmanas eleitas; Sylvia Garcia e Veronica Escobar, primeiras latinas eleitas pelo Texas; Sharice Davids e Debra Haaland, primeiras mulheres indígenas eleitas.

Em comum, todas democratas próximas da linha socialista do senador Bernie Sanders que foi reeleito e como a também estreante no congresso, a mais jovem deputada eleita na história dos Estados Unidos, Alexandria Ocasio-Cortez.

Eleita em Nova Yorque, com 70% dos votos, a ex-garçonete latina de 29 anos, já deixou claro o seu recado: “Trump não está pronta para uma garota do Bronx”.

 

 

 

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