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12/03/2019
JUSTIÇA

Autor dos disparos que mataram a vereadora e o motorista foi preso no condomínio Vivendas da Barra, onde mora Bolsonaro
Por Gilson Camargo
Os ex-PMs Ronnie Lessa e Élcio Vieira Queiroz são interrogados na Delegacia de Homicídios do Rio

Foto: Polícia Civil RJ/ Divulgação

Os ex-PMs Ronnie Lessa e Élcio Vieira Queiroz são interrogados na Delegacia de Homicídios do Rio

Foto: Polícia Civil RJ/ Divulgação

O sargento reformado da PM do Rio, Ronnie Lessa, 48 anos, e o ex-policial militar Élcio Vieira Queiroz, 46, foram presos às 4h desta terça-feira, 12, por policiais da Divisão de Homicídios e promotores do Ministério Público estadual do Rio de Janeiro, apontados como suspeitos pelos assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes.

De acordo com as investigações, Lessa é o autor dos 13 disparos de submetralhadora que mataram Marielle e Anderson e Élcio dirigiu o carro, um Cobalt, usado no atentado. A Operação Lume – referência à praça Buraco do Lume, no Centro do Rio, onde Marielle desenvolvia o projeto Lume Feminista – realizou 34 mandados de busca e apreensão nos endereços dos suspeitos para apreender documentos, telefones celulares, computadores, armas e acessórios.

Lessa foi preso em sua casa, no condomínio Vivendas da Barra, o mesmo onde mora o presidente Jair Bolsonaro (PSL). Queiroz aparece ao lado do presidente em uma imagem postada em uma rede social no dia 4 de outubro, às vésperas do primeiro turno da eleição. A investigação não aponta relação entre os ex-policiais militares e o presidente.

A vereadora Marielle Franco (PSol) foi assassinada em um atentado no qual seu motorista, Anderson Gomes, também foi morto, em 14 de março de 2018

Foto: Renan Olaz/ Câmara de Vereadores RJ/ Dvulgação

A vereadora Marielle Franco (PSol) foi assassinada em um atentado no qual seu motorista, Anderson Gomes, também foi morto, em 14 de março de 2018

Foto: Renan Olaz/ Câmara de Vereadores RJ/ Dvulgação

QUEM MANDOU? – O deputado federal Marcelo Freixo (PSol) afirmou em entrevistas que as prisões não resolvem o crime. “A mando de quem?”, indagou. “São prisões importantes, são tardias. Dia 14 faz um ano do assassinato da Marielle, é inaceitável que a gente demore um ano para ter alguma resposta. Então, evidente que isso vai ser visto com calma, mas a gente acha um passo decisivo. Mas o caso não está resolvido. Ele tem um primeiro passo de saber quem executou. Mas a gente não aceita a versão de ódio ou de motivação passional dessas pessoas que sequer sabiam quem era Marielle direito”, alerta Freixo.

Em 2008, Freixo presidiu a CPI das Milícias na Assembleia Legislativa do Rio. O relatório final apresentou 58 propostas concretas para enfrentamento das milícias, entre as quais o corte das fontes de financiamento das quadrilhas. O trabalho contou com a assessoria de Marielle, que em 2016 foi eleita vereadora com mais de 46 mil votos. “O assassinato de uma vereadora é um crime político. Por isso é fundamental sabermos qual grupo político é capaz de, em pleno século XXI, mandar eliminar uma autoridade pública que tenha cruzado seu caminho”, alertou Freixo.

Mônica Benício, viúva de Marielle, ressaltou que as prisões são uma parte importante das investigações e manifestou preocupação em relação aos mandantes do crime. “Mas ainda falta a resposta mais urgente e necessária de todas: quem mandou matar Marielle. Espero não ter que aguardar mais um ano para saber quem foi o mandante disso tudo”, disse.

Anielle Silva, irmã de Marielle disse em entrevistas que recebeu a notícia das prisões com esperança, mas ressalvou que os mandantes do crime têm que ser identificados e presos. “Cada prisão, cada movimento é muito importante, mas enquanto família a gente se pergunta por que e quem mandou fazer isso”, disse, lembrando a demora nas investigações, já que o crime completa um ano no dia 14, próxima quinta-feira: “Tomara que, a partir de hoje, a gente consiga respirar e o Brasil pare de passar essa vergonha sem responder durante um ano um crime contra uma mulher que foi democraticamente eleita”.

MILÍCIA – A execução ocorreu na noite de 14 de março de 2018, quando o carro onde estavam Marielle, Anderson e uma assessora da parlamentar, que sobreviveu ao atentado, parou em um sinal no cruzamento das ruas Joaquim Palhares, Estácio de Sá e João Paulo I. Ronnie Lessa foi aposentado depois de sofrer um atentado a bomba que resultou na amputação de uma de suas pernas e que teria sido provocado por uma briga entre facções criminosas – oriundo do violento 9º BPM (Rocha Miranda). Já Élcio Queiroz foi expulso da corporação. Ele chegou a ser preso em 2011 na Operação Guilhotina, da Polícia Federal, que apurou o envolvimento de policiais militares com traficantes de drogas e com grupos milicianos. Na época, Queiroz era lotado no Batalhão de Olaria (16º BPM).

BARBÁRIE – Segundo a denúncia das promotoras Simone Sibilio e Leticia Emile, o crime foi “meticulosamente” planejado três meses antes do atentado. Lessa e Élcio foram denunciados pelo assassinato e a tentativa de homicídio de Fernanda Chaves. O MP também pediu a suspensão da remuneração e do porte de arma de fogo de Lessa, a indenização por danos morais aos familiares das vítimas e a fixação de pensão em favor do filho menor de Anderson até completar 24 anos de idade. “É inconteste que Marielle Francisco da Silva foi sumariamente executada em razão da atuação política na defesa das causas que defendia. A barbárie praticada na noite de 14 de março de 2018 foi um golpe ao Estado Democrático de Direito”, ressaltam as promotoras na denúncia.

Segundo as investigações, Ronnie Lessa fez pesquisas na internet sobre locais que a vereadora frequentava e, desde outubro de 2017, monitorava a vida de Freixo, além de ter feito buscas sobre o então interventor na segurança pública do Rio, general Braga Netto. Outro termo pesquisado pelo miliciano foi a submetralhadora MP5, que pode ter sido usada no crime. Na noite do atentado, o sargento reformado usava uma espécie de “segunda pele”, uma malha que cobria os braços e serviria, segundo a polícia, para impedir que ele fosse reconhecido.

Lessa foi incriminado após a quebra do sigilo dos seus dados digitais pela investigação. Os arquivos remotos acessados por ele pelo celular, antes do crime, revelaram que o sargento monitorava a agenda de eventos dos quais a vereadora participava. Marielle, segundo a investigação, participou de pelo menos uma das agendas pesquisadas pelo suspeito. No dia do crime, Lessa usava um celular comprado com o CPF de terceiros para não ser rastreado. O aparelho registrado na operadora telefônica em nome do próprio sargento foi usado no dia do duplo assassinato por uma mulher em um bairro da Zona Sul, com o objetivo de confundir a polícia, mas ele foi identificado por meio de uma triangulação de antenas das estações de rádio-base.

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