OPINIÃO

Odiotas

Publicado em 8 de julho de 2015

Luis Fernando Verissimo, em sua crônica intitulada Ódio, introduz com propriedade a edição de julho do Extra Classe. Nela, recupera o episódio em que o apresentador da Rede Globo, Jô Soares, teve a frente de sua casa pichada com impropérios e ameaças de morte. O motivo, entrevistou em seu programa a presidenta Dilma Rousseff.

O discurso raivoso também dá o tom nas redes sociais, verdadeiros tribunais de ódio. Não diferente tem se mostrado o comportamento de parlamentares e vereadores, que insuflam e fazem esse sentimento reverberar. Um exemplo lamentável foi o episódio entre os vereadores de Porto Alegre Nereu D’Ávila (PDT) e Jussara Cony (PCdoB). O primeiro referiu-se à segunda com postura machista e de baixo calão (pág 7). Isso ocorreu na mesma sessão e semana em que foi modificado o texto do Plano Municipal de Educação, que a exemplo do que ocorreu com a votação do Plano Estadual (pág. 10), todas as referências às questões de gênero que representavam significativos avanços foram suprimidas, por pressão de igrejas e lobby conservador.

Esses comportamentos vêm na esteira dos movimentos antipetistas e antiDilma, que se acirraram durante o final da última eleição presidencial. Movimentos gradualmente alimentados por escândalos de corrupção cirurgicamente escolhidos e reverberados por empresas de comunicação com interesses políticos.

Os derrotados na última eleição, hoje maioria no Congresso, avançam em bloco tanto contra o governo eleito, no sentido de enfraquecê-lo, quanto contra avanços e direitos conquistados pela sociedade. O tom dos discursos é de ódio e esse ódio premeditado pelas cúpulas tem encontrado eco em boa parte da população. Por fim, a recíproca também raivosa, dos que se identificam com o governo.

Tal e qual a ficção de George Orwell, 1984, em que antes das refeições o povo assistia vídeos do que era considerado inimigo para manifestar sua ira, na vida real (ou virtualmente real), o Big Brother são as redes sociais, citadas no começo deste editorial, que proporcionam o campo de batalha para que os odiotas exercitem seus discursos e elejam seus inimigos. Um golpe pode estar em curso, não apenas contra a democracia, mas contra o que consideramos ser a civilização.

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