OPINIÃO

Queimadas impactam saúde na Amazônia

Relatório elaborado por pesquisadores estabelecem correlação entre o adoecimento da população e os incêndios que se seguem ao desmatamento na região
Por Gilson Camargo / Publicado em 21 de setembro de 2020
Incêndios na Amazônia aumentaram quase 30% em julho

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Incêndios na Amazônia aumentaram quase 30% em julho

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“O ar é insuportável”. Essa é a síntese do relatório elaborado pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (Ieps) em parceria com o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e a ONG Human Rights Watch (HRW), sobre o impacto negativo das queimadas associadas ao desmatamento na Amazônia na saúde pública da região em 2019. O levantamento de 2020 deve ser divulgado somente em 2021.

Foram 2.195 internações devido a doenças respiratórias atribuíveis às queimadas, das quais 467 (21%) foram de bebês de 0 a 12 meses de idade e 1.080 (49%) pessoas idosas, com 60 anos ou mais. O estudo descobriu que os pacientes passaram um total de 6.698 dias no hospital em 2019 em razão da exposição à poluição do ar decorrente das queimadas. “O desmatamento e as queimadas subsequentes ocorrem nos territórios indígenas ou em seu entorno, às vezes destruindo plantações e afetando o acesso a alimentos, plantas medicinais e caça”, destaca o relatório.

Os problemas de saúde na região tendem a se agravar, considerando que as queimadas se intensificaram em 2020. O desmatamento no primeiro semestre de 2020 aumentou 25% em relação ao mesmo período no ano passado. Em abril, as áreas desmatadas e não queimadas em 2019 somadas às recém-desmatadas já totalizavam 4.509 quilômetros quadrados que poderiam ser queimados durante a estação seca. Junho registrou quase 20% mais focos de calor e julho teve um aumento de 28% em relação ao mesmo mês do ano anterior.

O preço do arroz

Agosto teve o maior custo da sesta básica em quatro anos, puxado pelo arroz e o feijão. A receita para a explosão dos preços do arroz no período tem vários ingredientes: o país exportou 983 mil toneladas no semestre, quase o dobro de 2019, e a produção vem caindo nos últimos sete anos. Mas o principal fator é a falta de políticas de abastecimento, marcada pelo desmonte e privatização da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). “Quando um governo abre mão de ter um estoque público para regular preços em momentos como esse, entrega para o mercado essa dinâmica”, constata o agrônomo Silvio Porto, da UFRB, que dirigiu a Conab de 2003 a 2013.

Natureza morta

Os incêndios deliberados por fazendeiros no Pantanal já atingem o santuário das onças no Mato Grosso

Foto: Pablo Petracci / Greenpeace

Os incêndios deliberados por fazendeiros no Pantanal já atingem o santuário das onças no Mato Grosso

Foto: Pablo Petracci / Greenpeace

O país que estampa seus animais nas notas de dinheiro assiste impassível ao avanço do fogo ateado por fazendeiros que está consumindo o Pantanal. A maior e mais biodiversa área úmida do planeta tem 2 mil espécies de plantas, 582 de aves, 132 de mamíferos, 113 de répteis e 41 de anfíbios. A única espécie que não vinga na região são os fiscais do Ibama. O órgão afrouxou a fiscalização e aplicou 22% menos multas neste ano, apesar do avanço da boiada. O fogo já destruiu 15% da região ou 2,3 milhões de hectares – ou quatro vezes a área do DF, de onde saem as fagulhas que incineram o país.

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