OPINIÃO

Procurem outro mito

Por Moisés Mendes / Publicado em 11 de setembro de 2021

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Os fiéis e históricos militantes da extrema direita brasileira, os que acreditaram nos blefes de Bolsonaro e dos filhos dele, os ingênuos que correram riscos nas ruas gritando contra o Supremo – todos eles deveriam exigir a renúncia do sujeito.

Todos foram traídos pelo recuo de Bolsonaro. Foram traídas as milhares de pessoas que entraram em ônibus lotados por uns trocos e viajaram durante horas para se aglomerar em Brasília no 7 de Setembro, os tios que aplaudiram o discurso golpista na Avenida Paulista, os caminhoneiros que levaram a sério o estado de sítio, os eleitores fiéis de Bolsonaro, a família que tem Deus acima de tudo – todos eles deveriam invadir Brasília e depor Bolsonaro.

Os que achavam que Bolsonaro iria fechar Supremo e Congresso, que mandaria prender Alexandre de Moraes, que seria o novo imperador brasileiro – todos eles devem exigir que Bolsonaro peça para ir embora e busque asilo na Polônia.

Os cidadãos que defenderam os militares como guardiães da moralidade, que viram Braga Netto ao lado de Bolsonaro no palanque em Brasília, que chegaram a pensar em uma nova ditadura com perseguições, cassações e mortes – todos devem pedir explicações aos que dão suporte ao poder exercido por Bolsonaro.

Os negacionistas, que seguiram Bolsonaro e atacaram todas as vacinas (menos as negociadas com os coronéis de Pazuello), que pregaram os milagres da cloroquina, que brigaram com parentes e amigos defendendo a Ivermectina – todos os que negaram a ciência, inspirados nas falas e nas atitudes de Bolsonaro, deveriam abandonar o líder que os traiu.

Os homens honestos que ficaram com Bolsonaro, sabendo que ele apenas se preocupa em salvar os filhos desonestos, as mulheres moralistas que seguiram Damares, os motoqueiros que fizeram desfiles com Bolsonaro pelo golpe – todos podem se considerar abandonados pelo homem que se rendeu ao Supremo.

Os líderes mundiais de extrema direita, que esperavam contar com Bolsonaro como o grande chefe de todos eles, os racistas, os xenófobos, os homófobos, os que detestam índios, os criminosos grileiros, os latifundiários do agropop, os destruidores da Amazônia, os garimpeiros – todos sabem que Bolsonaro não é mais o mesmo.

Os que acreditaram na ameaça de Bolsonaro de que não haveria eleição em 2022 sem o voto impresso, os que ouviram suas advertências de que a hora dos inimigos iria chegar, os que o escutaram dizer em Joinville a frase “aquele filho da puta do Barroso”, os que aplaudiram seus ataques à China – todos estavam ao lado de um frouxo.

O mito que se apresentou ao país muito antes da eleição de 2018, e que todos sabiam quem era, não existe mais.

Não existe mais o sujeito que pregou a guerra, mandou que a população se armasse para defender o golpe e que ameaçou não cumprir decisões da Justiça.

O que existe é um homem acossado, que tem sustentação política comprada no Congresso, que não sabe até que ponto pode contar com os militares, que está sendo abandonado pelo empresariado e pelos banqueiros e que trata apenas de se proteger e proteger os filhos.

Quem quiser que continue ao lado do homem, mas não há mais o mito. Por mais que tente reavaliar o pedido de trégua ao STF e procure voltar ao que era, o líder do fascismo brasileiro nunca mais será o mesmo.

Os que se sentirem abandonados e pretendem levar adiante as ameaças, as notícias falsas, o ódio, a difamação, os blefes de golpe – esses devem procurar outro mito.

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