OPINIÃO

A mineração e as promessas milagrosas não cumpridas na economia do RS

Essas soluções não só não en­tregaram o que prometeram, como também agravaram a situação financeira do estado
Por Marco Weissheimer / Publicado em 7 de junho de 2019
Debate realizado no dia 22 de maio, na Faculdade de Economia da UFRGS sobre a instalação de Polo Carboquímico entre Eldorado do Sul e Charqueadas

Foto: Igor Sperotto

Debate realizado no dia 22 de maio, na Faculdade de Economia da UFRGS sobre a instalação de Polo Carboquímico entre Eldorado do Sul e Charqueadas

Foto: Igor Sperotto

Volta e meia, as manchetes dos meios de comunicação do Rio Grande do Sul anunciam uma boa nova que vai, finalmente, redimir a economia do estado. Isso já aconteceu, para citar alguns exemplos, no episódio da renegociação da dívida do estado e da privatização da Companhia Riograndense de Telecomunicações (CRT) e de parte da CEEE, durante o governo de Antonio Britto (PMDB), da instalação da fábrica da GM em Gravataí, no anúncio de um megainvestimento da indústria de celulose, durante o governo de Yeda Crusius (PSDB) e agora, mais recentemente, com um bloco de projetos de mineração que prometem abrir um novo ciclo de desenvolvimento no estado.

No dia 21 de setembro de 1996, a manchete do jornal Zero Hora afirmava: “Rio Grande liquida a dívida”. A principal foto da capa mostrava o governador Antonio Britto na época e o então ministro da Fazenda, Pedro Malan, sorridentes, comemorando o acordo de renegociação da dívida do estado que, conforme o jornal, estaria “limpando a ficha dos gaúchos”. Em um editorial publicado no dia seguinte, ZH destacava a demissão de servidores e a disposição do governo Britto em privatizar empresas estatais. Com essas medidas e a renegociação da dívida feita por Britto, o Rio Grande do Sul estaria, segundo ZH, “liberado para novos empréstimos e investimentos”. José Barrionuevo, principal colunista político do jornal na época, escreveu (22/09/1996): “A renegociação da dívida obtida pelo governo Britto liberta o estado do maior obstáculo ao seu desenvolvimento”.

Essas soluções não só não entregaram o que prometeram, como também agravaram a situação financeira do estado. Em um texto de apresentação ao “Relatório Anual 2014 Dívida Pública Estadual”, elaborado pelo Tesouro do estado, Giovani Feltes (secretário da Fazenda do governo Sartori) afirmou: “A dívida pública do estado atualmente supera os R$ 54 bilhões, 86% dos quais compostos pela dívida renegociada com a União em 1998”.

No dia 11 de julho de 2007, a então governadora Yeda Crusius, após uma reunião com a direção nacional da Aracruz, anunciava que a empresa faria um investimento de US$ 2 bilhões na ampliação das áreas de plantio de eucalipto, de produção de celulose e na construção de três portos hidroviários (em Guaíba, Rio Pardo e Cachoeira do Sul) e um marítimo (em São José do Norte). Esses investimentos gerariam cerca de 12,5 mil empregos diretos. Na mesma ocasião, a empresa anunciou a criação de uma nova fábrica, no município de Guaíba, para a produção de celulose branqueada de eucalipto. Yeda Crusius comemorou o anúncio dizendo que o empreendimento transformaria “todo o Rio Grande do Sul a partir da sua região Sul”.

No dia 15 de abril de 2008, Yeda Crusius anunciou um investimento de R$ 4,9 bilhões da Aracruz para a ampliação da unidade de Guaíba. “Se inicia hoje um novo ciclo de desenvolvimento no Rio Grande do Sul. Acabou a fase da Metade Sul como uma região problema. O empreendimento é uma GM e meia”, disse, então, a governadora. No final de 2008, porém, as notícias davam conta que a Aracruz havia acumulado um prejuízo de US$ 2,13 bilhões em virtude de operações no mercado financeiro. A unidade da Aracruz no estado, em Guaíba, acabou sendo vendida por US$ 1 bilhão para a chilena CMPC. Mais uma vez, a promessa de “um novo ciclo de desenvolvimento” não se concretizou.

Agora, a nova promessa vem da mineração. Um bloco de projetos novamente acena com o horizonte da redenção econômica. Quatro se destacam: Caçapava do Sul (mineração de chumbo, cobre e zinco às margens do rio Camaquã), Três Estradas (extração de fosfato em Lavras do Sul), Retiro (mineração de titânio em São José do Norte) e Mina Guaíba (mineração de carvão entre Eldorado do Sul e Charqueadas, a 16 quilômetros de Porto Alegre). Somente esse último projeto, conforme o engenheiro Cristiano Weber, da Copelmi Mineração, propiciará a instalação de um polo carboquímico que faria o PIB do estado aumentar em até R$ 23,4 bilhões entre 2019 e 2042. Esse projeto, além dos impactos ambientais, obrigaria a remoção das famílias que vivem no Condomínio Guaíba e no assentamento Apolônio de Carvalho, o qual integra o conjunto de áreas que faz do MST hoje o maior produtor de arroz orgânico da América Latina (Leia reportagem nas páginas 8, 9 e 10 desta edição).

Em um debate realizado no dia 22 de maio, na Faculdade de Economia da UFRGS, Francisco Milanez, presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (Agapan), lembrou que, ao lado de Charqueadas, temos a mais antiga mineração do estado e a cidade segue pobre. “Que opção de desenvolvimento é esta?”.

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