OPINIÃO

Desinterpretações

Por Fraga / Publicado em 15 de julho de 2019

Ilustração: Rafael Sica

Ilustração: Rafael Sica

Os livrões nem fizeram tintim: engoli­ram num gole só e pediram outras doses. A primeira a desabafar foi a Bíblia: – Vo­cês viram a Marcha para Jesus?

 

A Bíblia, a Constituição e o Código Penal entram num bar.

O garçom estranha: nunca viu nenhum deles ali. E a má aparência: os livrões estão com as capas sujas, meio desfolhados, com pequenos rasgões. Fossem pessoas, o garçom diria que estão arrasadas. Natural entrarem em busca de algum alívio.

O garçom quer saber o que vão tomar.

A Bíblia, que sempre preferiu beber água transformada em vinho, inova o pedido, feito com um tapa na mesa: – Traz aquela que matou o guarda!

A Constituição, acostumada com uísque, champanhe, poire e até caninha, se horroriza. Com o que resta da antiga classe, reage: – Nada disso, amiga, olha a compostura! Pra começo do nosso merecido porre, vamos nos reconfortar com conhaque.

O Código Penal, que mantinha abstinência somente nos tribunais, falou com voz soturna, bem de acordo com os estragos na sua encadernação: – Tudo que vocês pedirem, eu topo. Não aguento mais a situação nacional que vivemos.

O garçom saiu para buscar o Dreyer, que bar de piada nunca teria Macieira ou Hennessy.

Os livrões nem fizeram tintim: engoliram num gole só e pediram outras doses. A primeira a desabafar foi a Bíblia: – Vocês viram a Marcha para Jesus? Os caras faziam arminha com as mãos! Jesus disse amai-vos uns aos outros e esse pessoal entendeu matai-vos! Pra eles Jesus é comunista, logo Ele, sujeito apartidário, sem preconceitos. E apesar Dele pôr a paz acima de tudo, Jesus é criticado em tudo que diz e faz! Não suporto mais ser mal-interpretada!

Daí em diante, muita bebida, desabafo e choradeira. O canto do bar parecia ter sido bombardeado.

A Constituição tentava consolar a Bíblia. Em seguida, já meio desmilinguida, disse o que mais a afligia: – E eu, que se baseiam em mim para justificar conspirações, conluios e até golpes? Falam que me respeitam, que me seguem, mas quantos presidentes já derrubaram? Me interpretam sempre com interesses antidemocráticos, já não sirvo de referência para o país. Me sinto inútil!

O Código Penal, igualmente triste e transtornado, falou com voz arrastada: – Puizé, só eu sei o que passo com o STF. É um tal de condenar alguns e absolver outros, de prender estes e soltar aqueles. Me interpretam errado a torto e a direito. A justiça não é mais questão de instância, é de inconstância. E que vergonha essa promiscuidade entre juiz e procurador!

A Bíblia ainda tentou animar os companheiros: – E pensar que a gente devia ser um abrigo pro brasileiro desamparado pelos poderes.

Foi aí que o garçom chegou perto, falando baixinho: – Os fregueses querem saber o que há com vocês. O que eu digo para o povo?

Os três responderam numa só voz, embargada e embriagada: – Fala que as instituições continuam de pé.

 

Fraga é escritor, humorista, publicitário. Escreve mensalmente para o jornal Extra Classe.

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