OPINIÃO

Encruzilhada

FRAGA / Publicado em 15 de dezembro de 2020

Encruzilhada | Fraga | Dez 2020

Ilustração: Rafael Sica

Ilustração: Rafael Sica

Carrefour, em francês, quer dizer encruzilhada. O que define bem o lugar onde o Brasil se encontra até hoje, seu imutável endereço histórico há 520 anos.

O país parece adorar encruzilhadas, seja para um despacho noturno com galinha morta, papel vermelho e velas, seja para despachos top secret com o poder americano do momento.

É como se, numa encruzilhada ideológica, em vez do Brasil decidir por consenso a direção a tomar, o país se guiasse apenas pela plaquinha indicativa que a CIA cravou em nosso caminho, há décadas: proibido virar à esquerda.

Quer dizer: siga sempre à direita, Brasil. E nessa direção só não vai quem já morreu na guerrilha do Araguaia, na tortura do anos de chumbo, nas garras do Ustra, o brilhante inspirador do direitista-mor no Planalto.

Um país que hipoteticamente soubesse para onde vai, seria natural que experimentasse variar de rumo a cada encruzilhada a cada quatro anos: ora à direita, ora à esquerda, e assim passando maus bocados ou bons períodos, conforme a orientação ou a desorientação da maioria dos seus eleitores.

Desse modo, alternando direções, mesmo que acabasse num zig-zag por inebriante democracia, ainda assim o país seguiria em frente. Dono do próprio nariz, poderia corrigir a rota, aperfeiçoar o andar – avançar socialmente. Se as elites topassem largar o osso vez em quando.

O problema de se dobrar sempre à direita é a semelhança com aquele cachorro perseguindo o próprio rabo: mil voltas sem sair do mesmo lugar, a forma mais cega e estonteante de recuo. Comparação boba, caso o bicho direitista não fosse um pitbull a morder a si mesmo e a quem ousar interromper seu carrossel animal.

Num país reaça e estacionário em rodopio ferozmente autoritário, de nada adiantam as encruzilhadas: as possibilidades de um passinho à esquerda, por favor, são vistas como ameaça comunista. Tão perigosa rotulam a esquerda que seu vizinho à direita, o Centro, agora virou hospedeiro da extrema-direita.

O assassinato no Carrefour simboliza aonde chegamos: a brutalidade desse governo impregnou até a iniciativa privada. Se os seguranças de um supermercado se sentem à vontade para agredir um cliente até a morte, é sinal que a empresa acha legítimo adotar a desumanidade do deprimente da República.

A encruzilhada de 2018 trouxe o Brasil a um beco moral e ético. E não dá pra esperar pela encruzilhada de 2022. Impeachment já.

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