OPINIÃO

Os crimes do tiozão do Whats

O sujeito que passa adiante informações mentirosas, como se fossem verdades científicas, é tão responsável pelas mortes na pandemia quanto os chefes do genocídio
Por Moisés Mendes / Publicado em 9 de julho de 2021

Foto: Free Pics

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O sujeito considerado desinformado ou ignorante, facilmente manipulável, deixou de ser a figura capaz de representar o propagador de notícias falsas com abordagens pretensamente científicas. O espalhador-padrão de fake news é outro e está ao nosso lado disfarçado de tiozão ou primo ou sobrinho fofo.

O cara que contribui não só para a difamação política, mas que também induz ao erro e à morte, é branco, com boa formação, algumas vezes com liderança comunitária e com histórico familiar impecável.

Esse é o repassador das informações falsas que grupos articulados dentro e fora do governo geram, quase sempre a partir de Brasília. Os outros, incluindo os manipulados por incapacidade de discernimento, apenas reproduzem o comportamento dos líderes desses grupos. As cidades do interior conhecem bem todas essas figuras.

O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo, é hoje a principal autoridade brasileira envolvida na busca das muitas faces do disseminador de inverdades.

Moraes arquivou uma investigação no STF sobre as máfias das mentiras, atendendo a uma solicitação da Procuradoria-Geral da República, mas enfiou a mesma PGR em outra arapuca: abriu uma nova investigação sobre o mesmo assunto e possivelmente mais ampla.

O que temos da primeira investigação sabotada pelo governo e pela PGR é a descoberta de indícios sobre o funcionamento de organizações abrigadas dentro do Palácio do Planalto para produzir desinformação. Eduardo Bolsonaro e seu irmão Carluxo são do comando dessa estrutura.

Na pandemia, essas mentiras deixam de se encarregar de ódios e injúrias e têm relação com a propaganda e a distribuição da cloroquina, com a exaltação de outros medicamentos que teriam alguma função em tratamentos ditos precoces e, o que é mais grave, com o boicote à vacinação.

E todos os crimes já configurados na produção e divulgação de notícias pretensamente científicas têm a participação, como mandalete virtual, do tio do WhatsApp. Sem ele, a mentira não circula.

O tiozão é a figura que obedece a ordens de gente com o perfil de Eduardo Bolsonaro, citado 12 vezes por Alexandre de Moraes, na abertura do novo inquérito, como um dos chefes da produção de fake news dentro do governo.

O tiozão do WhatsApp não é apenas o vizinho, o conhecido distante, o parente de alguém que conhecemos. O tiozão está bem perto, em todas as famílias. Até antes da eleição de Bolsonaro ele era apenas um sujeito reacionário, às vezes engraçado e quase sempre tolerável.

O tiozão foi quem ajudou a propagandear que a vacina chinesa era, além de comunista, um imunizante imprestável. Foi ele quem ajudou Bolsonaro a boicotar todas as vacinas.

Enquanto o boicote crescia, a turma do governo tentava viabilizar as vacinas bolsonaristas, aquelas que permitissem negociatas com participação de civis e dos que o presidente da CPI da Covid, Omar Aziz, definiu como “o lado podre das Forças Armadas”.

O tiozão foi decisivo para que se criasse o clima propício ao retardamento das compras de vacinas consagradas, enquanto eram articulados os grupos de interesse, dentro e fora do governo, em torno das vacinas sem aprovação até mesmo em seus países de origem.

O tiozão do WhatsApp e das redes sociais deu suporte, distribuindo mentiras, aos planos das facções em disputa no Ministério da Saúde pelas compras de vacinas.

Os crimes da vacina têm a cumplicidade dos espalhadores de fake news. Eles reforçaram as dúvidas sobre a eficiência de imunizantes que não interessavam aos atravessadores do Centrão e dos grupos articulados em torno dos coronéis de Bolsonaro e Eduardo Pazuello.

O espalhador de fake news é um militante mobilizado por argumentos ideológicos de direita e de extrema direita, sob o disfarce do compromisso com a ciência. Ele corre o risco de transferir informações criminosas em nome do projeto de Bolsonaro.

O tiozão do Whats é tão criminoso quanto as quadrilhas formadas dentro do Ministério da Saúde para saquear e patrocinar o genocídio.

Não há atenuante para quem, sabendo o que faz, ajudou a confundir a população, potencializou medos, fabricou mágicas de interesse do governo e induziu as pessoas à morte. O tiozão do Whats não é um brincalhão, é um delinquente a serviço do genocídio.

Esse personagem, desmascarado pelo jornalismo, que a todo momento tem de desmentir o que ele ajuda a propagar, é um equivalente do dedo-duro e do espalhador de medos do tempo da ditadura.

Os colaboradores daquela época pegaram carona na anistia, contestada até hoje pela impunidade assegurada a assassinos e torturadores.

Mas desta vez não haverá anistia. O criminoso do Whats e das redes sociais também terá de ser julgado, como todos os participantes do projeto genocida que já matou mais de 530 mil brasileiros.

O sujeito do Whats a serviço da mentira e das quadrilhas de Brasília é mais do que um negacionista. O tiozão das fake news é um bandido fascista.

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