OPINIÃO

As Quadrilhas

FRAGA / Publicado em 15 de junho de 2022

Envio diário

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Arte: Rafael Sica

Arte: Rafael Sica

As quadrilhas existem desde o Império, e por isso imperam até hoje.

No começo, as quadrilhas não tinham gente de colarinho branco, reuniam apenas meliantes e maus elementos de andrajos.

Inspirados nas amizades entre aproveitadores, deram origem aos amigos do alheio. Sua inclinação era declinar verbos, tipo afanar, furtar, roubar.

Aí, conforme o “faturamento”, com frequência os bandos vestiam os babados da época e festejavam. Como ainda não permitiam mulheres na roubalheira, metade dos homens se travestia e assim formavam pares para dançar.

Os ladrões mais talentosos compunham músicas e tocavam, enquanto alguns cantavam. Daí, por umas noites, apenas se divertiam. Era folga da vida de larápios, o que era bom para a sociedade, com menos bens surrupiados. Acabou que as quadrilhas ficaram populares: o povo aplaudia aquela manifestação artística.

A sociedade evoluiu: veio a República, surgiram as leis e a polícia. Consequência: os amigos do alheio nem sempre alheavam tudo que queriam, o que não justificava o esforço de ensaiar e criar os figurinos. Resultado: nem todos os meses havia festejo.

Mais adiante, as precursoras da igualdade entre os sexos exigiram lugar nas quadrilhas. Isso foi ótimo: os homens já não precisavam se vestir de mulher pra dançar.

Com menos ocasiões para festejos, as quadrilhas sacaram: fazer a dança das quadrilhas poucas vezes por ano expunha menos os meliantes. E, com isso, podiam festejar melhor. O festejo ganhou estilo e as diversas quadrilhas do Brasil de antanho começaram a ter cara própria. Logo o costume ganhou grande público.

Foi quando apareceu um estranho fenômeno social: mesmo sem ter roubado ninguém nem saqueado nada, as pessoas honestas queriam participar das danças. Elas passaram a se infiltrar nos bandos e então as quadrilhas se tornaram mistas, de gente fora-da-lei e gente dentro da lei.

Como as leis e a polícia tinham ficado mais rigorosas, as danças acabaram se fixando numa data apenas, em junho.

Aí a influência dos cristãos nos bandos concentrou os festejos nos dias de São João e Santo Antônio. Dominadas pela maioria de participantes honestos, as quadrilhas adotaram as datas e assim nasceu a tradição que perdura.

O problema foi a invasão de gente que nem sabia roubar ou saquear, o que atrapalhava os negócios desonestos. A saída pra turma da ladroagem especializada foi se afastar das danças e atuar por baixo dos panos, sem gastar com tecido em roupas.

Em resumo: um tipo de quadrilha – a desonesta – parou de festejar, e o outro – honestíssimo – continuou a dançar em homenagem aos santos padroeiros. A Igreja aprovou a separação entre as quadrilhas, e as paróquias criaram seus arraiais. Mas é sabido que, no Banco do Vaticano, ainda há gente fora-da-lei, disfarçada com suas batinas, que nada mais são que simplificados vestidos de quadrilha.

Espero ter esclarecido o eventual leitor desta coluna.

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