OPINIÃO

Os amigos nazistas dos Bolsonaros

Por Moisés Mendes / Publicado em 28 de julho de 2022

Foto: Alan Santos/PR

Encontro em Budapeste, Hungria, em fevereiro

Foto: Alan Santos/PR

Bolsonaro é o homem das coincidências. A proximidade com nazistas é uma delas. Em fevereiro, o sujeito foi à Hungria e chamou o primeiro-ministro Viktor Orbán de irmão.

Orbán é um pregador de ideias nazistas. Descobre-se agora que o húngaro, presente na cerimônia de posse de Bolsonaro, ofereceu apoio do seu governo ao projeto de reeleição do irmão brasileiro.

A descoberta foi feita pela Folha de S. Paulo, três dias depois dos mais recentes comentários nazistas de Orbán, em visita à Romênia, quando disse que seu país não quer ter “um povo de mestiços”.

No mesmo sábado em que Orbán fez a declaração nazista, grupos nazistas desfilaram, por coincidência, com bandeiras com a suástica diante do local onde acontecia um evento em Tampa, na Flórida.

Era a Conferência do Turning Point, grupo da direita e da extrema direita americanas. Eduardo Bolsonaro, o filho a quem o pai atribuiu a tarefa dos contatos externos com o extremismo, era palestrante do evento. Trump era outro conferencista.

A Folha chegou à descoberta de que Orbán ofereceu ajuda a Bolsonaro (o que é uma afronta ao Brasil e ilegal) ao sair atrás de evidências suspeitas.

A ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Cristiane Britto, deixou num relatório de viagem a prova da conexão Bolsonaro-Orbán.

O documento relata a viagem de Cristiane para um evento em Londres, onde se encontrou com o ministro das Relações Exteriores húngaro, Péter Szijjártó.

Ali foi feito o oferecimento indecoroso. A ministra conversou sobre questões de família e costumes com o chanceler, preocupações com educação sexual de crianças nas escolas e outras questões do moralismo fascista. E recebeu a oferta: a Hungria queria ajudar Bolsonaro a continuar no poder.

Sabe-se que Bolsonaro e o irmão húngaro pensam a mesma coisa sobre quase tudo. Bolsonaro anda em busca de apoios externos, não à reeleição, mas ao projeto do golpe.

A ministra da Mulher apenas cometeu uma barbeiragem ao deixar escrito o que não poderia nunca ser admitido. Que um sujeito com vínculos com ideias nazistas quer interferir na democracia brasileira.

Há poucos dias, o jornalista Paulo Moreira Leite escreveu no site do Brasil 247 que a imprensa brasileira esconde há muito tempo esse tema quase intocado: as suspeitas de ligação do bolsonarismo com o nazismo.

Moreira Leite observa que nenhum grande jornal, com vastas equipes investigativas, dedicou-se ao assunto. O jornalista, que chefiou as grandes redações do país, escreve:

“Num país com empresas de mídia classificadas entre as maiores do planeta, nossos grandes jornais e emissoras de TV estão devendo reportagens investigativas, em profundidade, capazes de esclarecer as conexões nazistas da família Bolsonaro. Tanta falta de curiosidade chega a ser suspeita. Alguma dúvida?”

Lembremos que Bolsonaro foi, no começo do governo, o falso camaleão que chegou a ir a Israel para dizer que era amigo do seu povo.

Judeus brasileiros ultraconservadores, que topam qualquer negócio, e que sabiam quem era Bolsonaro, o aplaudiram em abril de 2017 na Hebraica no Rio.

Para esses judeus, o que importava era ter Bolsonaro como inimigo de Lula. Mesmo que judeus progressistas, principalmente os que integram o grupo Judeus pela Democracia, saibam muito bem a índole de Bolsonaro.

O que se vislumbra é que, com o fim de quatro anos de poder, o bolsonarismo se esfacele e se revele por completo como de fato é.

O fim da estrutura de poder da extrema direita pode expor suas entranhas que, como diz Moreira Leite, estão ainda encobertas com a cumplicidade das corporações de imprensa.

Bolsonaro já recebeu uma líder nazista em Brasília, a deputada alemã Beatrix von Storch. Mas quase tudo na vida dos Bolsonaros, do assassinato de Marielle a outros episódios macabros, é apresentado como coincidência.

Por coincidência, Bolsonaro recebe uma deputada nazista no Planalto. Por coincidência, o nazista Orbán ofereceu ajuda ao golpe (ou seria à auditoria paralela das urnas?). Por coincidência o filho de Bolsonaro foi a um evento com desfile de nazistas e por coincidência grupos nazistas continuam crescendo no Brasil e expressando apoio público a Bolsonaro.

São coincidências que talvez estejam perto do desvendamento. O que não há dúvida é que nazistas são bolsonaristas.


Moisés Mendes é jornalista. Escreve quinzenalmente para o jornal Extra Classe.

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