SAÚDE

Informações falsas contaminam debate sobre ensino presencial

Por Gilson Camargo / Publicado em 8 de outubro de 2020
"Se existe um espaço de diálogo, de uma construção dialógica, esse espaço é a escola"

Foto: Acervo Pessoal

“Se existe um espaço de diálogo, de uma construção dialógica, esse espaço é a escola”

Foto: Acervo Pessoal

O médico Ricardo Kuchenbecker, professor de epidemiologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), defende a construção de um consenso que envolva os professores, demais profissionais da educação, representação de pais, alunos e instituições em relação a um plano de retomada das atividades letivas presenciais no estado. O debate está contaminado por interesses ou ideologias, e a “infodemia”, a guerra de informações falsas e crendices sem base científica em torno da Covid-19, dificultam o discernimento em relação à gravidade da pandemia. “Não tenho conflito de interesses e afirmo isso porque em algum momento atores no processo de proposição da aceleração do retorno das aulas presenciais tinham conflito de interesses. O próprio sindicato patronal, à guisa da crise econômica que atinge o país e às escolas, exerceu alguma pressão para esta retomada”, resumiu ele no primeiro painel do Sinpro/RS Debates, realizado na terça-feira, 6 – o evento prossegue nesta quinta –, sobre os riscos e desafios da presencialidade, que abordou as implicações sanitárias na reabertura das escolas. “A estratégia para o reinício das aulas presenciais, nesse momento, é mais importante do que definir um prazo”, ressalta nessa entrevista.

 

Extra Classe – Há uma disputa de narrativas em torno da volta às atividades escolares de forma presencial. De que forma essa radicalização de posições atrapalha o debate?
Ricardo Kuchenbecker – Considerando que o Brasil é uma sociedade polarizada e dividida ao longo dos últimos anos, o contexto da pandemia só fez exacerbar essa divisão. Desde o início da pandemia havia pessoas que achavam que efetivamente a pandemia da Covid-19 era um problema de saúde pública e outras achavam que não. Portanto, para uns era necessário fazer lockdown (confinamento) e para outros não. Todo mundo no país hoje tem alguma opinião sobre lockdown, contra ou a favor, mas nós não temos uma definição operacional do que venha a ser isso, não está claro se alguma cidade adotou. Todo mundo tem opinião, mesmo sem saber exatamente o que isso significa. Chama a atenção, porque em uma sociedade polarizada, as informações científicas se perdem diante dessa dificuldade das pessoas, da sociedade, dos espaços públicos discutirem aquilo que efetivamente merece ser discutido.

EC – O que vale a pena discutir?
Kuchenbecker – Quais são as formas de proteção, como a população deve participar – e a escola não ficou alheia a essa polarização. Hoje a gente ve, nas comunidades, escolares pais, professores e demais funcionários da escola divididos entre os que aceitam e entendem como importante um processo de retomada gradual da escola e aqueles que não acreditam que isso seja possível em hipótese alguma e talvez só quando vier a vacina, o que pode significar meio ano, um ano a mais, para além desse período todo em que nós já estamos em isolamento. Então, essa polarização é a demonstração clara de que a sociedade não só precisa de acesso à informação científica, mas precisa também discutir e construir consensos ou seja, eu preciso ouvir o meu interlocutor, ele precisa me ouvir, e a partir de um processo dialógico construir saídas conjuntas para essa crise.

EC – Como o senhor avalia o modelo de distanciamento controlado adotado no estado?
Kuchenbecker – É muito interessante pensar que o estado do Rio Grande do Sul, no distanciamento controlado, em vários momentos houve uma tensão muito flagrante entre governador, prefeitos e empresários, quando na verdade esse processo deveria ser muito mais discutido e dialogado na perspectiva da sociedade, das cidades, da população nos seus diferentes segmentos. A escola também vive, por seu turno, esse momento. Há que quem diga que não volta e não permite que os filhos voltem, há professores que são contra o retorno e, por outro lado, quem quer voltar agora de modo irrefutável.

"Mais importante do que definir se começa com matemática na segunda ou na quarta é construir isso com os alunos, discutir os protocolos de segurança, é usar de uma lógica do cuidado"

Foto: Prefeitura Municipal de Teutônia/ Divulgação

“Mais importante do que definir se começa com matemática na segunda ou na quarta é construir isso com os alunos, discutir os protocolos de segurança, é usar de uma lógica do cuidado”

Foto: Prefeitura Municipal de Teutônia/ Divulgação

EC – E todos têm suas razões. Como acomodar essas diferenças?
Kuchenbecker – Se existe um espaço onde essa polarização pode ser, digamos assim diminuída, onde ainda pode haver espaço para uma discussão plural, onde as pessoas escutem o seu interlocutor, é a escola. O que nós vemos é que nem a escola está sendo poupada dessa polarização, o que gera um problema enorme porque, por exemplo, o Brasil é hoje um dos países que por mais tempo interrompeu as atividades escolares. Isso tem um prejuízo enorme, e a gente não está conseguindo nem discutir essa volta. É uma polarização de uma sociedade que está também permeando o espaço da escola, só que se existe um espaço de diálogo, de uma construção dialógica, esse espaço é a escola. Diante do medo que é natural, humano e compreensível, diante das ansiedades representadas por um retorno, lá pelas tantas muitos de nós não querem discutir, não querem debater e isso não é exatamente o papel de uma comunidade escolar.

EC – O senhor diz que na escola, espaço ideal para a construção do diálogo, as opiniões estão divididas. Como equacionar isso?
Kuchenbecker – Se nem a ciência foi capaz de dirimir essa polarização, de criar um espaço para o debate, para a interlocução efetiva, para uma escuta qualificada, sobrou para o último compartimento da sociedade que é a comunidade escolar. Existe uma diferença entre as evidências científicas, o que a ciência nos diz do ponto de vista do risco, e a percepção que as pessoas têm. E aqui de novo entra o papel da escola. Nós não vamos convencer professores e demais membros da comunidade escolar de fora pra dentro com protocolos. Ou esses protocolos sanitários, de prevenção do risco, são produzidos pelos professores, pelos trabalhadores da escola, por representação dos alunos e dos pais e da direção, ou seja, um processo construído de dentro pra fora, ou serão impositivos. E a imposição só gera mais medo, mais desconforto, mais polarização. A gente está vendo em muitas situações protocolos que pecam muito mais pelo excesso do que por medidas que efetivamente protejam as pessoas. Isso só gera mais sensação de medo, de ansiedade, de insegurança. Por isso, acredito que efetivamente a escola tem que ser mais capaz de discutir, muito menos em termos de quando vamos retomar as atividades presenciais e mais em relação a como faremos isso. E a processualidade de como retomaremos o componente presencial é que precisa ser discutida, dialogada e consensualmente construída.

EC – E as medidas isoladas não surtem efeito, até porque o ensino presencial envolve grupos diversos, extraescolares, como os motoristas etc…
Kuchenbecker – Exatamente, as escolas são o espaço da interação social, nós somos seres que interagem por definição e se o retorno às atividades escolares não propiciar essa interação, não faz sentido voltar. Eu vejo defensores de um retorno imediato e de outro lado defensores de um retorno indefinido, sem avançar em como construir essa processualidade, como garantir que em um retorno as escolas não sejam pequenos hospitais.

EC – O Nacional de Educação reconhece a impossibilidade de retomada do ensino presencial ao propor a fusão com o ano letivo de 2021 e flexibilização na avaliação dos alunos. O senhor acredita que está se criando um consenso de que o momento não é propício para esse retorno?
Kuchenbecker – Exatamente. O papel mais importante da escola hoje, sendo ela presencial ou a distância, nesse país com toda a dramaticidade que a questão da educação representa, é retomar um debate perdido. É retomar para as nossas crianças e adolescentes essa experiência de mais de 180 dias sem interagir com os colegas, com os amigos, com os professores. Esse é o debate. Esse pra mim é o currículo de uma escola que tem que construir o seu processo de retomada. Não é o currículo formal, mas o da vivência traumática de seis meses de afastamento.

EC – Como está a pandemia hoje no estado?
Kuchenbecker – A situação no estado hoje é de relativa estabilidade do ponto de vista do número de casos novos, de internações e de óbitos, mas ainda num patamar elevado. Isso significa que de um lado a gente já tem elementos para pensar numa certa estabilização e diminuição dos casos dessa curva que representou esse primeiro semestre. Por outro lado, algumas semanas a mais provavelmente sejam necessárias para a gente confirmar efetivamente essa tendência e é aí que entra a questão: nesse cenário de alguma indefinição é que podermos começar a experimentar essa processualidade da retomada gradual. Esse é o ponto.

"Ou esses protocolos sanitários são produzidos pela comunidade escolar ou ele serão impositivos"

Foto: Divulgação

“Ou esses protocolos sanitários são produzidos pela comunidade escolar ou ele serão impositivos”

Foto: Divulgação

EC – Como seria uma retomada com segurança?
Kuchenbecker – A questão mais importante é como retomar, como fazer isso de modo que os professores tenham segurança para si e para seus alunos, no sentido de acolher as crianças e os adolescentes de modo que eles possam, em grupos, dentro das rodas de amigos, das salas de aulas, processar todas essas vivências negativas e traumáticas do primeiro semestre. Isso é mais importante que os componentes curriculares tradicionais. É o componente curricular de uma escola aprendente que vai ter que processar essas vivências todas. Isso significa que mais importante do que definir se começa com matemática na segunda ou na quarta é construir isso com os alunos, discutir os protocolos de segurança, é usar de uma lógica do cuidado, quer dizer, os alunos precisam cuidar de si e cuidar dos outros. Se um aluno não vai na escola, a escola amanhã vai precisar ficar sabendo por que ele não foi, porque pode ser um caso de Covid-19. Essas questões todas de uma vida em comunidade são matéria precípua da finalidade de uma escola. Por isso, a gente precisa começar a construir esse processo. Só que pra isso acontecer, temos que diminuir o nível de ansiedade dos profissionais, professores e trabalhadores da escola. A gente não consegue fazer com protocolos e por decreto, mas construindo esses protocolos com eles, com a comunidade. Esse pra mim é o grande desafio desse período escolar que eu já emendaria, 2020 com 2021.

EC – O debate sobre o retorno é secundário?
Kuchenbecker – A pauta que nós estamos vendo na imprensa tradicional é o falso dilema, volta ou não volta; volta com touca, com tapete sanitizante, com máscara. Essa discussão é importante, mas ela é secundária, absolutamente secundária desse papel que a escola tem inclusive para viabilizar a volta segura dos seus próprios integrantes, sejam eles professores, alunos, funcionários.

EC – A lógica da escola não é salvar a economia em detrimento da vida…
Kuchenbecker – Absolutamente. A retomada da produção não é a lógica da escola. Nunca foi. E não vai ser agora. Nos comentários sobre o debate identificamos um grupo de professores que está preocupado, que está tenso, com medo. E esses sentimentos são genuínos. Como é que a gente vai ajudar esses professores a processar esses sentimentos é tão importante quanto ter protocolos, que são o reflexo disso e não o contrário. Se as escolas não estão elaborando os protocolos e chamando os professores a fazer parte disso, nós temos um problema; se estão elaborando com os professores, com os alunos e os trabalhadores da escola, ah bom, aí talvez tenhamos uma solução.

Comentários