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Erileide Kaiowá na ONU: Brasil promove derramamento de sangue indígena

Representante da Grande Assembleia dos povos Guarani e Kaiowá, a jovem Erileide Domingues, denunciou em encontro na ONU o descaso do Estado brasileiro com os povos indígenas: o país “é cego, surdo e mudo”
Por Gilson Camargo / Publicado em 21 de setembro de 2022

Foto: UPR Info/ Divulgação

Banho de sangue: Liderança Kaiowá fez duras críticas à forma como o governo brasileiro trata os povos originários

Foto: UPR Info/ Divulgação

O Estado brasileiro está pulverizando o ódio e promovendo um derramamento de sangue entre os povos indígenas, apontou a representante da Grande Assembleia dos povos Guarani e Kaiowá (Aty Guasu), a jovem Kaiowá Erileide Domingues, durante encontro no âmbito das Nações Unidas. Ela afirmou que o país “é cego, surdo e mudo”. A manifestação ocorreu durante a pré-sessão da Revisão Periódica Universal (RPU), no dia 30 de agosto, no espaço da ONU em Genebra, na Suíça. A pauta do encontro, realizado de 29 de agosto a 2 de setembro, foi a situação de direitos humanos no país e a preparação da sessão que deve acontecer em novembro deste ano. Durante o evento, o governo brasileiro foi duramente criticado por organizações da sociedade civil.

Ao embaixador do Brasil na ONU, Tovar Nunes, e demais representantes dos países que compõem as Nações Unidas, Erileide exigiu um basta de mentiras e afirmou que a crise sanitária da covid-19 agravou ainda mais a situação dos povos originários no país. “Os povos indígenas estão sofrendo há décadas, sendo massacrados e alvo de muita violência por falta de território. Disputamos o que é nosso com agronegócio, colocamos nossas vidas em risco”, denunciou.

Protesto Guarani e Kaiowá

Das 1.393 terras indígenas no país, 871 seguem com alguma pendência para sua regularização, o que significa duas de cada três sem demarcação; e 598 permanecem sem nenhum trâmite feito por parte do Estado, aponta o relatório do Cimi. “O território é o mais importante para nós, povos indígenas. Nós existimos e a paralisação na demarcação representa um dos principais ataques contra os povos, gerando muita insegurança e violência”, destacou Erileide que, junto ao seu avô, de 104 anos, lidera o tekoha Guyraroka, no Mato Grosso do Sul.

A liderança cobrou que o Brasil se mantenha como signatário da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho e garanta, efetivamente, o direito dos povos indígenas à consulta prévia, livre e informada; que reconsidere sua posição institucional acerca da Declaração da ONU sobre os direitos indígenas, que o atual governo tem criticado; e que retome e melhore a Política Nacional de Atendimento à Saúde Indígena e o sistema de educação escolar indígena.

Violência em terras indígenas

Foto: Divulgação

Relatório ‘Violência Contra os Povos Indígenas do Brasil’, publicado em agosto pelo Cimi

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Invasões, exploração ilegal de recursos, danos ao patrimônio ambiental, violências e assassinatos de lideranças. As investidas predatórias de madeireiros, grileiros e garimpeiros contra os territórios indígenas aumentaram de forma assustadora pelo sexto ano consecutivo no Brasil. Em 2021, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) registrou 305 invasões em 226 terras indígenas. Ao todo, 22 estados registraram esse tipo de investida. No ano anterior, foram 263 casos em 201 terras, em 19 estados. O levantamento está no relatório Violência Contra os Povos Indígenas do Brasil, publicado em agosto pelo Cimi com dados de 2021.

Sem demarcações nem proteção

O documento também revela que, no ano passado, as invasões acompanhadas de violências contra os povos indígenas triplicaram no Brasil. O Cimi destaca que o governo federal manteve, pelo terceiro ano consecutivo, a sua diretriz de paralisação das demarcações de terras indígenas e omissão completa em relação à proteção das terras já demarcadas. “Se, do ponto de vista da política indigenista oficial, essa postura representou continuidade em relação aos dois anos anteriores, do ponto de vista dos povos, ela representou o agravamento de um cenário que já era violento e estarrecedor”, constata.

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