AMBIENTE

Amazônia pode virar uma savana em 15 anos

Em Porto Alegre (RS), Ricardo Galvão, diretor demitido do Inpe por divulgar dados sobre o desaparecimento da floresta, alertou para os efeitos da negligência para o clima mundial
Por Naira Hofmeister / Publicado em 4 de outubro de 2019
Galvão: o Inpe alertou as autoridades sobre o aumento do desmatamento em diversas oportunidades, com dados corroborados pela Nasa e pela Agência Espacial Europeia, apesar da insatisfação do governo Bolsonaro

Foto: Leonardo Savaris

Galvão: o Inpe alertou as autoridades sobre o aumento do desmatamento em diversas oportunidades, com dados corroborados pela Nasa e pela Agência Espacial Europeia, apesar da insatisfação do governo Bolsonaro

Foto: Leonardo Savaris

A chuva constante em meio a uma jornada de 48 horas de protestos e paralisações da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) não impediu que uma centena de alunos e professores dedicassem parte da tarde desta quinta-feira, 3, a escutar o ex-diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Ricardo Galvão, em uma atividade promovida pelo Instituto de Física.

Galvão veio a Porto Alegre participar de uma banca de pós-graduação e aproveitou a viagem para falar à comunidade científica sobre seu trabalho e as desavenças com o governo Bolsonaro. O presidente da República o demitiu, um ano e meio antes do final de seu mandato, por divulgar dados do desmatamento da Amazônia que incomodaram sua gestão, em agosto.

“Eu quase desfaleci quando soube dos termos que ele usou para nos acusar: disse que os dados eram mentirosos e que eu estava a serviço de uma agência estrangeira. Na comunidade científica, isso pode significar o fim de uma carreira, é muito, muito grave”, recordou o físico, que é pesquisador, dá aulas na Universidade de São Paulo (USP) e já recebeu importantes prêmios em sua trajetória, incluindo a Ordem Nacional do Mérito Científico.

Durante duas horas, Galvão exibiu em um telão documentos comprovando que o Inpe alertou as autoridades sobre o aumento do desmatamento em diversas oportunidades – e que seus dados foram corroborados pela Nasa e pela Agência Espacial Europeia, apesar da insatisfação governamental. Apontou ainda estudos que alertam sobre os efeitos da negligência com a floresta e ainda disse que o presidente Jair Bolsonaro “mentiu” durante sua fala na conferência ONU, na semana passada quando disse que o Brasil mantém praticamente toda a Amazônia preservada.

“Desde 1500, desmatamos 4 milhões de quilômetros quadrados, quase 20% da floresta. Hoje sabemos que se passar dos 25%, a tendência para se tornar savana é irreversível, porque é um sistema muito complexo. O problema é que dos 20% desmatados até hoje, 11% aconteceram de 1988 para cá. Então, se os governos não reagirem, em 10 ou 15 anos vamos chegar aos 25%”, alertou.

Professores e alunos da Ufrgs

Foto: Leonardo Savaris

Auditório lotado de professores e alunos da Ufrgs

Foto: Leonardo Savaris

Um estudo já constatou que no sul do Pará, uma das regiões de maior derrubada de árvores no Brasil, a temporada seca está se prolongando, em média, 10 dias a mais do que em outras partes do bioma. Outra pesquisa comentada pelo físico indica que a capacidade da Amazônia de sequestrar carbono da atmosfera – fundamental para conter o aquecimento global – está caindo.

“É uma função extremamente importante para toda a humanidade. Concordo que a Amazônia é nossa, como disse Bolsonaro na ONU, mas a soberania vem com responsabilidades, e a atitude do presidente é preocupante”, lamentou.

 

Metas do acordo de Paris estão em risco

O ex-diretor do Inpe recordou o histórico e a capacidade da equipe técnica do centro de pesquisas, presente em oito estados brasileiros – no Rio Grande do Sul, há unidades em Santa Maria e em São Martinho da Serra. Também defendeu a metodologia de monitoramento da Amazônia, que está sendo colocada em xeque pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Aliás, em agosto de 2020, o Inpe deve lançar um novo satélite de vigilância da floresta, desenvolvido inteiramente dentro da casa e com tecnologia nacional.

“Medimos o desmatamento desde 1988 e hoje o mundo considera essa, a melhor série temporal mundial sobre desmatamento em florestas tropicais, com 95% acerto”, sublinhou.

Em um gráfico, ele mostrou que as medições feitas em 2019 indicam que o ano deve fechar com crescimento da derrubada de árvores. O índice vinha caindo desde 2004 até 2012, quando inverteu a tendência e voltou a aumentar. Em 2018, foram desmatados 7,9 mil quilômetros quadrados na Amazônia brasileira, mas este ano a situação deve piorar.

O problema é que o Acordo de Paris obriga o Brasil a reduzir radicalmente o corte ilegal de floresta, determinação que virou meta explícita no Decreto 9.578/2018. No texto, há compromisso com a redução de 80% nos índices anuais de desmatamento, em relação à média verificada entre 1996 e 2005 – que é de 19,6 mil km².

“Ou seja, em 2020, deveríamos ter um índice de desmatamento de 3,9 mil km², no máximo. E não vamos atingir essa obrigação, que é lei, porque esse ano vai ficar entre 8 mil km² e 10 mil quilômetros quadrados”, aposta.

Governo obscurantista

A opção do governo brasileiro diante desse cenário é desacreditar os dados do Inpe. “Os militares eram autoritários. Mas o problema deste governo é o obscurantismo”, sentenciou Ricardo Galvão.

Ele lembrou que não apenas o Inpe sofreu com a difamação de integrantes do primeiro escalão da República – o presidente incluído. Uma pesquisadora do Instituto Butantan que apontou prejuízos do uso de agrotóxicos “foi proibida de publicar seus dados e de trabalhar em projetos pesquisa”.

Apesar disso, o cientista acredita em uma reação social para enfrentar o descrédito da ciência e das instituições de pesquisa brasileiras – um fenômeno que ele tem observado no metrô de São Paulo. “Todos os dias eu sou abordado por cinco, seis pessoas – é o velhinho que combate incêndios na Amazônia, dizem”.

Dos interlocutores, ele escuta palavras de apoio e de agradecimento por sua atitude: muitos sequer tinham ideia dos efeitos nas suas próprias vidas das queimadas e do desmatamento na Amazônia e agora criaram grupos em suas comunidades, igrejas, escolas para alertar para um perigo real. “Eu não estive sozinho; recebi um apoio enorme da comunidade científica, e também de gente de fora, o que começou a me alegrar, me recuperei um pouco”, admitiu.

Por isso, Ricardo Galvão decidiu encerrar sua palestra com “uma mensagem de esperança para todos”: “Muita gente me pergunta se estamos caminhando para as trevas, mas eu acho que não, porque espero que dessa vez, a comunidade científica e a sociedade brasileira não se calarão”, concluiu, sob aplausos emocionados da plateia.

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