CULTURA

Terceirização do Gasômetro é uma caixa preta

Naira Hofmeister e Thayse Uchôa / Publicado em 11 de abril de 2019

foto: Igor Sperotto

foto: Igor Sperotto

Uma escultura em arame que reproduz os últimos trabalhadores a deixarem a Usina do Gasômetro em 1974 − quando ela fechou suas portas como central geradora de energia − segue no hall de entrada do edifício tombado. A silhueta dos operários de outros tempos é a recepção dos técnicos de hoje, cuja missão é assegurar a entrega do centro cultural reformado à cidade, em agosto do ano que vem. Detrás de uma proteção para evitar que se deteriore, a obra artística tem sido a única testemunha de um trabalho silencioso que a população não enxerga: em parte, em razão dos tapumes que cercam o prédio histórico, mas também porque ele acontece mais dentro de escritórios e gabinetes do que no chão da antiga indústria de eletricidade, e conta com pouca publicidade.

Fechado desde novembro de 2017, o centro cultural Usina do Gasômetro “está todo furado por dentro”, nas palavras do secretário de Cultura de Porto Alegre, Luciano Alabarse. É o reflexo do trabalho de prospecção das estruturas, comandado por engenheiros terceirizados − parte do plano de correr contra o relógio para ter a reforma pronta dentro um ano e meio. Se não for concluída até agosto de 2020, a prefeitura precisará reembolsar 3 milhões de dólares à Corporação Andina de Fomento (CAF), que financiou a recuperação com prazo estabelecido em contrato.

A primeira meta é crucial: a licitação de execução da obra precisa estar na rua já em abril. “A execução do projeto é perfeitamente viável no tempo que temos”, observa o arquiteto Tiago Holzmann, diretor da empresa 3C, responsável pelo projeto executivo da reforma. “O mais demorado são as burocracias e as liberações prévias”, avisa.

Qualquer erro no projeto pode ser fatal e os riscos são muitos em uma obra com a complexidade da que exige a Usina. É um prédio industrial adaptado para ser centro cultural, protegido pelo patrimônio histórico e maltratado pela falta de cuidados ao longo dos anos. Por precaução, os técnicos já estão estudando suas entranhas em busca de uma avaliação detalhada do comprometimento das estruturas − também para evitar surpresas como aquela rocha no solo que inviabilizou por anos a construção da trincheira da Anita Garibaldi, prometida para a Copa de 2014 e ainda em obras.

Terceirização do Gasômetro é uma caixa preta

Foto: Igor Sperotto

Foto: Igor Sperotto

Outra preocupação é evitar adequações de última hora para o plano de prevenção contra incêndios − o que poderia atrasar ou até embargar a reforma. Para isso, cada detalhe do projeto está sendo submetido ao Corpo de Bombeiros, que pediu alterações em saídas de emergência e o alargamento das escadas previstas. Vencida esta etapa, as plantas ainda deverão ser avaliadas pelo Conselho Municipal do Patrimônio Histórico Cultural (Compahc) para, só então, a licitação da obra ser posta na rua.

Adeus, ao modelo londrino

Foi o medo de ter mais uma obra não entregue na cidade que levou Luciano Alabarse a suspender o processo de reestruturação da Usina que vinha sendo tocado desde a administração anterior.

Seu antecessor, Roque Jacoby, tinha deixado o cargo “com a terceirização do Gasômetro encaminhada” e havia o dinheiro da CAF para investir na obra. O ex-secretário encomendou então um ambicioso projeto de reformulação à 3C arquitetura, que desenhou um centro cultural nos moldes da Tate Modern Gallery, em Londres. A obra de execução, entretanto, superaria facilmente R$ 40 milhões, quando a prefeitura dispunha, no máximo, de R$ 11 milhões pelo contrato de financiamento.

Quando o início das obras parecia iminente, com a Usina já desocupada e prestes a fechar para a reforma, a prefeitura anunciou uma mudança de planos. Era setembro de 2017 e os arquitetos já trabalhavam há dois anos no projeto, contratado por R$ 417 mil − que acabou descartado. “Não considero um atraso, mas um ganho. Não queria começar a obra com toda a pompa e circunstância e entrar para a história como o secretário que não entregou o Gasômetro para a população”, desabafa Alabarse.

No lugar do plano anterior, foi desenvolvida uma proposta arquitetônica focada no básico: adaptação das instalações às normas de acessibilidade, troca da rede elétrica, reparo de infiltrações e reforma da laje do quarto andar, que sofre com problemas estruturais.

Da proposta anterior, sobraram a troca de local da sala de cinema P.F. Gastal, que desce para o térreo, junto à Galeria dos Arcos, e a ideia de abrir uma operação gastronômica no terraço do quarto andar, de frente para o Guaíba.

Isso sim, o teatro Elis Regina que espera ser concluído há 25 anos, finalmente será inaugurado, seguindo os preceitos do projeto original, fruto de um concurso público. “Será um grande alívio, vou para casa com a missão cumprida”, comemora Alabarse, que é diretor teatral.

Transparência capenga

Não são apenas os tapumes que impedem a população de acompanhar o desenrolar da novela em que se transformou a reestruturação da Usina do Gasômetro. A falta de transparência no processo se revela em detalhes como a ausência do aditivo contratual com a 3C (R$ 90 mil), da lista de documentos oficiais referentes ao acordo com a CAF, publicados na página da prefeitura.

Questionados sobre o valor já investido no planejamento do novo centro cultural, Alabarse e o diretor da Usina, Luiz Armando Capra, desconversam: “Isso é com a (secretaria da) Fazenda”.

A prefeitura também nega acesso ao contrato de consultoria firmado com o Instituto Odeon e aos próprios relatórios provenientes do acerto, nos quais está desenhado um novo modelo de gestão para a Usina do Gasômetro, cuja administração deve ser terceirizada.

Não há certeza sequer sobre a manutenção do projeto Usina das Artes no Gasômetro. O programa beneficia grupos de teatro, dança e circo, provendo apoio financeiro e espaço físico. “Na lei, não há obrigação de que a residência artística seja feita na Usina. Eu até acho que não é um local apropriado para isso”, defende Alabarse, que, entretanto, reforça não ter tomado uma decisão sobre o projeto, que vai entrar no terceiro ano sem novos editais.

Um grupo de remanescentes da última chamada, em 2016 − cujos contratos venceram no ano seguinte − ocupa um prédio antes abandonado, no qual a SMC tem feito reparos. Hoje teto improvisado, a antiga escola municipal Santa Terezinha, vizinha da Vila Planetário, no cruzamento da Avenida Ipiranga com a Santana, pode se tornar morada definitiva do projeto.

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