CULTURA

Acervo desmembrado dificulta pesquisa sobre o folclore gaúcho

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Por Adriana Lampert / Publicado em 15 de setembro de 2021
A Biblioteca Pública do RS guarda acervo bibliográfico do IGTF, com 3.562 livros de tradição, folclore, nativismo, literatura gaúcha, e história do Rio Grande do Sul, além de um acervo de recortes, que estão em 222 pastas, sobre estes mesmos assuntos, e mais literatura oral, regionalismo, festas populares, alimentação típica gaúcha, e mais uma série de temas

Foto: Igor Sperotto

A Biblioteca Pública do RS guarda acervo bibliográfico do IGTF, com 3.562 livros de tradição, folclore, nativismo, literatura gaúcha, e história do Rio Grande do Sul, além de um acervo de recortes, que estão em 222 pastas, sobre estes mesmos assuntos, e mais literatura oral, regionalismo, festas populares, alimentação típica gaúcha, e mais uma série de temas ligados à cultura do Estado

Foto: Igor Sperotto

Organizado por mais de 40 anos, o acervo da Fundação Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore (FIGTF) está desmembrado e espalhado desde a extinção do órgão, ocorrida em 2017, durante a gestão do então governador, José Ivo Sartori/MDB.

Hoje, acessar o conteúdo do acervo FIGTF se tornou um desafio para pesquisadores e estudiosos dos costumes e manifestações artísticas do homem do pampa. Constituído no decorrer de mais de quatro décadas, o conjunto de indumentárias, fitas VHS, vídeos, áudios, livros, fotografias e slides, recortes de revistas e jornais, documentos de pesquisa sobre folclore e tradicionalismo e monografias da Faculdade de Música Palestrina (Famupa) foi desmembrado em 2017. Desde então, ocupa diversas instituições da Secretaria de Estado da Cultura do Rio Grande do Sul (Sedac-RS), e, apesar de estar em bom estado de conservação, “perdeu visibilidade e teve sua história enfraquecida”, na avaliação de especialistas.

“Qualquer acervo que passar por uma divisão perde um pouco do valor, uma vez que, a partir daí, a coleção fica espalhada”, observa o historiador Joel Santana da Gama. “Desmembrar um acervo é ruim, pois, além de se dividir em pedaços uma narrativa (antes contada pelo conjunto documental), se acaba empurrando um fardo para outras instituições, que já estão sobrecarregadas com um volume imenso de arquivos, e que seguem trabalhando com o mesmo número de funcionários e sem aumento de recursos.”

Coordenador do Sistema Estadual de Museus do governo do estado (SEM/RS) entre os anos de 2012 e 2014 (durante a gestão de Tarso Genro/PT), Gama pondera que, para que uma iniciativa como esta faça sentido, é preciso que se implemente uma “política de acervos clara”. “No caso do acervo do IGTF, que tinha um motivo para existir, a pesquisa e narrativa do tradicionalismo gaúcho se perdem a partir de seu desmembramento, é uma obra que se despedaça”, considera o historiador. Para ele, a percepção é de que a decisão foi tomada em cima de “custos financeiros” e não para salvar a memória ali contada.

38 anos de trabalho jogados fora

A separação dos arquivos documentais do tradicionalismo e do folclore gaúcho é até hoje motivo de desgosto para um dos últimos servidores de carreira que ainda atuava no Instituto em 2017. Naquele ano, o então governador José Ivo Sartori deu cabo desta e de outras nove fundações estaduais. “Sinto que joguei 38 anos de trabalho fora”, lamenta o pesquisador Terson da Costa Praxedes. Ele iniciou a jornada no órgão como auxiliar administrativo, mas, no decorrer da carreira, assumiu diversas funções (à medida que eram extintos cargos de funcionários aposentados). “Cheguei a ser diretor técnico por oito meses”, recorda. “Saí muito incomodado da entidade, pedi aposentadoria antes, por saber que o IGTF estava para ser extinto no mês seguinte. “Praxedes contesta a justificativa do fim das atividades da fundação, dada como “muito cara” para se manter. “Nosso orçamento anual era de R$ 835 mil para absolutamente tudo – salário dos funcionários e todas as outras despesas –, e quando a entidade fechou, só tinha dois funcionários de carreira, o restante (outros 12) eram todos cargos de confiança.”

Ao ressaltar que a extinção ocorreu em meio à expectativa de que fosse aberto um concurso (aprovado pelo governo Genro) para recuperar cargos da fundação, o ex-servidor da casa desabafa: “Foi tudo desmantelado por gente que não tem cultura”. Ele enumera uma série de realizações da entidade e valoriza o acervo, hoje distribuído em cinco instituições administradas pela Sedac-RS. “Muitos festivais nativistas surgiram através do incentivo do Instituto, e realizávamos inúmeras pesquisas e estudos sobre música, dança, indumentária, culinária, construções de casas coloniais e outras estruturas, como moinhos, fornos, cemitérios, enfim, uma série de fatores que narravam a história do folclore gaúcho.”

Parte do acervo pode estar perdida

Foi necessário desocupar uma das salas na CCMQ – que tinha direito por ser também diretora do Instituto Estadual de Música – para poder comportar o material levantado pelos tradicionalistas

Foto: Igor Sperotto

Foi necessário desocupar uma das salas na CCMQ, via Instituto Estadual de Música, para poder comportar o material levantado pelos tradicionalistas

Foto: Igor Sperotto

O ex-servidor afirma acreditar que parte do acerto “pode ter sido perdida” e critica o fato do arquivo ter sido fragmentado por tipos de documentos e não por assuntos, o que dificulta ainda mais o trabalho de quem busca resgatar a pesquisa completa de um determinado tema. Praxedes recorda que o acervo mudou de espaço por mais de uma vez. “Passamos por diversos endereços, até nos estabelecermos em um espaço que foi totalmente improvisado (porque o então governador Antonio Britto simplesmente deixou de pagar aluguel para o Instituto) e que durou 22 anos no Centro Administrativo do Estado.”

Isso talvez explique o motivo pelo qual os materiais encontrados, principalmente os discos, estivessem “mal acondicionados”, segundo aponta a diretora da Discoteca Pública Natho Henn, Cida Pimentel. Situado na Casa de Cultura Mario Quintana (CCQM), o local é uma das instituições que recebeu parte do arquivo – cerca de 14.220 itens, entre LPs (11.490), fitas K7 (630), e CDs (2.100) de música nativista e gaudéria – que saiu da última sede do IGTF.

Cida conta que precisou desocupar uma das salas na CCMQ –  que tinha direito por ser também diretora do Instituto Estadual de Música –  para poder comportar o material levantado pelos tradicionalistas. “Fiquei com a sala da Discoteca e cedi a outra para o acervo do IGTF, que está no quarto andar.” Antes de levar o arquivo para o espaço, ela e mais seis pessoas trataram de limpar o material. “Os discos estavam com mofo, foi feito todo um restauro deste acervo, dentro das técnicas possíveis. É um acervo muito importante, que resgata todo o histórico dos festivais de música nativista. Temos coisas incríveis ali.”

A diretora da Discoteca afirma que – mesmo durante a pandemia – há procura pelo acervo musical do IGTF: a maior demanda é de integrantes do tradicionalismo, “que querem ter certeza de que o material está bem conservado – e saem tranquilos, porque sim”, destaca Cida. “Mas também há alguma busca para pesquisa escolar.” A gestora observa que “é claro que o pessoal do tradicionalismo se ressentiu com a extinção do IGTF”, porém pondera que se for se considerar a boa “manutenção da memória”, as peças “foram para os devidos lugares” e, atualmente, se encontram em instituições “com expertise para cuidar e com qualificação para manter e preservar o acervo”.

Biblioteca mantém acervo disponível

Morgana Marcon, diretora da Biblioteca Pública do Rio Grande do Sul

Foto: Igor Sperotto

Morgana Marcon, diretora da Biblioteca Pública do Rio Grande do Sul

Foto: Igor Sperotto

Um desses espaços qualificados é a Biblioteca Pública do Rio Grande do Sul. “Recebemos o acervo bibliográfico do IGTF, com 3.562 livros de tradição, folclore, nativismo, literatura gaúcha, e história do Rio Grande do Sul, além de um acervo de recortes, que estão em 222 pastas, sobre estes mesmos assuntos, e mais literatura oral, regionalismo, festas populares, alimentação típica gaúcha, e mais uma série de temas ligados à cultura do Estado”, informa a diretora da instituição, Morgana Marcon. Segundo ela, todo material está disponível para consulta do público no Setor do Rio Grande do Sul da Biblioteca Pública.

Ao contrário do que suspeita o antigo servidor do IGTF (e também outros integrantes do tradicionalismo), Morgana garante que, pelo menos no que se refere ao acervo bibliográfico, nada se perdeu. “Eu acompanhei todo o processo, inclusive do transporte do material. Quando fomos buscar – eu, como diretora e bibliotecária, e mais duas arquivistas –, encaixotamos tudo, e numeramos as caixas.” A gestora afirma que o conjunto documental era, inclusive, registrado pelo Instituto. “Eles tinham um fichário catalográfico e todas fichas estão conosco, mas nós incorporamos os títulos que não tínhamos ao nosso acervo do setor do Rio Grande do Sul, com a observação de que eram da extinta biblioteca do IGTF.”

Morgana destaca que isso foi feito com metade dos livros que chegaram. “Foram catalogados e estão disponíveis para o público – os outros títulos, que já tínhamos, viraram nossa reserva técnica.”

Museu Antropológico

Também, o Museu Antropológico do Rio Grande do Sul (Mars) recebeu material do IGTF. No arquivo, constam cerca de 2,4 mil volumes de monografias de conclusão do Curso de Especialização em Folclore da Faculdade de Música Palestrina; registros feitos por Barbosa Lessa, Paixão Cortes e outros pesquisadores sobre diversos temas relacionados ao folclore gaúcho, e áudios, fitas VHS e fotos e slides relacionados a essas pesquisas; documentos referentes à história do IGTF; e em torno de 460 itens tridimensionais de vários tipos. Conforme a assessoria especial de Memória e Patrimônio da Sedac-RS, esta coleção de documentos e objetos está acondicionada em estantes e armários no espaço Décio Freitas, do prédio do Memorial RS, e será disponibilizada para pesquisa “à medida que os trabalhos forem concluídos”. Já os documentos do Memorial dos Festivais da Canção Nativa estão disponíveis para pesquisa no Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul (AHRS). Originada do extinto IGTF, existe ainda uma coleção de imagens sobre tradição e folclore que conta com aproximadamente 15 mil itens – entre negativos, diapositivos e cópias e contatos –, que está sob a responsabilidade do MuseCom. A instituição disponibiliza parte deste conjunto documental em seu repositório digital.

 

 

 

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