ECONOMIA

Há muito mais do que jabutis na privatização da Eletrobras

Uma questão paira no ar: por que a exigência da instalação de usinas termelétricas a gás, mesmo em regiões sem o mínimo de infraestrutura?
Por Marcelo Menna Barreto / Publicado em 23 de junho de 2021
Instalação de térmicas a gás em regiões sem gasoduto sugere que a possibilidade de interesses alheios aos consumidores de energia

Foto: Agencia Petrobras

Instalação de térmicas a gás em regiões sem gasoduto sugere a possibilidade de interesses alheios aos consumidores de energia

Foto: Agencia Petrobras

Cheia de “jabutis”, jargão político que denomina emendas estranhas à uma proposta legislativa original, a Medida Provisória 1.031/2021 que torna viável a privatização da Eletrobras foi aprovada à toque de caixa um dia antes do término do seu prazo. Enxertos incluídos no texto original do governo tanto por deputados quanto por senadores sinalizam um aumento no custo da energia para consumidores finais de R$ 84 bilhões nas próximas décadas.

Diante de fontes energéticas mais baratas como a eólica e a fotovoltaica, uma questão paira no ar: por que a exigência da instalação de usinas termelétricas a gás, mesmo em regiões sem o mínimo de infraestrutura?

Consultores individuais e consultorias especializadas no setor elétrico apontam uma possibilidade muito forte. A chamada transferência do ônus de uma categoria econômica para viabilizar outro setor.

Concretamente, no mundo, o artifício de se instalar uma usina a gás para viabilizar a construção de gasodutos como prevê agora o processo de privatização da maior estatal do setor elétrico da América Latina, é uma estratégia para desenvolver redes de distribuição de gás para as mais diferentes atividades. Do uso residencial ao empresarial.

Se por um lado existe o aspecto positivo de poder fazer chegar gás às mais variadas regiões sem assistência desse serviço, por outro, o negativo, é que quem pagará a conta do custo de toda essa infraestrutura não será o futuro consumidor do popularmente conhecido gás encanado. A conta, literalmente cairá no colo, nesse caso, dos consumidores de energia elétrica. Sejam eles consumidores residenciais, comerciais ou industriais.

Lobby a todo gás

“Acho que os congressistas nem se deram conta desse detalhe. O lobby do gás é pesado”, diz um experiente consultor que pediu anonimato. Para ele, o setor viu na medida provisória do governo Bolsonaro a oportunidade de resolver um problema que lhe custaria muito em investimento financeiro. Na opinião de outra consultoria ouvida por Extra Classe, empresas que fornecem gás domiciliar e industrial de forma encanada aproveitaram para, “de contrabando”, auxiliar na ramificação dos seus negócios.

No meio desse jogo de interesses, além do consumidor de energia elétrica que acabará subsidiando a iniciativa privada de outro segmento que, de certa forma compõe o mix energético, mas não o que acende uma lâmpada em sua casa, o meio ambiente também acaba arcando com as consequências dos “jabutis” incluídos na MP acatada pelo Congresso.

Mesmo poluindo muito menos do que termelétricas a óleo ou carvão, uma usina a gás continua emitindo gás carbônico, o principal responsável pelas mudanças climáticas.
Se a opção dos congressistas fosse para uma geração com menor impacto ao meio ambiente, a aposta seria no incentivo a geração eólica ou fotovoltaica.

O Brasil, certamente, é um dos ambientes mais propícios do mundo para essas matrizes energéticas. Com regiões de grande intensidade de ventos e insolação.

Poder sobre as reservas hídricas

Foto: Arquivo Furnas/Reprodução ABr

Foto: Arquivo Furnas/Reprodução ABr

Outra hipótese apontada por especialistas derivante do processo de privatização da Eletrobrás se encontra nos reservatórios de água que são de propriedade da estatal. Em especial os de Furnas (foto), os únicos com características chamadas plurianuais.

São reservatórios específicos de usinas construídas na década de 60, cujas barragens formam um grande lago que pode ser alimentado por mais de um rio. São reservatórios que, por acumularem uma grande quantidade de água, têm a qualidade de regular a vazão do rio durante muitos anos, independente de mudanças climáticas. Isso possibilita a geração de energia elétrica pelas diversas usinas construídas no sentido da correnteza, o que não obriga a diminuição da sua capacidade de geração nos períodos de estiagem.

Para se ter uma ideia, a Usina de Itaipu, ao contrário do que muitos pensam, não possui um reservatório. É considerada uma usina chamada a fio d’água.

Essa opção, a de não construção de grandes reservatórios, foi acentuada em especial após a privatização no governo Fernando Henrique Cardoso.

As usinas privadas, pós-privatização, no máximo possuem reservatórios que sustentam uma capacidade mensal de geração.

Isso porque não há uma remuneração para os reservatórios plurianuais. “Não se ganha pelo tamanho do reservatório, mas pela energia gerada”, registrou o consultor ouvido pelo Extra Classe.

Quem controlar esses  reservatórios plurianuais terá as cartas nas mãos. “Eu sou capaz de jurar que, após a privatização da Eletrobrás, deverá ocorrer uma pressão para a remuneração desses reservatórios”, afirma.

Com certeza, mais um custo que cairá na conta dos consumidores de energia elétrica no país.

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