EDUCAÇÃO

O mito do bom imigrante

por Gilson Camargo / Publicado em 16 de julho de 2020
Maíra Vendrame é professora do Programa de Pós graduação em História da Unisinos e seu livro O poder na aldeia: redes sociais, honra familiar e práticas italianos, de 2016, acaba de ganhar versão em inglês

Foto: Acervo Pessoal/Reprodução

Maíra Vendrame é professora do Programa de Pós graduação em História da Unisinos e seu livro O poder na aldeia: redes sociais, honra familiar e práticas italianos, de 2016, acaba de ganhar versão em inglês

Foto: Acervo Pessoal/Reprodução

O mistério em torno do assassinato do padre italiano Antônio Sório, ocorrido no início do ano de 1900, na colônia Silveira Martins, em Santa Maria, desvenda um sistema autônomo de justiça criado por imigrantes italianos dessa pequena comunidade de imigrantes que se instalou no interior do Rio Grande do Sul e viveu de acordo com as suas próprias regras, sem a presença do Estado.

A história contada no livro O poder na aldeia: redes sociais, honra familiar e práticas de justiça entre os camponeses italianos (Itália-Brasil), publicado no Brasil em 2016 pela editora Oikos, ganhou uma versão em inglês (Power in the Village), lançada em junho deste ano no Reino Unido pelo selo Routledge. De autoria da professora do Programa de Pós-graduação em História da Unisinos, Maíra Vendrame, a publicação é um trabalho que utiliza a metodologia micro-história. Em 2015, seu texto recebeu o prêmio da Associação Nacional dos Professores Universitários de História, Sessão Rio Grande do Sul.

A partir da trajetória do sacerdote e de outros imigrantes, a historiadora analisou aspectos relevantes da cultura dos italianos instalados no Brasil no início do século 19. A pesquisa documental revela o papel das redes pessoais na organização dos deslocamentos e adaptação nas comunidades de destino e desvenda as normas comunitárias que regiam os comportamentos dos camponeses italianos, suas práticas autônomas de justiça que, muitas vezes, se davam sem a presença do Estado.

A narrativa mostra a realidade complexa vivida pelos imigrantes, marcada por divisões e conflitos encobertos por uma retórica da paz e indícios que permitiram explorar a versão de um crime de honra envolvendo o religioso. “Esses imigrantes davam muitos problemas para a municipalidade, não queriam pagar impostos, se negavam a prestar serviço militar, não colaboravam com a conservação das estradas. Tudo isso questionava aquele ideal do imigrante ordeiro, pacífico e desejado”, revela.

A professora é mestre e doutora em História pela PUCRS, com estágio na Università degli Studi di Genova. Sobre a saga da mesma colônia de imigrantes italianos, escreveu Lá éramos servos, aqui somos senhores: a organização dos imigrantes italianos na ex-colônia Silveira Martins (1878-1914), pela Editora UFSM, em 2007.

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