EDUCAÇÃO

Carreata protesta contra fechamento de escola especializada na educação de surdos

A Escola Concórdia tem 54 anos e foi incorporada pela Ulbra no auge da universidade, em 1996. Na crise de 2009 começaram as ameaças de fechamento, que se concretizam com a Recuperação Judicial da Aelbra
Por Flavio Ilha / Publicado em 26 de setembro de 2020
No dia Nacional do Surdo, 26 de setembro. a concentração do movimento Somos Todos Concóridia, antes da carreata que protesta contra o fechamento de uma das primcipais escolas bilíngues de surdos de Porto Alegre; com presença de pais, estudantes, professores, membros da comunidade e do Sinpro/RS

Foto Igor Sperotto

No dia Nacional do Surdo, 26 de setembro. a concentração do movimento Somos Todos Concóridia, momentos antes da carreata que protestou contra o fechamento de uma das principais escolas bilíngues de surdos de Porto Alegre; com presença de pais, estudantes, professores, membros da comunidade e do Sinpro/RS

Foto Igor Sperotto

A professora do Instituto Federal do Rio Grande do Sul Renata Heinzelmann deve toda sua formação acadêmica à Escola Especial Concórdia, de Porto Alegre. Surda desde que nasceu, a doutora em Educação pela Ufrgs foi estudar na escola aos nove meses de idade e ficou lá até se formar no ensino médio.

A professora do Instituto Federal do Rio Grande do Sul Renata Heinzelmann deve toda sua formação acadêmica à Escola Especial Concórdia. Ela é diretora da Sociedade dos Surdos do Rio Grande do Sul e foi uma das dezenas de pessoas que participaram do protesto

Foto: Igor Sperotto

A professora do Instituto Federal do Rio Grande do Sul, Renata Heinzelmann, deve toda sua formação acadêmica à Escola Especial Concórdia. Ela é diretora da Sociedade dos Surdos do Rio Grande do Sul e participou do protesto

Foto: Igor Sperotto

Diretora da Sociedade dos Surdos do Rio Grande do Sul, Renata era uma das dezenas de pessoas que foram em carreata até a porta do colégio, na tarde do sábado, 26 – Dia nacional do Surdo –, para protestar contra o fechamento da unidade. A Aelbra/Ulbra, mantenedora do espaço que abriga 88 alunos e emprega 20 professoras e professores, já anunciou que vai fechar a Concórdia em dezembro.

“Estamos muito preocupados porque percebemos a importância estratégica da Concórdia para nossa comunidade. Quem vai acolher esses alunos? Nas escolas públicas é muito difícil, a maioria dos professores não é fluente na língua brasileira de sinais e os alunos especiais acabam ficando solitários. E solitário ninguém aprende”, disse Renata à reportagem do Extra Classe, com tradução do idioma de libras brasileiro feito pela professora Katherine Carol Halberstadt.

A Escola Especial Concórdia tem 54 anos e foi incorporada pela Ulbra no auge da universidade, em 1996. Com a crise de 2009 começaram as ameaças de fechamento, que acabam de se concretizar: em 2019, quando perdeu o status de filantropia devido ao processo de Recuperação Judicial da Aelbra (mantenedora da Ulbra), o destino foi selado.

Com certeza é a melhor estrutura educacional do Estado para surdos. Chegamos a ter 320 alunos, mas agora ninguém mais se dispõe a arcar com um custo mensal de R$ 130 mil. E a escola é totalmente gratuita desde 2012, não tem como ser diferente”, explica a diretora Hiltrud Elert. Ela reclama que falta uma política pública para a comunidade surda

Foto: Igor Sperotto

A diretora Hiltrud Elert reclama que falta uma política pública para a comunidade surda

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Patrimônio de 11 milhões

O objetivo da Ulbra/Aelbra é o patrimônio físico da Concórdia, avaliado em R$ 11 milhões. Localizada na zona norte de Porto Alegre, a escola tem ginásio, laboratórios, biblioteca, auditório, clínica de fonoaudiologia. Totalmente bilíngue, atende desde surdos moderados a casos considerados severos – daí sua referência para a comunidade gaúcha.

“Com certeza é a melhor estrutura educacional do Estado para surdos. Chegamos a ter 320 alunos, mas agora ninguém mais se dispõe a arcar com um custo mensal de R$ 130 mil. E a escola é totalmente gratuita desde 2012, não tem como ser diferente”, explica a diretora Hiltrud Elert. Ela reclama que falta uma política pública para a comunidade surda, já que a única escola estadual voltada para esse público não tem condições de assimilar os estudantes da Concórdia. E atende apenas o ensino médio.

Carreata protesta contra fechamento de escola especializada na educação de surdos

Foto: Igor Sperotto

Carreata protestou contra fechamento da Escola Cancórdia,

Foto: Igor Sperotto

Carreata

A carreata percorreu várias ruas da zona norte de Porto Alegre e reuniu dezenas de pessoas. Com balões azuis e faixas de protesto pelo fechamento, a manifestação coincidiu com o Dia Nacional do Surdo.

Catherine Carol Halberstadt, professora

Foto: Igor Sperotto

Katherine Carol Halberstadt, professora

Foto: Igor Sperotto

“Nossa mobilização visa encontrar uma solução para esse impasse, já que na rede pública é muito difícil essa inclusão devido às limitações de linguagem. A língua dos surdos é um patrimônio cultural conseguido à base de muita luta. Vamos continuar lutando”, disse a professora Katherine, que leciona história.

Juliane Nunes, professora de português

Foto: Igor Sperotto

Juliane Nunes, professora de português

Foto: Igor Sperotto

Professora de português, Juliane Nunes engrossou a carreata. Mesmo com a ameaça real de perde o emprego no final do ano, a professora conta que participou da manifestação também por enxergar na Concórdia um espaço de resistência e de luta.

“Aqui todos os alunos são bolsistas, a maioria vem de comunidades bem pobres. Como vão estudar numa escola regular? Vamos lutar até o fim para manter nosso projeto político-pedagógico em funcionamento”, disse Juliana antes de iniciar o ato.

Mediação do Sindicato

Marcos Fuhr, diretor do Sinpro/RS

Foto; Igor Sperotto

Marcos Fuhr, diretor do Sinpro/RS

Foto; Igor Sperotto

O diretor do Sindicato dos Professores do Rio Grande do Sul (Sinpro/RS), Marcos Fuhr, que intermedia uma solução para o impasse, disse que o Sindicato vai procurar as redes filantrópicas de ensino mais tradicionais do Estado para propor uma parceria – embora reconheça que a tarefa é difícil.

Outra possibilidade é o Estado assumir a unidade, o que envolveria transferência de patrimônio e absorção de mão de obra.

“Temos que encontrar uma forma de manter esse patrimônio cultural em funcionamento”, disse o diretor. Por força da legislação, escolas especiais podem ter no máximo entre oito e 15 alunos por turma, dependendo da série.

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