EDUCAÇÃO

Um professor giruá batendo bola entre dois mundos

Mesmo em diferentes culturas o conceito de coletividade segue inalterado; o professor Sandro Costa da Silva trabalha com estudantes indígenas em uma aldeia e com a realidade de uma escola privada
Por César Fraga / Publicado em 18 de novembro de 2020

 

Sandro Costa da Silva atua na Escola Estadual Indígena de Ensino Fundamental Karaí Arandu, em Viamão

Fotos: Divulgação

Sandro Costa da Silva (ao centro) atua na Escola Estadual Indígena de Ensino Fundamental Karaí Arandu, em Viamão

Fotos: Divulgação

Sandro Costa da Silva, 39 anos, é professor de Educação Física ao mesmo tempo no colégio São Francisco, tradicional escola privada do Bairro Menino Deus, em Porto Alegre, de cunho confessional e também na Escola Estadual Indígena de Ensino Fundamental Karaí Arandu, em Viamão, próximo ao Bairro do Lami, em Porto Alegre, com cerca de 3,5 mil habitantes. Duas realidades distintas tanto em termos culturais, quanto estruturais. Em comum, crianças e adolescentes vivendo as restrições impostas pela pandemia de covid-19.

“Na aldeia indígena temos uma presença forte da cultura e dos valores guaranis, que envolvem o senso de liberdade sem descuidar da própria cultura, com muita ênfase ao trabalho coletivo. Na escola privada também temos, ao menos na escola em que atuo, muitos desses aspectos, porém com uma cultura um pouco diferente. Entre indígenas o contato entre estudantes é próximo com menos situações de atrito do que na rede privada”, distingue Sandro. “Por outro lado, há semelhanças. Por exemplo, devido ao cunho religioso da escola privada, trabalha-se muito o respeito e a solidariedade, então acaba que há muitas similaridades também”, conclui.

Com o distanciamento social, os professores de fora da aldeia estão encaminhando os conteúdos com os docentes indígenas que moram na aldeia, no sentido de evitar a proliferação do vírus na comunidade a fim de preservar estudantes e a população indígena. A escola já atua com ensino médio, aguardando a homologação.

O currículo é híbrido. Mistura elementos da cultura indígena guarani com a base curricular do estado.  “Nós atuamos conjuntamente com os professores guaranis que atuam até o quinto ano. Nós, os giruás (não-guaranis), atuamos do sexto ano ao ensino médio. Além disso, os alunos têm estudos complementares com língua guarani, de cultura guarani, inclusive na parte de educação artística e artesanato”.  Ele destaca que este hibridismo define inclusive os limites de até onde os giruás podem ir com determinado assunto. “Na Educação Física, inclusive, as abordagens muitas vezes passam pelo crivo e construção conjunta com o cacique e vice-cacique da aldeia no sentido de não ferir os costumes guaranis”, explica. “Basicamente para definir até onde nossa cultura pode entrar na cultura deles sem que uma confronte a outra”, define.

Intersecção de culturas

Muitos jogos e brincadeiras da cultura indígena, assim como atividades competitivas, como caçadas, atividades com mapas, arco-e-flecha e arremesso de dardos (lança) são incorporados ao currículo. Um destaque é a questão do coletivo, que segundo o docente é muito forte na cultura guarani. “O jogo de taco, por exemplo, começa pelo recolhimento da madeira na mata até a confecção de tudo que é necessário. Trata-se de uma atividade muito popular entre eles, já de antes de minha chegada na escola. Aliás, trata-se de um tipo de jogo que muitos povos distintos no mundo desenvolveram com variações ao longo da história”, reflete.

Sandro Karaí Arandu, como é chamado pelos colegas, foi graduado em Educação Física pela Ulbra/Canoas, em 2009. Ele é especialista em Futsal e Futebol de Campo pela Faculdade Sogipa; coordenador de escolinhas de Futsal para crianças e também  técnico de Goalball na Associação de Cegos do Rio Grande do Sul (Acergs). Ele atua como professor de escolas privadas em Porto Alegre e na rede estadual de ensino do Rio Grande do Sul desde 2010. Na rede estadual atua por meio de contrato desde então.

“Desde 2010, eu já vinha atuando em escolas rurais da rede estadual e escolinhas de Futsal nas escolas privadas, primeiramente, na rede privada em atividades extraclasse e na rede estadual por meio de contratos emergenciais. Em 2016 fui para a escola indígena Karaí Arandu e lá permaneço até hoje”, conta. Nesse meio tempo, ele atuava paralelamente como professor de apoio no Instituto Santa Luzia, com estudantes com deficiência visual.

 

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