EDUCAÇÃO

Universidades gaúchas são referências na formação de artistas, técnicos e professores de teatro

Por Cristiano Goldschmidt / Publicado em 20 de abril de 2021
Montagem Marat Sade segundo a Troupe de Satolep, Ufpel, 2017, dirigida pelo professor Paulo Gaiger

Foto: Mike Dilelio/ Divulgação

Montagem Marat Sade segundo a Troupe de Satolep, Ufpel, 2017, dirigida pelo professor Paulo Gaiger

Foto: Mike Dilelio/ Divulgação

Além de contribuírem para a formação de artistas e técnicos que vêm atuando em diversas regiões do país, quatro universidades públicas cumprem um papel fundamental na formação de professores de teatro que atuam nas escolas públicas e privadas do Rio Grande do Sul. Se o bacharelado tem como foco a formação em direção e interpretação teatral e, mais recentemente, em escrita dramatúrgica, caso da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), a licenciatura prepara professores e aborda questões pertinentes ao ensino do teatro na educação básica.

No entanto, os aprendizados não se restringem às salas de aula das universidades. Reflexões e discussões sobre o tema também acontecem em simpósios e congressos realizados no país e no exterior, oportunidades em que professores e estudantes trocam experiências e conhecimentos sobre os avanços dos últimos anos nessa área do conhecimento.

"Zero à esquerda", montagem dos alunos da Licenciatura em Artes Cênicas da Federal de Santa Maria, com direção de Inajá Neckel e Miriam Benigna

Foto: Dartanhan Baldez Figueiredo/ Divulgação

“Zero à esquerda”, montagem dos alunos da Licenciatura em Artes Cênicas da Federal de Santa Maria, com direção de Inajá Neckel e Miriam Benigna

Foto: Dartanhan Baldez Figueiredo/ Divulgação

É no ambiente escolar, mais precisamente na educação básica, quando da realização do seu estágio, que o licenciando em teatro passa a perceber de forma mais direta a importância dessa disciplina na formação humanista do indivíduo. A partir daí, a luta do profissional das artes cênicas que opta pela carreira na educação formal é defender o teatro como uma disciplina que contribui para a construção do conhecimento.

Referência em pós-graduação nas artes cênicas

Marta Isaacsson, professora e pesquisadora da PPG em Artes Cênicas da Ufrgs

Foto: Arquivo Pessoal

Marta Isaacsson, professora e pesquisadora da PPG em Artes Cênicas da Ufrgs

Foto: Arquivo Pessoal

A graduação em Teatro mais antiga do RS é a oferecida pela Ufrgs. Sua aula inaugural, no dia 10 de abril de 1958, foi proferida pelo italiano Ruggero Jacobbi, diretor, ator, crítico e autor teatral. No Departamento de Arte Dramática (DAD) da instituição, foi criado o primeiro – e até hoje único – Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas (PPGAC) do estado.

A professora e pesquisadora Marta Isaacsson, uma das principais responsáveis por sua concretização, lembra que o desejo dos professores do DAD de ter um programa de pós-graduação data dos anos 1980. Eles passaram a “investir e incentivar os colegas a se qualificarem, a fazerem mestrados e doutorados, porque muitos não tinham nem mestrado”.

Outro desafio era desenvolver pesquisa nessa área na instituição. “Nos anos 1990, tínhamos somente dois grupos de pesquisa, um liderado pela professora Mirna Spritzer, e outro por mim, Processos de Criação Cênica”.

A instituição implementou a especialização em Teoria de Teatro, que foi coordenado por ela durante seis anos. Dois aspectos contribuíram para a posterior implementação do PPGAC: a criação da Revista Cena, periódico vinculado ao DAD e dedicado à publicação acadêmica de artigos e pesquisas em artes da cena, e a fundação, em 1998, da Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-Graduação em Artes Cênicas (Abrace), da qual é sócia-fundadora.

Formação docente

Após a criação do PPG em Artes Cênicas do Instituto de Artes da Ufrgs em 2007, com o Curso de Mestrado, veio o Doutorado, em 2015. Como primeira função de um programa de pós-graduação, Marta Isaacsson aponta a capacitação e a qualificação de professores para a docência no ensino superior, mas ela também afirma a importante contribuição na capacitação de profissionais que estão trabalhando na produção artística, na crítica ou, ainda, em pesquisas que visam ao resgate da história das artes da cena. “Há uma contribuição para a memória da arte, do fazer do teatro e das artes cênicas de uma maneira geral, porque nós também temos a dança aqui junto. E dar visibilidade a essa produção é muito importante”, ressalta.

Para a professora Vera Bertoni, mesmo sendo um programa de pós-graduação relativamente novo, o PPGAC vem se consolidando como centro de referência na produção de conhecimento e pesquisa na região Sul, acolhendo estudantes de diversos estados do Brasil e de alguns países do Mercosul, propiciando o desenvolvimento de investigações sobre diferentes manifestações espetaculares de teatro, dança, performance, circo e propostas pedagógicas em Artes Cênicas.

Instituições do interior ampliam acesso

 Fernanda Fernandes, coordenadora da Licenciatura em Teatro da Ufpel

Foto: Carlos Prado/ Divulgação

Fernanda Fernandes, coordenadora da Licenciatura em Teatro da Ufpel

Foto: Carlos Prado/ Divulgação

O curso de Licenciatura em Teatro foi implementado na Universidade Federal de Pelotas (UFPel) em 2008, por meio do Programa de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni). Segundo a atual coordenadora, Fernanda Vieira Fernandes, o curso se destaca, principalmente, por atender à região Sul.

A professora lembra que a cidade de Pelotas sempre foi reconhecida como um polo cultural do Estado, com bastante efervescência no campo das artes. Nesse sentido, a criação do curso surgiu para preencher uma lacuna até então existente: a grande demanda da comunidade para a formação de professores e professoras de Teatro em nível superior na região Sul.

A professora enumera que o curso é voltado para a formação docente em teatro, profissional que tem domínio da linguagem teatral e de seus elementos, estando capacitado a trabalhar no ensino de teatro, tanto na educação formal quanto não formal.

“O licenciado em Teatro pode atuar na educação, na pesquisa e na produção artística. Pode trabalhar em escolas da rede pública e privada; junto aos espaços de ensino informal de teatro, assessorando comunidades, ONGs, grupos amadores; em órgãos públicos e em ONGs que tenham como objetivo o fomento às artes e ao patrimônio cultural material e imaterial e ao desenvolvimento de políticas para área cultural. Pode desenvolver trabalho artístico solo ou junto a companhias e grupos teatrais, além de criar novas oportunidades de trabalho no campo das artes cênicas”, detalha.

Camila Santos, vice-coordenadora da Licenciatura em Teatro da UFSM

Foto: Ademir Borges/ Divulgação

Camila Santos, vice-coordenadora da Licenciatura em Teatro da UFSM

Foto: Ademir Borges/ Divulgação

SANTA MARIA – O curso de Licenciatura em Teatro da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) foi criado em 2009 e a primeira turma entrou em 2010. Atualmente, são 79 alunos matriculados. Nos últimos anos, a instituição formou alunos de outros estados, como Santa Catarina, Paraná e Mato Grosso. “Acreditamos ser imprescindível a criação de um curso de formação de professores de teatro que possa apresentar um currículo fundamentado na hibridização entre ensino, pesquisa e extensão, bem como o desenvolvimento das capacidades artística, pedagógica e científico-investigativa dos futuros licenciados”, destaca Camila Borges dos Santos, vice-coordenadora do curso.

UERGS – A primeira turma do curso de graduação da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs) teve início em 2002, em Montenegro, em convênio com a Fundação Municipal de Artes de Montenegro (Fundarte). Com a implantação do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) houve um incremento no número de estudantes de outros estados como São Paulo, Goiás e Mato Grosso.

Espetáculo "Nosso Estado de Sítio", dirigido por Marcelo Ádams, da Uergs

Foto: Tom Peres/ Divulgação

Espetáculo “Nosso Estado de Sítio”, dirigido por Marcelo Ádams, da Uergs

Foto: Tom Peres/ Divulgação

De acordo com o professor e coordenador do curso, Marcelo Ádams, a perspectiva é a da formação do professor-artista, com valorização da experiência artística, com a maioria das aulas à noite. “Consideramos que a docência também é uma forma de criação coletiva de conhecimentos teatrais, assim como a atuação e a direção teatral trazem em si muito da pedagogia do teatro”.

Antes da possibilidade de formação superior acadêmica já se fazia teatro no Brasil, lembra o professor, ao avaliar que a contribuição da universidade na formação de professores de teatro, de artistas e técnicos é recente no país. “O que a academia pode fazer, e faz, é propor uma estrutura curricular, mais ou menos aberta, para que alguns conhecimentos e práticas milenares, como as do teatro sejam organizados de maneira a propiciar que, durante os períodos de graduação ou de pós-graduação, estudantes sejam confrontados com técnicas, teorias e discussões relevantes na grande área de conhecimento do teatro”, finaliza.

*Cristiano Goldschmidt é doutorando e mestre em Artes Cênicas (Ufrgs). Conselheiro de Estado da Cultura do RS.

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