EDUCAÇÃO

A segunda onda mercantilista da UniRitter

A partir de 2011, começa o desmonte de uma exitosa experiência de ensino superior privado, a partir da venda para um grupo mercantil, com a progressiva demissão de professores e mudanças nos cursos
Por Gilson Camargo / Publicado em 11 de junho de 2021
Em setembro de 2008, quando a UniRitter estava prestes a ser negociado com o Grupo Anhanguera, sindicatos, professores e estudantes protestaram contra a venda e a transação foi interrompida

Foto: René Cabrales/Arquivo Extra Classe

Em setembro de 2008, quando a UniRitter estava prestes a ser negociado com o Grupo Anhanguera, sindicatos, professores e estudantes protestaram contra a venda e a transação foi interrompida

Foto: René Cabrales/Arquivo Extra Classe

No dia 9 de novembro de 2010, o Centro Universitário UniRitter deixou de ser uma instituição filantrópica para ter fins lucrativos ao ser incorporado pela Laureate International Universities, com sede nos EUA, e que possui uma rede com mais de 50 universidades, em 24 países e 600 mil alunos. O diretor da network no Brasil, Luis Lopez, afirmou, à época, que a ideia do grupo era duplicar ou até triplicar o número de alunos da rede no país, que naquele momento já somava 110 mil estudantes. Os investidores injetaram R$ 50 milhões para expansão e criação de novos cursos, aquisição de equipamentos para laboratórios, reforço dos cursos já existentes e ampliação para modalidades de pós-graduação.

No calor da transação, o então reitor Flávio D´Almeida Reis afirmava que não se tratava de uma venda, mas de uma “aliança estratégica” para expandir a instituição e transformá-la em universidade nos anos seguintes. O centro universitário já havia aprendido muitas lições com uma tentativa fracassada de negócio com o Grupo Anhanguera dois anos antes e assegurou que não haveria mudanças na contratualidade dos professores e nem no perfil da instituição.

Passados 11 anos, poucas dessas previsões viraram realidade. Ao contrário, a instituição encolheu, perdeu alunos, rebaixou a qualidade do ensino ofertado e demitiu em massa. No final do ano letivo de 2013, depois de anunciar o fechamento do seu campus voltado exclusivamente à pós-graduação, a UniRitter demitiu 127 professores e a reitora e a pró-reitora acadêmica.

Em março do ano passado, a Associação dos ex-Docentes da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (ADFaupa) formalizou denúncia ao Ministério Público Federal (MPF) sobre o descumprimento da LDBen, de dispositivos constitucionais e da legislação trabalhista pela Laureate. A denúncia ressalta que, “após mais de 40 anos dedicados à excelência no ensino da Arquitetura no Sul”, a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UniRitter assistiu, a partir de 2011, ao desmonte de uma das melhores experiências de ensino do Brasil. “Com a venda da instituição, iniciou-se um progressivo processo de destruição que culminou, em 2017, com a demissão em massa dos tradicionais professores do Centro Universitário Ritter dos Reis.”

No mercado de educação, no entanto, o complexo UniRitter nunca esteve tão valorizado. Em uma transação que começou em 2018, dois gigantes do setor, a Ser Educacional e o grupo Ânima, empreenderam uma batalha judicial pelo direito de aquisição de um lote de instituições colocadas à venda pela Laureate em todo o país, incluindo a UniRitter e a Fadergs no RS, por quase R$ 4,5 bilhões.

Redução de direitos

Em coletiva de imprensa, em 2010, executivo da Laureate prometia manter características, padrão de

Foto: Igor Sperotto/Arquivo Extra Classe

Em coletiva de imprensa, em 2010, executivo da Laureate prometia manter características, padrão de qualidade e expandir cursos e matrículas

Foto: Igor Sperotto/Arquivo Extra Classe

O diretor do Sinpro/RS Amarildo Cenci, que acompanha a instituição nas últimas décadas, considera que a UniRitter tinha os melhores cursos de instituição privada do Brasil antes da Laureate. “Todos os antigos professores com mestrado e doutorado que lecionavam na instituição por mais de 20 anos foram demitidos”, ilustra.

A prática de rotatividade que excluiu professores experientes e com formação do quadro docente, a alteração unilateral do plano de carreira negociado com o Sindicato, a redução da carga horária sem a proporcional diminuição do número de estudantes por turmas, distorções na forma de remuneração de professores, dano moral, e outros, enumera o dirigente, são parte dos problemas enfrentados pelos professores na instituição.

“As demandas sob a Laureate eram gigantescas e não devem ser resolvidas agora com a aquisição pelo grupo Ânima, pois a lógica mercantilista é a mesma. Entregam uma instituição com uma grande redução de direitos e qualidade da educação e que está se ajustando a esse novo mercado”, avalia Cenci.

Ao menos, quatro ações trabalhistas estão em curso em relação a essas questões, a principal delas trata da redução de 25% da carga horária nos turnos de trabalho e outra mais recente sobre a forma de remuneração de professores que tiveram sua função convertida em coordenação, uma artimanha para pagar menos.

Transação bilionária

A negociação foi concluída no início de maio deste ano entre a Laureate e a holding mineira Ânima, que arrematou os ativos da Laureate por R$ 4,423 bilhões. Com a incorporação, a empresa projeta receita líquida de R$ 3 bilhões por ano. No primeiro trimestre deste ano, a Ânima teve um faturamento líquido de R$ 416 milhões, crescimento de 22,8%.

O comunicado da empresa sobre a transação não informou o valor pago pela marca UniRitter e pela Fadergs. “A Ânima Educação anunciou, no último dia 13 de maio, a fusão com os ativos brasileiros do grupo norte-americano Laureate. Com a integração, a companhia se tornará a mais relevante no ecossistema de educação de qualidade do país. Juntas, as empresas reunirão uma comunidade de aprendizado de mais de 350 mil pessoas, formada por mais de 330 mil estudantes e 18 mil educadores, distribuídos em 16 instituições de ensino superior, além de oito marcas que são referências em suas áreas de atuação e o Instituto Ânima”, informa.

Foram contratadas duas empresas de consultoria e um Escritório de Planejamento de Integração (EPI) para elaborar o plano estratégico para os diferentes públicos. O grupo não informou se esse plano prevê demissões. “Neste momento, é prematuro falar sobre reestruturações.”

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