EDUCAÇÃO

Professor é demitido por crítica ao latifúndio

Escola Marista cede à pressão de produtores e afasta docente que, em mensagem na sua conta pessoal do Twitter, ironizou desperdício de água
Por Gilson Camargo / Publicado em 24 de fevereiro de 2022

Foto: Rede Marista/ Reprodução

Direção do Colégio Marista Sant’Ana, de Uruguaiana, determinou desligamento de professor que postou crítica no seu Twitter ao desperdício de água

Foto: Rede Marista/ Reprodução

Um comentário provocativo postado no perfil pessoal em uma rede social por um professor do ensino médio privado virou pretexto para uma campanha de ódio difamação e ameaças protagonizada nas redes sociais por pessoas ligadas ao agronegócio. Por pressão de empresários que se sentiram atingidos com a manifestação, a escola demitiu o professor.

O episódio ocorreu em Uruguaiana, cidade de 130 mil habitantes localizada na região Oeste do estado, junto à fronteira fluvial com a Argentina e o Uruguai. No início de janeiro, a população urbana do município, situado em uma das regiões mais castigadas pela seca no sul do país, era convocada, pelas redes sociais da prefeitura local, a racionar o consumo de água.

Uma contradição fácil de entender, considerando que o município é o maior produtor de arroz irrigado do estado. O racionamento de água não é exatamente uma vocação do agronegócio. Muito menos uma agenda dos arrozeiros que dominam a região. De acordo com o Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga), a área de semeadura na safra 2021/2022 é de 957 mil hectares, dos quais cerca de 30% só na Fronteira Oeste e 78,5 mil hectares em território uruguaianense.

O professor Ronan Moura Franco relata que resolveu se posicionar. “A postagem que gerou os ataques e culminou na minha demissão foi no meu perfil pessoal do Twitter e dizia o seguinte: Bom dia, pobres. Já economizaram água hoje para um latifundiário poder irrigar sua lavoura de soja?”, relata. A reação foi imediata.

Ele conta que passou a ser alvo de ataques pessoais em mensagens de pessoas que se identificavam como membros de entidades de classe dos produtores.

Linchamento virtual

Foto: Acervo Pessoal

Ronan: linchamento moral, apagamento e falta de acolhimento da instituição de ensino

Foto: Acervo Pessoal

Segundo Ronan, as ofensas continuaram mesmo depois que ele resolveu postar um pedido de desculpas e explicar que não estava se posicionando contra os produtores ou a atividade econômica representada pelo setor, mas mostrando a contradição dessa realidade, já que é professor de Ciências.

“Os ataques foram quase que em totalidade de pessoas físicas ligadas ao setor agropecuarista, em que me atacavam com xingamentos de vagabundo, comunista, doutrinador, professor de merda, fracassado, escroto, ignorante, imbecil, burro, volta pra escola, comprou o diploma… sempre marcando a escola e exigindo uma atitude da gestão escolar”, detalha.

Parte dos ataques foi documentada pelos próprios agressores. “Recebi prints de grupos de whatsApp ligados aos produtores, bem como de grupos de direita partidários do presidente Bolsonaro, em que os ataques e a cobrança de uma ‘atitude da escola’ eram estimulados. Tive fotos do meu casamento com meu esposo compartilhadas, enfatizando que a escola era um espaço ‘cristão e conservador’, assim como recebi prints de grupos com postagens com o endereço da minha casa e ameaças de perseguição”.

Ronan é formado em Licenciatura em Ciências da Natureza, tem especialização em Neurociência aplicada à Educação, Mestrado em Ensino de Ciências e, atualmente, faz Doutorado em Educação em Ciências. Desde 2019 é docente nomeado na rede municipal de educação. Leciona Ciências dos Anos Finais do Ensino Fundamental na Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Moacyr Ramos Martins. No Colégio Marista Sant’Ana, do qual foi demitido, lecionava Física para o Ensino Médio desde 2019.

Mensagens de apoio

O professor relata que um grande número de pais e alunos enviou mensagens à direção da instituição pedindo sua permanência, mas os pedidos foram tratados de forma protocolar. Para Ronan, a falta de acolhimento por parte da escola contrasta com o apoio dos alunos. “Após a minha demissão se tornar pública recebi centenas de mensagens de apoio de colegas, familiares e, principalmente, alunos. Alunos estes, que a escola toma como referência pelo seu desempenho acadêmico e envolvimento nas atividades educativas”.

Ele observa que foi demitido quando ainda estava em férias e antes mesmo do reinício das atividades escolares outro professor de Física já havia sido contratado. “Os ataques, minha demissão, meu trabalho na escola, tudo sofreu um apagamento”, constata.

O vice-presidente da Federarroz, Roberto Fagundes Ghigino, presidente da Associação dos Arrozeiros de Uruguaiana, e a diretora do Colégio Marista Sant’Ana, Marisa Crivelaro, foram contatados de forma reiterada pelo Extra Classe, mas não se manifestaram. Em nota, a Rede Marista afirmou apenas que “o Colégio Marista Sant’Ana informa que os motivos e as circunstâncias de desligamentos são sempre conduzidos, exclusivamente, com os educadores envolvidos”.

“A demissão do professor Ronan foi arbitrária e ideológica. Causa estranheza que esta escola, sendo confessional, tenha uma postura de desrespeito à livre manifestação, ainda mais em rede pessoal do professor”, afirma Cecília Farias, diretora do Sindicato dos Professores (Sinpro/RS).

Contradições

O professor aponta contradições na posição assumida pela direção da escola. Logo após a repercussão da mensagem, circulava em postagens nos stories do Instagram e grupos de WhatsApp uma resposta da diretora Marisa Crivelaro e do perfil da Escola que dizia ‘Devido o professor se encontrar em férias, não podemos tomar nenhuma atitude, mas ao retornar para a escola serão tomadas as medidas conforme o código de conduta’, sempre enfatizando que a gestão da escola decidiria algo em consonância com a Gerência Educacional de Porto Alegre. Segundo Ronan, isso contraria o próprio argumento que foi usado para o seu afastamento. “Minha demissão foi em nome da equipe diretiva da escola”.

Comentários