MOVIMENTO

Mais de 100 mil na Marcha das Margaridas emocionam Brasília

A manifestação tomou o Eixo Monumental a partir das 7 horas da manhã desta quarta-feira, 14, por justiça, educação, saúde, soberania popular, liberdade, terra, agroecologia, trabalho, Previdência Social
Por Cristina Ávila / Publicado em 14 de agosto de 2019
6ª Marcha das Margaridas em Brasília

Movimento entregou documento com projeto de desenvolvimento nacional sustentável

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Por onde elas passaram, olhos lacrimejaram, punhos foram erguidos, vozes gritaram e a 6ª Macha das Margaridas arrancou exclamações: “lindas, que lindo, guerreiras, corajosas, maravilhosas”. Não tinha como passar sem emoção. Vieram de todas as partes do Brasil. Dos campos, das florestas, das águas. Romperam longínquas estradas dos mais extremos recantos brasileiros, navegaram por rios, riachos, arroios, igarapés, sacudiram em ônibus, voaram, até chegarem a Brasília para o grande momento desta quarta-feira, 14, numa capital que ardia ao sol, com 12% de umidade relativa do ar. Secura de deserto.

A Marcha das Margaridas é uma manifestação realizada desde 2000 por mulheres trabalhadoras rurais de todo o país. Neste ano, a Marcha trouxe a Brasília mais de 100 mil. O movimento feminino, e sobretudo feminista, começou a Marcha antes das 7h e estava encerrando por volta das 11h, mas elas não paravam de chegar em intermináveis grupos, que tomaram o Eixo Monumental. Vieram passando pelos ministérios e rasgando seu discurso nos carros de som. “Meio ambiente, como pode ser ocupado por ministro tão antiambientalista. Economia, sob o comando de um banqueiro. Agricultura, responsável pelo veneno nas nossas mesas e crime contra nossos povos. Saúde, 20 anos com recursos congelados. Fora Bolsonaro”. O evento teve a participação oficial de 26 países, africanos e latinos.

“Basta de sangue indígena, sangue negro, da desqualificação das mulheres. Nosso lema é margaridas na luta por justiça, soberania popular, liberdade, terra, agroecologia, autoderminação, trabalho, renda, previdência social, saúde, educação”, bradou Mazé Morais, coordenadora geral da Marcha e secretária de Mulheres da Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais, Agricultores e Agricultoras Familiares (Contag).

Mulheres negras, brancas, índias, LGBTs trouxeram a Brasília uma plataforma política que resultou de amplo debate, iniciado logo que terminou a 5ª Marcha, em 2015, em comunidades, municípios, estados, com trabalhadoras rurais, urbanas, movimentos sociais. Com dez eixos temáticos, o documento tem como objetivo direcionar suas lutas por um novo projeto nacional de desenvolvimento sustentável, e também denunciar o desmonte do Estado na infraestrutura de bem-estar social e a implementação do projeto neoliberal que privilegia as privatizações e o mercado.

“Para nós no Rio Grande do Sul, temos ainda a denunciar o parcelamento dos salários dos funcionários públicos que se reflete não apenas no próprio serviço público para a sociedade, mas também na circulação da economia”, cita a presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de 15 de Novembro, e coordenadora regional de Mulheres no Alto Jacuí, que abrange 16 municípios. Ela ressaltou a falência de pequenas empresas. “Uma atrás da outra”. E citou o setor leiteiro. “Têm que esperar até 45 dias para receber, sem saber o valor que será pago pelo litro de leite. Isso sempre foi assim, mas havia estabilidade de preço; hoje somos surpreendidos por quedas brutais de valor na hora de receber. Além de sofrer com a concorrência desleal pela abertura entrada recente do leite do Mercosul no país”.

A economia do campo está penalizada em todo o Brasil. Duas líderes sindicais de Garanhuns (PE), Maria Helena da Silva e Maria Edilsa, citam cortes orçamentários para a agricultura familiar, como a proposta orçamentária que começou com Michel Temer e chegou a 98% de ações estruturantes, enquanto anistiava dívidas milionárias do agronegócio. “Esse Bolsonaro só massacra os pobrezinhos. Eles nos mandou comer capim. Parece que não sabe que se o campo não planta, a cidade não janta˜, disse Edilsa.

Luis Inácio da Silva foi o nome mais ouvido na Marcha das Margaridas. E foi com um recado do ex-presidente que o evento encerrou oficialmente: uma carta lida por Fernando Hadad, ex-prefeito de São Paulo e candidato pelo PT à Presidência da República em 2018: “O povo voltará a ser tratado com o respeito que merece. As mulheres da nossa terra voltarão a ter o respeito e o carinho que merecem. O ódio não vencerá o amor. O medo não vencerá a esperança. Viva as margaridas, viva o povo brasileiro!”, dizia um trecho do documento.

 

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