MOVIMENTO

Aumenta tensão em assentamento do MST em Minas Gerais

Tropa de choque demoliu escola dos sem-terra, desalojou famílias de agricultores e ameaça cumprir ordem judicial de reintegração de posse. Acampamento foi cercado com fogo nesta tarde
Por Gilson Camargo / Publicado em 13 de agosto de 2020
Tropa de choque da polícia militar do governador Romeu Zema ameaça invadir o assentamento nesta noite

Foto: MST/ Divulgação

Tropa de choque da polícia militar do governador Romeu Zema ameaça invadir o assentamento nesta noite

Foto: MST/ Divulgação

Intimidação: olheiros da PM em motos atearam fogo em trilhas ao redor do assentamento

Foto: MST/ Reprodução

Intimidação: olheiros da PM em motos atearam fogo em trilhas ao redor do assentamento

Foto: MST/ Reprodução

As mais de 450 famílias de agricultores sem-terra do assentamento Quilombo Campo Grande, localizado na zona rural do município de Campo do Meio, Sul de Minas Gerais, vivem horas de terror desde a madrugada de quarta-feira, quando a tropa de choque da polícia militar do governo mineiro chegou ao local, fortemente armada e com o apoio de um helicóptero e drones, para cumprir uma ação de reintegração de posse na área do acampamento. Na ação, a escola Escola Popular Eduardo Galeano foi invadida e estudantes foram expulsos do local por policiais que demoliram o prédio nesta quinta-feira.

No final da tarde desta quinta-feira, 13, a tensão aumentou no local, quando o comando da tropa mandou a avisar lideranças do MST que estava pronto para entrar no assentamento e iniciar o despejo das famílias. Dois homens à paisana atearam fogo no entorno da área para situar os assentados. “O comando da polícia já deu dois avisos e agora vem a tropa de choque com violência pra cima dos trabalhadores. Nós seguimos na resistência”, informou a direção estadual do MST. Os assentados montaram barricadas e trouxeram para o local produtos da agricultura familiar. “Para entrar aqui, a polícia vai ter que pisar no alimento que nós produzimos”, disse um agricultor.

Organizados pelo MST há mais de duas décadas, os agricultores do Quilombo Campo Grande produzem hortaliças, frutas, aves, leite e café de forma sustentável. Na última safra, as famílias produziram mais de 9 mil sacas de café, 60 mil sacas de milho e 500 toneladas de feijão. Ao longo desses anos, também foram construídas parcerias com organizações e instituições da região que incentivaram a produção, o fomento da educação popular e a melhoria de infraestrutura para as famílias.

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O MST entrou com um pedido de anulação da ordem de despejo no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e convocou uma mobilização pelas redes sociais. A hashtag #ZemaCovarde ficou em primeiro lugar dos Trending Topics, a lista de assuntos mais comentados no Twitter. A mobilização contou com manifestação de artistas e intelectuais, a exemplo do ator Wagner Moura e da filósofa Marcia Tiburi.

Lideranças estaduais do MST tentam negociar com o governador Romeu Zema (Novo) a retirada dos policiais do local. Elas questionam a legalidade da ordem judicial e alertam que as famílias ficarão desabrigadas durante a pandemia da Covid-19. No comunicado, o governo de Minas Gerais alega que a operação foi planejada “sem necessidade do emprego de força, seguindo todos os protocolos de segurança estipulados para o período da pandemia”. As famílias despejadas deverão ser realocadas em espaços destinados pela prefeitura local.

INDIGNAÇÃO – O bispo auxiliar da Arquidiocese de Belo Horizonte, dom Vicente Ferreira se posicionou contra a reintegração de posse em Campo do Meio. Ele coordena as 150 comunidades da Região de Nossa Senhora do Rosário e se mudou para Brumadinho no início do ano para apoiar as famílias atingidas pelo rompimento da barragem da Vale. O religioso afirmou que ficou estarrecido e indignado com a ordem de despejo. “Quantas pessoas estão sendo infectadas pelo coronavírus durante essa operação? Basta de despejo. Peço mais uma vez ao governador do estado de Minas Gerais e ao presidente do Tribunal de Justiça de Minas Gerais que suspendam esse despejo e proíbam outros durante a pandemia. Despejar não é atividade essencial”, alerta.

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