MOVIMENTO

Rivais nos estádios são aliados nas ruas

Juca Kfouri, José Trajano, Léo Gerchmann, Marcelo Carvalho e Luiz Simas analisam o surgimento das torcidas antifas em reação à arenização do futebol e como frearam atos bolsonaristas no auge da pandemia
Por Marcelo Menna Barreto / Publicado em 12 de agosto de 2020

 

Ato em Porto Alegre reuniu torcidas de times rivais antifas e antirracistas

Foto: Igor Sperotto

Ato em Porto Alegre ato reuniu torcidas de times rivais antifas e antirracistas

Foto: Igor Sperotto

Quando apoiadores do presidente Jair Bolsonaro estavam nas ruas pedindo o fim do isolamento social, o fechamento do Congresso, do STF e a volta de uma intervenção militar, torcedores dos mais variados times de futebol brasileiros foram os primeiros a sair no meio da pandemia para enfrentar os atos. A reação dos amantes do futebol autodenominados ‘antifas’ foi fundamental para refrear os que bradavam por atitudes classificadas como fascistas e antidemocráticas

Quem imaginaria palmeirenses aplaudidos por torcidas corintianas ou vice-versa? Um colorado ao lado de um gremista gritando “recua, fascista”? Mais que bola rolando, esses acontecimentos que envolvem uma paixão visceral – protagonista, às vezes, de verdadeiras batalhas campais − se deram as mãos nas recentes manifestações em defesa da democracia.

Fenômeno relativamente novo, os chamados antifascistas são uma reação à extrema-direita que assola o mundo nos últimos anos.

A Europa é pioneira em torcedores contra o fascismo. Não é por menos. O movimento criado por Benito Mussolini, seguido por Adolf Hitler com o nazismo, surgiu no Velho Mundo.

Clubes como o italiano Livorno, Rayo Vallecano da Espanha, o alemão St. Pauli e clubes ligados ao movimento operário inglês têm tradição.

No Brasil, analistas apontam: as primeiras torcidas inclusivas, que congregam pessoas LGBT, mulheres e – agora − as antifascistas, nasceram contra o próprio ambiente do esporte, machista, misógino, sem democracia e até racista.

Para o veterano jornalista José Trajano, torcedores progressistas existem há tempos e não são braços oficiais. “Eles estão dentro das mais variadas organizadas e discordam muitas vezes das direções”, fala.

Da esq. p/ dir de cima para baixo: Juca Kfouri, José Trajano, Léo Gerchmann, torcedor gremista antifas, Marcelo Carvalho, Luis Antônio Simas e torcedores antifas do internacional durante protesto

Fotos: Acervo pessoal; exceto *Joana Berwanger e **Igor Sperotto

Da esq. p/ dir de cima para baixo: Juca Kfouri, José Trajano, Léo Gerchmann, torcedor gremista antifas, Marcelo Carvalho, Luis Antônio Simas e torcedores antifas do internacional durante protesto

Fotos: Acervo pessoal; exceto *Joana Berwanger e **Igor Sperotto

A elitização do esporte

O historiador Luiz Antonio Simas concorda com a teoria da insurgência ao ambiente antidemocrático e preconceituoso nos clubes e campos. Mas acredita em especial que, para o surgimento dos antifascistas, a “banda começou a tocar” na elitização do jogo. “Essa transformação do torcedor em cliente, que começa pela Premier League na Inglaterra, acho que é a chave para pensar esse processo”, analisa.

Mestre em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Simas vê como saudável esses torcedores nas arquibancadas. Para ele, “de uma forma geral, o futebol é um ambiente racista, um ambiente misógino, mas ao mesmo tempo sempre foi um ambiente disputado”.

Essa disputa não se dá só correndo atrás da bola. Segundo o historiador, a popularização do futebol no Brasil não aconteceu sem tensionamentos, brigas, disputas.

“A gente tenta entender, pegando o Brasil como referência, como é que um esporte chega pra ser praticado entre filhos de ingleses e escoceses ou então por trabalhadores europeus que vêm para ocupar cargos importantes nas fábricas de tecidos. Como é que este esporte vai se popularizando e se transforma num disparador de ascensão social das camadas subalternizadas, tanto do ponto de vista da classe quanto da raça? É uma disputa muito grande”, afirma.

Nesse sentido, explica Simas, ”torcidas que trabalham na perspectiva do combate ao fascismo estão disputando o futebol. Elas vêm disputando esse espaço, vêm disputando esse território”.

Reação a Bolsonaro começou em Porto Alegre

Atos com torcidas iniciaram em Porto Alegre e ganharam as demais capitais

Foto: Igor Sperotto

Atos com torcidas pela democracia iniciaram em Porto Alegre e ganharam as demais capitais

Foto: Igor Sperotto

O jornalista Juca Kfouri cita que a reação a Bolsonaro começou “a bem da verdade, em Porto Alegre, duas semanas antes da Paulista”. Ele vai na mesma linha de Trajano e classifica os antifascistas como “franjas” que há muito se organizam nos clubes.

Segundo Kfouri, não se pode confundir as grandes torcidas organizadas com os antifascistas que também se fazem presentes nos estádios.

Isso não tira o valor. Ele acrescenta que a esses idealistas se somaram torcedores da periferia que estão “se ferrando” com o autoritarismo do governo.

Kfouri cita frases proferidas nos atos: “Não vou ver a ditadura passar na frente da minha janela” e “entre morrer de tortura e de Covid, prefiro de Covid”.

Ele também lembra que a tomada de consciência no futebol não é de hoje. “A politização de alas da Gaviões da Fiel se dá desde o seu nascimento”. Ela surgiu em 1969 em reação a Wadih Helu, então presidente do Corinthians. Helu, “além de ter um sítio onde aconteciam torturas durante a ditadura, foi o deputado estadual que, aparteado por José Maria Marin, fez o discurso que levou à prisão de Herzog”, fala.

Vladimir Herzog foi diretor de jornalismo da TV Cultura e, após sua detenção em 1975, foi torturado e morto 16 dias depois no prédio do DOI-CODI.

Dez anos depois do nascimento da Gaviões, completa Kfouri, pela primeira vez uma grande faixa era estendida reivindicando Anistia. Foi um jogo entre Corinthians e Santos, com a presença de 115 mil pessoas.

O Ameriquinha e a vitória da democracia

Trajano lembra algo pitoresco. Em partida do seu América contra o Duque de Caxias, uma faixa do AnarComuna América bradava contra a reforma previdenciária de Temer.

O juiz suspendeu o jogo; um funcionário do Duque de Caxias entrou no campo com um facão para tirar a faixa e – com a revolta da torcida e jogadores – a faixa permaneceu. Um imbróglio. “Especialmente porque não havia polícia e quando chegou não foi pra prender o cara com o facão, mas para retirar a faixa”, diverte-se Trajano.

A história poderia estar só no anedotário do futebol fluminense. Acabou se tornando uma vitória da democracia e da liberdade de expressão. Agora, uma lei assegura o direito à livre manifestação nos estádios do estado. Já sobre os movimentos que afloraram no “governo nefasto que está aí”, Trajano louva a coragem dos que saem com as camisas dos seus times.

“Eles estão retomando as ruas. Eu gostaria de estar junto, mas como faço parte do grupo de risco, me sinto representado”, diz.

O jornalista lembra outra coisa: “O que a gente vê é que esses jovens são habituados com as ruas. São corajosos. Se mobilizam rápido. Eles metem o peito. Estão liderando e chamando as pessoas. É gente que cumpre um papel importante”.

Trajano estima que “depois que tudo isso passar (a pandemia)”, multidões também sairão. “Chega de ficar batendo panela na varanda”, comenta.

Uma ironia, no entanto, ele vê. “Agora eles estão nas ruas e não têm público nos estádios porque é proibido. Quando for aberto, muitos não terão acesso, devido os preços impostos pela ‘gourmetização’ do futebol”. Gourmetização, Trajano ressalta, contestada por integrantes desses coletivos nos clubes. “Esses movimentos sempre lideraram protestos dentro”, finaliza.

Da arenização ao  futebol sem povo

Se Trajano fala em Gourmetização, Simas chama de Arenização dos estádios o sistema que alavanca a discussão entre torcedores mais antenados. Neologismos diferentes, sentimentos em comum.

“O futebol foi perdendo a característica de ser um esporte de inclusão de massas no Brasil, ainda que não igualitário”. Reflete. O historiador acabou de escrever um livro sobre os 70 anos do Maracanã e diz que o velho estádio, “não o novo”, era inclusivo sem ser igualitário. “Incluía todo mundo. Mas o pobre tava lá na Geral; a classe média, na arquibancada; o cara com mais condições estava na cadeira”, explica.

“Até essa ideia da inclusão sofreu com a arenização do jogo”, denuncia. A transformação dos estádios em arenas multiusos, o futebol como produto televisivo, o torcedor como cliente, “parece que gerou uma reação muito interessante e esses coletivos antifascistas caminham exatamente na perspectiva da reação, da disputa, do conflito para tentar fazer entender que no esporte tem espaço para se tentar construir alternativas democráticas e populares”, conclui.

Contra o machismo, racismo e LGBTfobia

Marcelo Carvalho, diretor-executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol, é entusiasta dos antifascistas. “Primeiro para resguardar a democracia; segundo para mostrar à sociedade que torcedores de futebol não são alienados. São pessoas que gostam de futebol, mas também refletem sobre o racismo, machismo, LGBTfobia”, declara.

Para ele, os que estão em campo, antes mesmo dos atos contra as investidas autoritárias, já legaram um saldo positivo para o esporte.

Recorda ter visto antifascistas nascendo entre 2015 e 2016 e que o resultado já aparece. De 2017 para cá, sua análise aponta maior conscientização dos torcedores e jogadores.

“Muitas pessoas que lutam contra o machismo, contra o racismo também estão nas antifascistas. Elas estão fazendo com que os clubes repensem suas ações, seus posicionamentos; que repensem o que fazer quando acontece um caso de preconceito. Isso é muito importante”, celebra.

Leo Gerchmann, jornalista e escritor, também se declara “super-fã” dos antifascistas. Torcedor do Grêmio de Porto Alegre, ele, no entanto, faz uma ressalva: “Tenho restrições quando esses grupos ficam partidarizados”.

Autor de livros como Coligay – Tricolor e de todas as coresSomos azuis, pretos e brancos, que contam a história do seu time de coração, cita como exemplo um dia em que a Grêmio Antifascista levou para a Arena tricolor um cartaz pedindo a liberdade de Lula.

“Não vou entrar no mérito, mas quando tu faz isto tu restringe”, diz Gerchmann. Ele ressalta sua certeza de que o Brasil está em meio de um governo fascista. Agora é momento de todas as forças civilizatórias estarem juntas”, conclui.

Rivais nos estádios são aliados nas ruas (2)

Foto: Felipe Campos Melo/Fotos Públicas

Foto: Felipe Campos Melo/Fotos Públicas

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Ferroviário foi pioneiro

Quando se fala em torcida antifascista no Brasil, poucos imaginariam, mas o pioneirismo está em um clube com pouca expressão no cenário nacional, o cearense Ferroviário Atlético Clube. A Ultras Resistência Coral nasceu em 31 de julho de 2005 pelas mãos de comunistas e anarquistas que se inspiraram em torcidas da Europa. Mas, o certo é que grande parte das antifascistas brasileiras surgiram em 2014, logo após os movimentos de junho de 2013.

Hoje, em especial desde a ascensão de Jair Bolsonaro à presidência da República, é um fenômeno que não para de crescer. “Praticamente todos os grandes clubes têm suas torcidas antifascistas”, diz Marcelo Carvalho, diretor-executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol.

Gremistas foram às ruas protestar

Foto: Reprodução/Twitter

Gremistas foram às ruas protestar

Foto: Reprodução/Twitter

Dupla Grenal articulada

Entre tantas, Extra Classe registra antifascistas do Internacional e Grêmio de Porto Alegre, que, segundo o jornalista Juca Kfouri, foram as que iniciaram a ofensiva nas ruas contra as pautas antidemocráticas de seguidores de Bolsonaro. Não poderia faltar também Corinthians e Palmeiras, que deixaram sua rivalidade extrema de lado, para entoar juntos o grito de “Recua, fascista”.

Futebol para todos e todas

Em nota, a Coluna Vermelha diz que é um movimento “criado nas arquibancadas do Beira-Rio” e integrada por colorados de todas as torcidas organizadas do Internacional. Segundo a Coluna Vermelha, a motivação é o resgate do caráter popular do clube e a luta “por um futebol para todas e todos. Que as mulheres ocupem as arquibancadas. Que o racismo não seja tolerado. Que a LGBTQfobia desapareça dos cânticos para que todos e todas se sintam confortáveis para participar da festa no estádio”.

Colorados marcaram presença contra bolsonaristas

Foto: Reprodução/Twitter

Colorados marcaram presença contra bolsonaristas

Foto: Reprodução/Twitter

Apesar de afirmar que o seu ponto de encontro é o Beira-Rio, o coletivo colorado diz que vai “para as ruas apoiar as lutas do povo pobre e dos setores oprimidos da população, contra a violência do capitalismo e do Estado”.

Racismo não!

O banimento da discriminação racial, de gênero e a luta contra a elitização do esporte, aliás, é uma característica de todos que se declaram antifascistas nos clubes de futebol.

Renato Borges, integrante do Grêmio Antifascista, confirma que os movimentos possuem como pautas o combate a “toda e qualquer forma de subjugação, opressão e obstaculização dos modos de vidas minoritários, e de modo geral, que excluem e negam a diferença”.

Borges diz que o Grêmio Antifascista além de participar das manifestações e atos pró-pautas democráticas ainda “produz discursos e narrativas que problematizam as relações de poder e as diferentes formas de opressão e discriminação, sejam elas no estádio ou fora delas.

Palmeirenses  e corinthianos do mesmo lado

Ligia Souza, palmeirense e antifas

Foto: Acervo pessoal

Lígia Souza, palmeirense e antifas

Foto: Acervo pessoal

Lígia Souza, da Palmeiras Antifascista, também diz que o grupo do Palestra Itália nasceu para combater as opressões e não se limita aos estádios. “Nos manifestamos nas ruas e dentro do estádio, através da formação política, divulgação do antifascismo e se precisar do enfrentamento, também, como autodefesa”, diz a torcedora.

Uma curiosidade ilustra o surgimento da torcida. Foi quando um dos idealizadores se deparou e confrontou no campo outro torcedor do Palmeiras que usava uma camisa da Irredutible, torcida fascista do italiano Lazio.

Danilo Pássaro, do Corinthians

Foto: Acervo Pessoal

Danilo Pássaro, do Corinthians

Foto: Acervo Pessoal

Danilo Pássaro, que se identifica como jovem da periferia de São Paulo, é o torcedor que conseguiu a proeza de estimular a reunião de torcedores dos quatro maiores clubes paulistas (Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo) cujas rivalidades e inimizades são tão notórias ou mais quanto as de Grêmio e Internacional.

Pássaro integra o movimento Somos democracia e afirma que “não adianta discordar calados”. Segundo ele, o objetivo inicial de uma torcida corintiana é apoiar o Corinthians, mas não deve fugir da responsabilidade também com a história.

Para ele, foi importante as torcidas terem saído às ruas mesmo tendo certeza dos riscos da pandemia, pois estava posta “uma guerra de narrativas”. O desafio, entende Pássaro, é “ganhar mentes e corações” contra uma “onda estranha que tem agredido profissionais da saúde, jornalistas e que ridiculariza nossos lutos com as mortes pela Covid-19”.

 

 

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