MOVIMENTO

Trabalhadores intermediam liberação de insumos da China para o Butantan

Depois de firmar acordo com a Venezuela para viabilizar o abastecimento de oxigênio a Manaus, Fórum das Centrais inicia tratativas com a federação de sindicatos chineses para agilizar produção de vacinas
Por Marcelo Menna Barreto / Publicado em 28 de janeiro de 2021
Oxigênio da Venezuela para Manaus: Fórum das Centrais assumem protagonismo nas relações internacionais durante a pandemia

Foto: Alex Pazuello/ Divulgação

Oxigênio da Venezuela para Manaus: Fórum das Centrais assumem protagonismo nas relações internacionais durante a pandemia

Foto: Alex Pazuello/ Divulgação

A pandemia da covid-19 acabou revelando o processo de isolamento diplomático que o governo Bolsonaro construiu desde a sua posse, em 1º de janeiro de 2019.

No vácuo criado pelo chanceler Ernesto Araújo, em plena crise do oxigênio em Manaus (AM), o Fórum das centrais sindicais brasileiras se dedicou a estabelecer pontes.

Em um acordo com o governo venezuelano, são os trabalhadores que estão dando o suporte para a chegada do oxigênio medicinal venezuelano transportado por caminhões que entram por Rondônia.

No dia 19, uma iniciativa liderada pela Central Única dos Trabalhadores (CUT) e Força Sindical firmou acordo com o governo da Venezuela para fornecer peças de reposição e mão de obra para ajudar na logística do transporte dos cilindros de oxigênio entre os dois países.

Pelo acordo firmado com o ministro das relações exteriores Jorge Arreaza, a Venezuela passou a fornecer 80 mil litros por semana de oxigênio hospitalar à capital do Amazonas – sendo que no mesmo dia chegaram a Manaus seis caminhões transportando 136 mil litros.

Diplomacia entre lideranças sindicais

Conferência virtual da CUT com dirigentes da ACFTU, que irá intermediar negociações com o governo chinês

Foto: CUT/ Reprodução

Conferência virtual da CUT com dirigentes da ACFTU, que irá intermediar negociações com o governo chinês

Foto: CUT/ Reprodução

Desta vez, a aproximação é com a China. Na última quinta-feira, 21, a representação dos trabalhadores brasileiros iniciou negociações com a China via All-China Federation of Trade Unions (ACFTU), a federação que reúne todos os sindicatos de trabalhadores chineses. Ela é a maior entidade sindical do mundo tem 302 milhões de trabalhadores e 1,7 milhão de sindicatos filiados.

O Secretário de Relações Internacionais da CUT, Antonio de Lisboa Amâncio Vale, explica que a conversa inicial contribuiu para o desembaraço dos insumos do país para a vacina que será produzida pelo Instituto Butantan.

Ao contrário de Bolsonaro, que chamou para si as glórias do feito, o dirigente não nega os esforços do governo de São Paulo. No entanto, a reunião com a ACFTU certamente influenciou muito no processo. “Eles têm assento no parlamento da China, ocupam a vice-presidência atualmente”, ressaltou Vale. Isso, para ele, ajudou na mediação com o governo e o Partido Comunista chinês.

Os sindicalistas chineses comprometeram-se a intermediar o diálogo entre as centrais brasileiras e o governo chinês. “Vamos usar todos os nossos canais e esforços para levar a mensagem de vocês [centrais] ao governo central e ao Partido [Comunista Chinês] sobre as necessidades imediatas do povo brasileiro ante a pandemia”, afirmou An Jianhua, membro da Direção Executiva e secretário Internacional da Federação dos Sindicatos da China.

Importação de insumos chineses para produção de vacinas foi sabotada pelos do Itamaraty e de Bolsonaro

Foto: Reprodução

Importação de insumos chineses para produção de vacinas foi sabotada pelos do Itamaraty e de Bolsonaro

Foto: Reprodução

Na conferência virtual, o dirigente sindical chinês mencionou as hostilidades do governo Bolsonaro, sem citar nomes: “Algumas palavras de ignorantes não vão comprometer as tendências amistosas das relações entre a China e o Brasil”, disse.

“Temos um enorme respeito pela China, seu povo, sua cultura e seu movimento sindical. Que nesse momento nós tenhamos cada vez mais solidariedade de classe para combater esse vírus tão grave que já tirou a vida de milhões de trabalhadores no mundo. Quero também, em nome do povo brasileiro, pedir desculpas pelas agressões do governo Bolsonaro ao povo chinês. Entre nós prevalecerá sempre a solidariedade e o respeito”, respondeu o vice-presidente da CUT, Vagner Freitas.

Aumento da produção de oxigênio da Venezuela

Antonio Lisboa, secretário de Relações Internacionais da CUT, disse que a conversa inicial contribui para o desembaraço dos insumos

Foto: Reprodução

Antonio Lisboa, secretário de Relações Internacionais da CUT, disse que a conversa inicial contribui para o desembaraço dos insumos

Foto: Reprodução

Enquanto há dez dias o chanceler brasileiro tenta sem respostas uma doação de oxigênio dos Estados Unidos, o responsável pelas relações internacionais da maior central de trabalhadores do Brasil diz que a Venezuela informa que a partir de março pode dobrar sua capacidade de produção para doar ao Brasil.

Atualmente a Venezuela consegue produzir 80 mil litros de oxigênio a cada oito dias.

Vale ressalta a importância do acordo realizado com o governo bolivariano. “Por causa do estúpido bloqueio econômico americano, eles não têm peças de reposição nem para os caminhões que trazem o oxigênio doado, nem para as suas plantas (fábricas)”, diz.

É nesse cenário que as centrais deverão atuar. Se no início era para fazer chegar o oxigênio até Manaus, agora a ideia é promover uma campanha para também suprir as necessidades técnicas das fábricas de oxigênio venezuelanas. “O que eles atualmente produzem dá só para um dia, devido ao caos que se instalou em Manaus e, agora, começa a se estender pela região”, lamenta Vale.

O Fórum das Centrais é composto pela CUT, CGTB, CSB, Conlutas, CTB, Força Sindical, Intersindical, Nova Central Sindical e UGT.

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