OPINIÃO

A Amazônia vai nos acordar?

Por Moisés Mendes / Publicado em 23 de agosto de 2019

A Amazônia vai nos acordar?

Foto: Bombeiros/Pará

Foto: Bombeiros/Pará

Os déspotas impostos por ditaduras sempre foram mais combatidos fora do que dentro de seus países. Com a população amordaçada, são as vozes externas que se mobilizam contra a destruição promovida por governos autoritários.

O Brasil enfrenta situação semelhante hoje. A destruição da Amazônia, incentivada pelo discurso e pelas ações de Bolsonaro, aciona forças mundiais. Mas a reação internacional não tem potência equivalente aqui dentro.

Com um detalhe inquietante para nós e para os estrangeiros: o Brasil tem um governante eleito. O país acovardado pelo bolsonarismo se comporta como as nações em tempos de regimes de exceção. Quem teme Bolsonaro e os que estão no seu entorno?

Os estrangeiros o enfrentam. O presidente francês Emmanuel Macron fez pelo Twitter uma convocação em tom de desespero aos membros do G-7: “Nossa casa queima. Literalmente. A Amazônia, o pulmão do nosso planeta que produz 20% do nosso oxigênio, está em chamas. É uma crise internacional. Membros do G7, vejo vocês em dois dias para falar sobre essa emergência.”

O secretário-geral da ONU, Antonio Guterres escreveu, também no Twitter: “Estou profundamente preocupado com os incêndios na floresta amazônica. Em meio à crise climática global, não podemos permitir mais danos a uma fonte importante de oxigênio e biodiversidade. A Amazônia deve ser protegida”.

Nos Estados Unidos, jogadores de basquete da NBA entram em quadra com tênis em que está escrita a palavra Amazon. Astros do futebol, como Cristiano Ronaldo, Dybala e Rabiot, juntam-se ao tenista Novak Djokovic e ao piloto Lewis Hamilton para pedir que o mundo salve a Amazônia.

Jornais de fora noticiam a destruição com fotos nas capas de versões impressas e online. E quem faz isso é a imprensa conservadora ou autoproclamada liberal, sem relação com os inimigos da direita: Guardian, Economist, New York Times, Washington Post, Financial Times.

E as vozes brasileiras? São as mesmas de sempre. Do ambientalismo, das esquerdas, do mundo das celebridades, dos partidos, das ONGs.

Estão calados os liberais. Silenciaram os empresários. Encaramujaram-se os estudantes. É como se os liberais, os políticos de centro e as lideranças empresariais ditas esclarecidas tivessem sido extintas.

Mas os jovens não podem ter desaparecido. Jovens não são uma classe. Nem uma categoria. Jovens são renovadores de atrevimentos. Mas onde enfiaram-se os estudantes?

Quantos secundaristas e universitários do mundo todo gostariam de ter uma das dezenas de motivações para ir às ruas, como os brasileiros têm. Sobram causas provocadas pelo bolsonarismo. Há o que lutar pela educação, pelas liberdades, por negros, índios, gays, pela saúde pública, pela Amazônia.

Mas os jovens vão às ruas em Moscou, em Buenos Aires, em Hong Kong, em Caracas, mas não saem de casa no Brasil. Nem na mais recente manifestação em defesa da universidade pública eles foram maioria.

As ruas mostram cortejos puxados por veteranos, quase sempre os mesmos. E historicamente, em qualquer lugar, as manifestações públicas sempre pulsaram pelo vigor dos jovens.

Por que a Amazônia não consegue emocionar os estudantes a ponto de empurrá-los para a rua, como emociona o prefeito de Nova York, Bill de Blasio. O prefeito disse:  “As mentiras de Bolsonaro não mudam os fatos. O desmatamento na Amazônia aumentou 67% desde que chegou ao poder. A Floresta Amazônica está em risco. As comunidades indígenas da Amazônia estão em risco. Todo o planeta está em risco”.

As notícias sobre futuras manifestações de rua pela Amazônia no Brasil apresentaram, durante dias, listas de cidades onde os protestos seriam realizados. As informações indicavam os lugares que se mobilizariam em protestos.

Essas listas não deveriam existir. Todas as cidades grandes e médias, pelo menos essas, teriam de fazer manifestações de rua pela Amazônia. Deveriam ser tantas que tornassem impossível a realização de listas. Deveriam ser centenas, milhares.

A Amazônia é grife mundial, pela sua grandiosidade e pelo seu significado para a humanidade, mas não tem o poder de mobilizar os brasileiros. Mesmo que as questões ambientais destruam argumentos simplificadores de que os jovens não querem saber de política, por causa do esgotamento dos partidos e da democracia.

É um pretexto preguiçoso. Não há partidos nessa guerra. A Amazônia está acima até do bordão de que todos os povos merecem dispor de seus benefícios. Muito acima da falsa controvérsia se é ou não o pulmão do mundo.

A Amazônia é a mais grandiosa figura feminina da Terra, pela capacidade de reproduzir vida, acolher metade da biodiversidade do planeta e ser decisiva para o equilíbrio ambiental de quase todo o Brasil.

A luta deve ser pela defesa dos povos, dos bichos, rios, árvores e mistérios da Amazônia. É isso e basta. Qualquer outra coisa no lugar do que é hoje a Amazônia significaria o nada e também a destruição do que há em volta.

Até os déspotas estrangeiros, que desprezam a democracia, as diferenças e o meio ambiente, sabem que a Amazônia precisa ser preservada porque é mais do que uma floresta. São déspotas, mas não são bananas e imbecis.

 

* Moisés Mendes é jornalista e escreve quinzenalmente para o site do jornal Extra Classe.

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