OPINIÃO

O feminismo é um veneno

Por Carmen Silveira de Oliveira / Publicado em 21 de novembro de 2019

Foto: Reprodução/ Henry Mee (1992)

Foto: Reprodução/ Henry Mee (1992)

Seria um equívoco considerar esta afirmação de Margaret Thatcher, “o feminismo é um veneno”, datada de três décadas atrás, como circunscrita a um tempo pretérito ou como evidência de um ressentimento mútuo (“As feministas odeiam-me, não é? Não as posso culpar uma vez que odeio o feminismo”).  O que este enunciado da “Dama de Ferro” parece sinalizar, fundamentalmente, é a tensão antiga entre o projeto neoliberal e o feminismo.

Algumas críticas apressadas poderiam colocar sob suspeição a inclusão de uma agenda econômica dentre as lutas feministas pela alegação de que esta pauta extrapola as “reais necessidades” do universo feminino, o que demonstraria o seu enquadramento ideológico no campo da esquerda.  No entanto, este tipo de argumento desconsidera o fato de que a economia tem sido decisiva na vida das mulheres há muito tempo.  Exemplo disto é a luta histórica pelo reconhecimento econômico do trabalho doméstico e de cuidados e não como atribuição natural feminina ou como forma de possibilitar a inserção das mulheres das elites no mercado de trabalho qualificado. Além disso, a autonomia econômica é reconhecida como central para a garantia do livre arbítrio das mulheres sobre sua saúde, sexualidade, comportamento e, ainda, como proteção à violência.

O fato é que tais demandas na esfera econômica se fazem presentes na Marcha Mundial das Mulheres desde 2000, demarcando uma crítica global ao neoliberalismo. E estão, cada vez mais, interseccionadas não apenas com questões de gênero, mas de classe e raça, ou seja, com um “feminismo para os 99%”, como salientado no manifesto divulgado em 2019 pelas filósofas feministas Nancy Fraser e Cinzia Arruzza e pela historiadora Tithi Bhattacharya.

No texto, elas analisam duas visões do feminismo. Uma liberal, em que a lógica de valorização do indivíduo como o homem econômico se estende ao movimento feminista, criando o ideal de uma “mulher econômica”, produzindo um feminismo individualizado, elitizado e competitivo através da meritocracia e do empreendedorismo. O empoderamento feminino é equalizado com sucesso profissional, direcionado para as elites com alta escolaridade e sem considerar as clivagens sociais.

Como entender a emergência desta visão do feminismo? Estudos demonstram que não foi uma coincidência o fato de que a segunda onda do feminismo e o neoliberalismo tenham prosperado em conjunto.  A ascensão neoliberal coincidiu com as reivindicações das minorias por reconhecimento e, no caso do feminismo, ele foi atenuado como uma simples variante da política de identidade. Dito de outra maneira, o neoliberalismo capturou o desejo das mulheres por uma maior liberdade pessoal, ligando-o a uma liberdade através do mercado, acenando o acesso à emprego, consumo, propriedade, status.

Ou seja, a suposta toxicidade feminista à ordem social foi reduzida para reacomodar os valores patriarcais e de classe em torno da “mulher permitida”, parafraseando Hale e Millamán em sua análise de categorias identitárias que surgem quando os regimes neoliberais reconhecem e abrem espaço para direitos aceitavelmente moderados e, ao mesmo tempo, invisibilizam aqueles que poderiam levar a uma transformação social radical.

Por isso, pode-se considerar o feminismo liberal como uma espécie de veneno burguês na luta das mulheres, que fagocita o sentido do empoderamento feminino como mais uma narrativa politicamente correta. Paradoxalmente, a ascensão desse discurso se faz acompanhar do crescimento de um mal-estar político, produzido não somente pelas condições materiais de desempoderamento das pessoas em um mercado de trabalho opressivo e precário, mas também pela apatia, descrédito e até mesmo desaprovação gerados em relação às formas de insurgência coletiva.

A outra perspectiva é um “feminismo anticapitalista inquieto”, definido no manifesto para os 99% como a luta por um mundo justo, cuja riqueza e recursos naturais devem ser compartilhados por todos e onde a igualdade e a liberdade sejam condições reais de vida e não somente aspirações. Nessa perspectiva, a potência da ação feminista estaria no feminismo “interseccional”, ou seja, na convergência das demandas de gênero com questões que afetam as mulheres negras, indígenas, migrantes, dentre outros segmentos. Um feminismo de “intersecções das opressões”, como refere Ângela Davis.

Trata-se, portanto, de uma visão feminista distinta da liberal pois busca reconstruir a nossa própria imagem coletiva enquanto cidadãos empoderados, com problemas sociais compartilhados e movidos por cuidado mútuo.  Nesse horizonte, o feminismo não deixaria de ser um movimento para a justiça de gênero, mas o arco de sua transformação seria inflexionado na direção da justiça e não apenas no que diz respeito ao gênero.

Subjaz aqui uma crítica ao capitalismo androcêntrico organizado pelo Estado, problematizando as três dimensões da injustiça de gênero – cultural, econômica e política- ao abranger a finalidade do feminismo não apenas no enfrentamento da cultura do patriarcado, mas das suas conexões às formas de organização do poder econômico e político e que agenciam a sujeição feminina ao mercado e ao Estado.

Margaret Thatcher tinha razão, portanto, em vislumbrar as condições do feminismo de inocular o veneno na ordem social pois na sua versão mais radical ele se propõe a despatriarcalizar o Estado, isto é, alterar as formas de exercício do poder, passando de um modelo liberal para um modelo republicano e participativo, recuperando o sentido público do Estado como provedor de direitos e não submisso às vontades do mercado.

No contexto contemporâneo em que são implementados programas de governo mais thatcheristas do que nos anos oitenta, como no caso brasileiro, talvez o antídoto necessário a este envenenamento liberal esteja justamente em um movimento feminista ainda mais radical.

 

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