OPINIÃO

Doses e doses

FRAGA / Publicado em 10 de setembro de 2021

Ilustração: Rafael Sica

Ilustração: Rafael Sica

Faz de conta que o Coronavírus e uma Vacina (sem sobrenome, para evitar que o autor seja processado por qualquer laboratório) são apenas dois corações solitários numa noite fria. E faz de conta que há um piano-bar convidativo, onde é permitida a entrada de seres imaginários.

A Vacina chegou antes. Ela está exausta: foi um dia puxado, com mais de um milhão e duzentas mil aplicações. Ela toma um drinque, quer relaxar, esquecer de tanto entra e sai em êmbolos. Tudo que ela não quer é pensar em anticorpos.
Mas a noite não concorda:

– Oi, boneca. Posso resolver todos os seus problemas.

– Peraí, eu não tenho nenhum problema.

– Como não, lindinha: e eu aqui?

O Coronavírus, que se acha um Bogartvírus, ri com a própria piada. Recebe de volta um olhar mais gelado que o cubo de gelo no copo. Como se dissemina melhor no clima frio e seco, insiste:

– Você vem sempre imunizar aqui, gata?

Vacina relembra de quantos braços se ofereceram a ela nos postos de saúde durante o dia. Repara que o Corona nem ombros tem. Com o canto do olho lança um torpedo desdenhoso.

Corona, já bebericando seu destilado botulímico, desenha o mais encantador sorriso que sua mente contaminante pode simular.

– O que uma garota como você faz num lugar tão antisséptico como esse?

A Vacina, indiferente ao forçado layout facial, improvisa entredentes:

– Espero pelo Tétano e a Cólera, combinamos um ménage à trois.

Corona vibra, se inclina, semicerra os olhos e sussurra em meio ao hálito esverdeado:

– Ah, tesouro, isso é pouco excitante. Você não prefere um quatre?

A Vacina intui que ele nunca irá desistir, ela não vai escapar. Ele se espalha fácil, é perigosamente contagiante. A Vacina então propõe:

– Vou desmarcar com Tétano e Cólera, você vai adorar minhas irmãs gêmeas.

Ela usa o celular enquanto ele, animadaço, acaricia seu capsídio.

Bebem em silêncio, ao som de Meu Bem, Meu Mal, tocado por um solerte pianista.

Não demora, a porta abre e entram duas belezuras, sósias perfeitas da Vacina. As três se abraçam, cochicham, riem alto.

Encantado e já seduzido, Corona quer saber:

– Afinal, quem são vocês três?

– Eu sou a Dose, essa aqui é a Dosinha e ela ali é a Dosona.

Mais risadas, mais encantamento dele. Aí o trio mira Corona e em uníssono convida:

– Estamos sem sono… Quer dormir com a gente?

Tri a fim da noitada, Corona solta um eba! juvenil e segue as moças porta afora. Na rua, ao lembrar dos apelidos delas, tem um calafrio. Ele ainda não sabe que não é de frio.

E a Vacina, ao andar ao lado do insidioso, se sente tensa: talvez fosse melhor convocar logo sua quarta irmã.

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