OPINIÃO

Imemorável

CRÔNICA
FRAGA / Publicado em 22 de outubro de 2021

 

Ilustração: Rafael Sica

Ilustração: Rafael Sica

“Foi um rio que passou em minha vida (…)”
(Paulinho da Viola, inesquecível)

A essa altura do campeonato chamado longevidade, levando goleada dos fatos diários ao competir para serem lembrados, ora me banho no rio Lete, ora no rio Mnemósine. São rios imaginários, com nascente e foz no Hades grego, e cursos mitológicos opostos: se você bebesse ou tocasse as águas de um, esqueceria tudo; se do outro, recordaria tudo.

Na estiagem atual, em que açudes e barragens nem lembram mais da água, mergulho em memórias fugidias. O geriatra que ainda não tenho explicaria por que transbordo de esquecimento. Não esclareceria, porém, por que isso é algo mais extenso e caudaloso que a soma do Nilo e o Amazonas. É muita vazão na minha razão.

Em meio a tanta fluidez e imprecisão mental, lembro que, guri, eu lembrava de cor e salteado dos afluentes de sei lá quantos grandes rios brasileiros. Hoje, misturo Jari e Jacuí na mesma bacia. Se dependesse da minha desmemória, a hidrografia nacional transbordaria de equívocos.

Recordo que a neurologia separa a memória em duas vertentes, a de curto prazo e a de longo prazo. No meu caso, ambas já desaguam no mesmo riachinho, que por sua vez tende ao córrego, e daí ao leito seco é questão de tempo.

Pra não me afogar nas vagas lembranças, me agarro à memória seletiva. Que, sabem os leitores, é quando a mente seleciona com o que se ocupar ou se despreocupar. Nomes na CPI da Covid, por exemplo não retenho mais. Um pouco pela quantidade de delinquentes, outro tanto pela desqualificação moral que iguala quase todos por lá. Até pra gente lembrar da Seleção, a memória seletiva ajuda.

Já a memória olfativa também anda atrapalhada: antes, era um buquê de possibilidades evocativas. Agora, quando perfumes e produtos de limpeza se confundem, o impossível acontece: nucas e ralos podem exalar semelhanças odoríferas.

Memória para dados, para mim, é a que tem o profissional de informática que costuma frequentar cassinos.

Quanto à memória fotográfica, vez em quando recordo do prazer que era remexer antigas fotos impressas, em papéis acartonados e cantoneiras. Dava gosto manusear. Do jorro de selfies ao turbilhão dos arquivos digitais, uma inundação de mesmice visual. Sem falar na crise de identidade a cada vez que nos falha a memória fisionômica e aumenta a densidade de vultos irreconhecíveis ao redor.

Puizé, minha memória já foi espetacular, eu não misquecia de nenhum espetáculo. Agora é singular: a maioria dos plurais que eu sabia foram pro limbo.

Mas não pensem que vivo num eterno olvido liquefeito. “Ditadura e Tortura Nunca Mais” continua indelével. E da fórmula da água eu recordo perfeitamente: é agá dois uau!

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