OPINIÃO

Que tempos! Negacionismo até no “aniversário” do rádio

A primeira transmissão de rádio com som claro em território brasileiro ocorreu em 17 de abril de 1911, na Bahia, e não em 7 de setembro de 1922, no Rio de janeiro
Por Luiz Artur Ferraretto / Publicado em 22 de agosto de 2022
Que tempos Negacionismo até no aniversário do rádio

Foto: Reprodução/Web

A primeira transmissão não ocorreu no festejado 7 de setembro de 1922

Foto: Reprodução/Web

Frente ao conhecimento academicamente construído, dizer sem base alguma que “não é bem assim” transbordou das bolhas e dos nichos das redes sociais para tudo. Confronta-se a verdade científica, sempre em desenvolvimento, com a certeza das arquibancadas de estádio ou dos bancos de templos religiosos. Nada contra times de futebol ou igrejas e seitas. Apenas, quero demarcar que, em suas certezas, torcedores e crentes torcem por torcer e acreditam por acreditar. Ciência não é assim. À verdade indubitável dos gritos de gol ou dos louvores de hinos bíblicos, contrapõe a verdade relativa, aquela que se altera por novas pesquisas, tudo sempre dependendo da validação dos pares. Por que seria diferente o negacionismo em relação às chamadas ciências sociais aplicadas, campo no qual se insere a área de comunicação e, dentro dessa, os estudos radiofônicos? De fato, é até pior. Peguemos, por exemplo, o rádio, algo tão próximo do cotidiano de todas e de todos. O senso comum – uma média não muito definida a respeito de um fato – consagra aquilo que é mais repetido, seja científico ou não. Cada vez com menos profissionais experientes ou bem remunerados e com mais empregados sobrecarregados, a imprensa reverbera a inverdade como se fosse algo de conhecimento público. É por isso que se estão comemorando os cem anos do rádio brasileiro, mesmo que a ciência diga ser o meio mais antigo.

O que se está comemorando? Trata-se de uma falsa primeira transmissão “oficial” de rádio. Em 7 de setembro de 1922, foi aberta a Exposição Internacional do Rio Janeiro, evento comemorativo ao centenário da independência do país. Interessadas em convencer o governo federal da importância de seus equipamentos duas empresas dos Estados Unidos prepararam demonstrações de uma novidade tecnológica: a radiotelefonia. No momento da inauguração, o discurso do presidente Epitácio Pessoa chegou ao público por meio de receptores nos pavilhões do evento e nas residências de alguns afortunados, durante demonstrações realizadas pela Westinghouse International Company, usando uma estação transmissora, instalada no Corcovado. Posteriormente, outras demonstrações semelhantes foram realizadas, incluindo também a Western Electric Company. Essas tentativas de chamar a atenção, em especial do poder público, para que comprasse tais equipamentos foram interpretadas por diversos pesquisadores – eu entre eles – como uma demonstração oficial, afinal o governo as teria organizado.

Tal convicção alterou-se graças ao acesso a jornais de época, tudo facilitado por uma ferramenta fantástica, a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional – https://bndigital.bn.gov.br/hemeroteca-digital/ –, criada em meados da década de 2000. Com acesso a milhares de exemplares escaneados e com a possibilidade de busca por palavra nas coleções ali disponibilizadas, os pesquisadores começaram a rever antigas posições. Mudamos de opinião. E, agora, o que se defende tem muito mais amparo em dezenas de indícios registrados, aqui e acolá, pela imprensa das décadas de 1910 e 1920. Assim, em 10 de setembro de 2020, foi lançada a Carta Aberta sobre o Pioneirismo no Rádio Brasileiro – https://blog.ufba.br/portaldoradio/files/2021/09/20210204_CARTA_ABERTA.pdf –, assinada pelos quatro fóruns de pesquisa em rádio então existentes no país: Grupo de Pesquisa em Rádio e Mídia Sonora da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, Grupo Temático História dos Meios Sonoros da Associação Brasileira de Pesquisadores de História da Mídia, Rede de Pesquisa em Radiojornalismo da Associação Brasileira de Pesquisadores de Jornalismo e Rede de Rádios Universitárias do Brasil. Hoje, com certeza, teria o apoio de outros dois, recém-criados: o Grupo de Estudos Radiofônicos da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação e o Grupo de Interés Radio y Medios Sonoros da Asociación Latinoamericana de Investigadores de la Comunicación.

O que diz a carta? Primeiro, desmente o caráter oficial das transmissões realizadas de 7 de setembro de 1922 até meados do ano seguinte, período durante o qual a exposição ocorreu:

“As irradiações da Exposição Internacional do Rio Janeiro não se constituem no início oficial do rádio no Brasil. Por que se atribuiria a elas o qualificativo de “oficial”? As demonstrações visavam a comercialização de equipamentos para radiotelefonia e radiocomunicação. A confusão se deve ao fato de a primeira transmissão ter ocorrido durante a inauguração do evento, com o discurso do presidente da República, Epitácio Pessoa. Se foi ‘oficial’, quaisquer outras demonstrações de equipamentos durante a exposição também o foram. Há ainda, neste sentido, irradiações anteriores. Em 1º de abril de 1920, por exemplo, a Marconi Company realizou experiência com objetivo comercial semelhante, conectando as instalações da Marinha, na ilha das Cobras, com o Palácio Rio Negro, em Petrópolis, local de veraneio da Presidência da República. Essa última tinha como solicitante o governo. Uma das vozes transmitidas foi também a de Epitácio Pessoa, que, do palácio, conversou com um senador. Desta forma, poderia se caracterizar também como oficial.”

Em outras palavras, se a demonstração de 7 de setembro de 1922 foi “oficial” – não, não foi -, o que a faz mais “oficial” do que a de 1920?

Antes de seguir com citações da carta, creio ser importante explicar algo ignorado pelos festeiros do “aniversário” equivocado. Desde o final do século 19 até pelo menos o início da década de 1930, no Brasil, rádio era sinônimo de sem fio – de wireless, como querem os mais colonizados. Aos poucos, a radiotelefonia ou telefonia sem fios foi se transformando. Era uma forma de conectar dois pontos, um ponto conversando com o outro. Foi virando rádio, som sendo transmitido em apenas um sentido de um ponto para captação em vários. Tudo por ondas eletromagnéticas.

Segundo, como meio de comunicação de massa, o rádio brasileiro não começou no Rio de Janeiro:

“Pesquisas realizadas ao longo dos últimos 30 anos confirmam que, como instituição, o meio começa a se constituir ainda em meados da década de 1910, consolidando-se a partir de 1932 com a regulamentação da publicidade radiofônica por parte do governo federal. Estudos recentes demonstram que a história do rádio no país começou antes de 1922. Assim, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, fundada em 20 de abril de 1923, não é a pioneira da radiodifusão brasileira. O Rádio Clube de Pernambuco, instalado em 6 de abril de 1919, a precede.”

Por fim, a respeito do pioneirismo do Rádio Clube de Pernambuco, a carta registra:

“Em Recife, amadores operavam estações desde meados dos anos 1910. Foram passando da radiotelegrafia e da radiotelefonia para o rádio. Com o surgimento da KDKA, emissora pioneira dos Estados Unidos, intensifica-se o interesse deles em relação à transmissão sonora. No Brasil, tais irradiações seguiam sendo consideradas clandestinas. Há registros, inclusive, de perseguição das autoridades em relação aos que operavam essas estações. Por isso não há registros dessas transmissões, o que se resolve somente após a fundação da Rádio Sociedade e por hábil intermediação de Edgard Roquette-Pinto junto ao governo. Fica-se na dependência de relatos de protagonistas e testemunhas. Vários apontam para o início do ano de 1923.

A indicação mais clara presente em relatos e jornais da época é de irradiação no mês de fevereiro de 1923. Seus principais protagonistas: Oscar Moreira Pinto e Oscar Dubeux Pinto. Radiotelegrafista da marinha mercante, Moreira Pinto voltara pouco antes para Recife, trazendo na bagagem equipamentos aos quais Dubeux, espécie de garoto-prodígio entre os eletricistas da cidade, juntou um microfone construído caseiramente. Na mesma época, Tito Xavier, que não fazia ainda parte do Rádio Clube, transmitia voz e música clandestinamente.

A primeira transmissão clara de som em território brasileiro, no entanto, é anterior a tudo isso. Ocorreu, em 17 de abril de 1911, na costa da Bahia. Trata-se da demonstração do chamado sistema Telefunken a bordo do SMS von der Tann, cruzador-encouraçado alemão, de onde se transmitiu música captada pela Estação de Amaralina.”

Como destaca o documento, tais constatações não são achismos de redes sociais. Amparam-se em pesquisas científicas avalizadas pelo meio universitário brasileiro e, portanto, baseadas na existência de indícios e de provas a respeito.

Usar a data de 7 de setembro para valorizar o rádio é ótimo, mas se faz necessário comemorá-la com base na ciência. O que diz a pesquisa, aquela construída com base teórico-metodológica e ida a campo, a respeito do ocorrido há cem anos? Reconhece a data como a da primeira grande demonstração pública de uma tecnologia ainda pendendo para o sem fio e que estava prestes a ser usada em um novo meio de comunicação, o rádio. No entanto, querer transformar o processo de surgimento do rádio em algo estático é negar a natureza dinâmica do meio. E desprezar o trabalho de idealistas como os de Recife e tantos outros, entre eles, o padre Roberto Landell de Moura, a quem Hamilton Almeida, em seu livro recém-lançado “Padre Landell – O brasileiro que inventou o wireless”, atribui a primeira transmissão de som por ondas eletromagnéticas. Segundo a obra, essa ocorreu bem antes, em 16 de julho de 1899.

Bem, caso você não tenha se convencido, eu desisto. No seu negacionismo, comemore, então, os cem anos “oficiais” do rádio. Durante a festa, não esqueça – isto é uma ironia – de evitar o consumo de melancia com uva. Dizem os antigos que empedra, dando nó nas tripas. Lembre – isto é uma ironia –  de tomar a sua cloroquina, muito melhor do que qualquer vacina contra a covid. Ria – isto é uma ironia – de quem acha ser um astronauta aquele cara pulando sobre a superfície lunar. Afinal, todo mundo sabe, no grupo de WhatsApp, que o sujeito era mesmo o John Wayne e tudo foi feito em um estúdio, lá em Hollywood. E – isto também é uma ironia – você está se aproximando perigosamente da borda da Terra, esta chata. Cuidado, portanto! Está prestes a cair, a qualquer momento, no abismo do seu negacionismo científico. Até em relação a algo tão cotidiano como o rádio, meio que não tem uma data exata de nascimento, mas que foi se construindo a partir de vários momentos diversos.

Luiz Artur Ferraretto é jornalista, professor e faz parte do Núcleo de Estudos de Rádio da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs)

Comentários