Opinião
Os novos oráculos da saúde
Entre promessas de prevenção e riscos de diagnósticos desnecessários, é necessário ter cautela no uso…

Foto: Tania Rego/Agência Brasil
No Brasil, outubro é considerado o Mês Nacional da Ciência, Tecnologia e Inovação. Dia 15 de outubro é o Dia do Professor(a). Em âmbito internacional, no dia 5 de outubro é celebrado o Dia Mundial dos Professores, o qual marca o aniversário da subscrição da recomendação da OIT/Unesco sobre o Estatuto dos Professores (1966). Este Estatuto mundial dos docentes foi atualizado em 1997 para incluir pesquisadores e professores do ensino superior.
Neste período, também, transcorre o processo eleitoral, pautado por acusações e ausência de projetos educacionais de interesse da população, especialmente dos jovens estudantes. Diversos estudos e evidências reafirmam o descaso nacional para com a educação pública e a docência no Brasil. A maioria dos candidatos no processo eleitoral se restringe a prometer uma educação profissional instrumental formadora de mão-de-obra para um mercado majoritariamente informal e com altos índices de desemprego.
Enquanto o descaso para com a ciência, a educação e a docência se agrava a cada ano, a maioria dos brasileiros assiste com relativa naturalidade. O “apagão” docente expresso na falta de professores que já se faz sentir se agravará ainda mais; a queda de número de matrículas na educação básica é um paradoxo inaceitável e, o aumento de jovens sem emprego e sem continuar os estudos é um juvenicídio destas gerações.
O Instituto Semesp divulgou estudo recente que aponta agravamento do “apagão” de professores o Brasil, ampliando a falta de professores que já atinge algumas áreas de conhecimento, como ciências da natureza e matemática. O país precisará de 1,97 milhão de professores em 2040, mas as projeções indicam que o total cairá 20,7% em 18 anos, gerando uma falta de 235 mil professores. E o cenário atual aponta redução do número de concluintes da graduação.
O percentual de formados em cursos de licenciatura apresentou um crescimento de apenas 4,3%, devido à alta evasão em Ensino a Distância (EaD), que ganhou destaque sobretudo a partir da pandemia de covid-19. A partir de 2020, a modalidade passou a representar 73,2% dos novos alunos, porém tem alto índice de abandono.
Outra evidência é que o crescimento de ingressantes em licenciaturas, de 2010 a 2020, foi bem inferior ao crescimento registrado nos demais cursos. Em 10 anos, o número de calouros em licenciaturas cresceu 53,8%, porém, nos demais cursos, o índice foi de 76,0%. Entre os ingressantes com até 29 anos, houve um aumento de apenas 29,7% do corpo discente, enquanto nos demais cursos esse número chegou a 49,8% na mesma faixa etária. Ou seja, menos jovens querem exercer a docência.
A desvalorização da docência é estrutural ao trabalho docente na escola pública no Brasil: somam-se o baixo salário do professor; planos de carreira que não valorizam o professor; carga horária elevada, muitas vezes composta por várias matrículas; escolas sem infraestrutura para o ensino e, menos ainda, para a permanência no próprio ambiente para estudar, preparar aulas, participar de reuniões e outras atividades; e escasso material didático, desprestígio social e ameaças de gestores públicos e provados.
A falta de liderança do MEC juntos aos demais ententes da federação agrava a condição da educação básica no país. Sem políticas públicas e sem estratégias/programas de enfrentamento das consequências do covid-19, temos redução de matrículas na educação básica, bem como queda na aprendizagem de estudantes.
Dados preliminares do Censo Escolar da Educação Básica, divulgados recentemente pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), já ajudam a traçar um panorama da evasão escolar no país e mostram, por exemplo, que o número de matrículas no Ensino Médio em 2022 foi 5,3% menor do que em 2021 – de 6,5 milhões para 6,2 milhões. No Ensino fundamental, em geral, também é registrada queda relevante no número de alunos.
Quanto as aprendizagens dos estudantes, as análises sobre o Ideb 2021 e o Saeb 2021 são divergentes. Uns apontam prejuízos e impactos irreversíveis e de longo prazo, enquanto outros criticam o exagero de algumas análises fatalistas. Para Daniel Cara, Coordenador da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, as “perdas de aprendizado ocorreram na pandemia de Covid-19, mas são menores do que o esperado e são reversíveis”.
Contra o catastrofismo na educação brasileira, a Campanha Nacional pelo Direito à Educação se manifesta em nota no sentido de que esse é mais “um momento para valorizarmos a escola pública, sua função social e seu papel de educar o povo brasileiro. A pandemia foi cruel com o mundo, especialmente com o Brasil – devido ao (des)governo Jair Bolsonaro. Há muito a ser feito, mas os resultados do Saeb 2021 e do Ideb 2021, devido ao trabalho das educadoras e dos educadores, anunciam: vamos vencer. Viva as professoras! Viva os professores!”.
De acordo com o relatório Education at a Glance 2022, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), divulgado no último dia 3 de outubro, o Brasil é o segundo país com a maior proporção de jovens, com idade entre 18 e 24 anos, que não conseguem nem emprego nem continuar os estudos.
Segundo o documento, 35,9% dos jovens estão nessa situação no país. A proporção brasileira é o dobro da média dos países membros da OCDE, que é de 16,6% de pessoas dessa faixa etária sem trabalhar e estudar. Somente a África do Sul é país com maior proporção que o Brasil, com 46,2%.
O relatório destaca ainda que, no Brasil, só 33% daqueles que acessam o ensino superior conseguem terminar a graduação dentro do tempo previsto. Quase metade (49%) só conclui o curso depois de três anos do prazo programado. O restante desiste da graduação ou termina em um tempo ainda maior.
Segundo o estudo da OCDE, em todos os países analisados, a conclusão do ensino superior está associada a mais oportunidades de emprego e melhores salários.
O Brasil também é o segundo com a maior proporção de jovens por mais tempo nessa condição. Dos que estão sem emprego e sem trabalhar no país, 5,1% se encontram nessa situação há mais de um ano, o que indica uma falta crônica de oportunidades para essa população. Essa etapa da vida é considerada a de transição da educação para o mundo do trabalho, ou seja, quando os jovens deveriam cursar uma graduação ou curso técnico para conseguir um emprego.
Nesse cenário, segundo Jorge Luis Nicolas Audy (PUCRS), neste momento da história em que vivemos, emerge com clareza o fundamento para a necessidade voltarmos a ter esperança no futuro. Esse fundamento não é a inovação. Não é a segurança pública. Não é a questão ambiental ou social. Não é o mercado ou a economia. Todos esses e outros são aspectos importantes, alguns até prioritários. Mas o fundamento da construção de um novo momento para nosso país é a educação. A educação é o fundamento para a construção de uma sociedade que viva plenamente o nosso tempo, o tempo da sociedade do conhecimento e da aprendizagem.
A educação é fundamental na formação das sociedades e das pessoas. É necessário colocar os jovens no centro dos investimentos em educação e propulsionar a educação como promotora de desenvolvimento sustentável. A mudança sustentável precisa acontecer a partir de um olhar de totalidade, que contempla uma perspectiva de longo prazo e que coloca a ênfase nas pessoas.
Neste momento em que perguntamos o que as instituições de ensino podem e devem fazer para formar cidadãos para uma democracia saudável, a literatura ousa propor: desenvolver a capacidade dos estudantes de ver o mundo do ponto de vista dos outros; ensinar posturas com relação à fragilidade e a impotência humana como oportunidades de cooperação e de reciprocidade; ensinar coisas reais e verdadeiras a respeito de outros grupos (minorias raciais, religiosas, políticas e sexuais), de modo a conter os estereótipos e eliminar o preconceito.
E ao professor(a), a melhor síntese que podemos indicar sobre como o deve se armar teórica e praticamente para enfrentar as contradições que atravessam o aparelho escolar, as recolhemos de Antônio Gramsci, filósofo italiano (1919): “Instruí-vos porque teremos necessidade de toda a vossa inteligência. Agitai-vos porque teremos necessidade de todo o vosso entusiasmo. Organizai-vos porque teremos necessidade de toda a vossa força”.
Como formação humana, a educação acontece na sala de aula, e em seus arredores. Os horários de entrada e saída dos estudantes e seus professores constituem-se como momentos de alegria, tristeza, medo, ansiedade e, também, de algum tipo de esperança, por menor que seja. Encontrar os amigos, saber o que se passa com o menino que se senta ao lado, saber o que se passa com a menina que sempre chega atrasada na aula de história, mas não mede esforços para assistir à aula de matemática. O valão continua a céu aberto. O aluguel venceu. O ônibus atrasou. O vale transporte acabou. Bem em frente ao portão da escola, um assaltante faminto clama por comida, diversão e arte (do Ebook Trabalho docente sob fogo cruzado – vol. 2).
Conforme nos legou Paulo Freire: “O professor que pensa certo deixa transparecer aos educandos que uma das bonitezas de nossa maneira de estar no mundo e com o mundo, como seres históricos, é a capacidade de, intervindo no mundo, conhecer o mundo”. Sigamos firmes construindo um mundo e um futuro melhor pela cooperação humana
Parabéns colegas pelo dia do(a) professor(a)!
Gabriel Grabowski é professor e pesquisador. Escreve mensalmente para o jornal Extra Classe.