OPINIÃO

Negacionismo eleitoral é o pesadelo das democracias

Os negacionistas trumpistas do Hemisfério Norte, assim como os bolsonaristas daqui, pregam em suas bolhas a fidelidade à chamada “Grande Mentira”, colocando em dúvida a lisura das eleições
Os editores / Publicado em 21 de novembro de 2022

Negacionismo eleitoral é o pesadelo das democracias

Arte: Fabio Edy Alves sobre fotos de José Cruz (Abr) e CUT

Arte: Fabio Edy Alves sobre fotos de José Cruz (Abr) e CUT

Em um dia em que este editorial está sendo escrito, 8 de novembro,  os eleitores dos EUA realizam eleições para renovar parte do Congresso (100% da Câmara e 1/3 do Senado), além de eleger cargos estaduais. Com isso, define-se o tamanho do poder e das dificuldades do presidente para fazer avançar ou não sua agenda no Parlamento. O negacionismo eleitoral, porém avança.

Em uma reprise do que o ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump fez em 2020, os negacionistas eleitorais de 2022 propagam fake news sobre as eleições e amedrontam os eleitores. O negacionismo eleitoral se tornou o maior pesadelo do presidente norte-americano democrata, Joe Biden, e poderá ser também o sonho ruim de Lula.

Os negacionistas trumpistas do Hemisfério Norte, assim como os bolsonaristas daqui, pregam em suas bolhas a fidelidade à chamada “Grande Mentira”, colocando em dúvida a lisura das eleições e a legitimidade das urnas. Assim criam um mundo paralelo, com realidade paralela e com uma realidade alternativa.

Lá, os candidatos que abraçam as falsas teorias de fraude são justamente os apoiados pelo ex-presidente Trump e se encontram justamente nos estados que decidirão quem controlará a Câmara dos Representantes e o Senado: Pensilvânia, Arizona, Michigan, Flórida, Texas, Wisconsin e Geórgia. Pesquisas apontam que podem lograr êxito em fazer grandes bancadas no Congresso norte-americano.

Olhar para os EUA hoje, assim como para outros países que enfrentam o negacionismo eleitoral da extrema-direita, antecipa o que veremos no Brasil em breve. A extrema-direita lá e aqui mais do que flerta com o golpismo e, por mais patético que possa parecer – já que tudo acaba em meme –, elas representam uma real ameaça.

A persistência nos atos antidemocráticos brasileiros dá a impressão de volume, pois sabem que estão ocupando os espaços políticos e nos noticiários. A paralisação dos caminhoneiros em dezenas de rodovias brasileiras foi nossa invasão do Capitólio, ressalvadas as devidas proporções.

Em Porto Alegre, por exemplo, sede deste periódico, grupos bolsonaristas já emendaram vários dias de protesto e vigília junto ao quartel do Comando Militar do Sul, no Centro Histórico da capital dos gaúchos.

O próprio prefeito Sebastião Melo (MDB), aliado do bolsonarismo, foi oficiado pelo Ministério Público Federal (MPF), junto com o Ministério Público Estadual (MPRS) e o Ministério Público de Contas (MPC), cobrando medidas para desbloquear as vias públicas interditadas pelos manifestantes.

Enquanto a prefeitura nada faz, manifestantes golpistas pregam “intervenção federal” ou a “interversão”, como foi flagrada uma faixa por fotógrafos. Assim como os trumpistas nos EUA, os apoiadores de Bolsonaro, fardados com suas camisetas da CBF e portando suas bandeiras do Brasil, onde está escrito “Ordem e Progresso”, apregoam o descumprimento da Constituição e causam desordem. Desde o final das eleições, 30 de outubro, eles obstruem a passagem de veículos e pessoas em determinados pontos, mantendo carros de som com hinos patrióticos e discursos motivacionais aos manifestantes.

“O ofício também solicita a identificação e multa dos proprietários dos veículos que permanecem em vias públicas para efetivar ou apoiar os bloqueios”, informa o texto. Melo, que apoiou as candidaturas de Jair Bolsonaro (PL) para a presidência e de Onyx Lorenzoni (PL) para o governo do Estado, tem 24 horas para responder a partir desta data, 8 de novembro.

Em Caxias do Sul, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) autuou a Fábrica Nacional de Amortecedores (FNA) por locaute (greve de patrões). A empresa fechou e orientou os trabalhadores a irem para a manifestação que ocorre em frente ao 3º Grupo de Artilharia Antiaérea, com o mesmo teor golpista que o protesto na capital.

Atos como esses acontecem na esteira dos bloqueios que foram realizados nas rodovias em diversas regiões do país na semana passada. No Distrito Federal, o MPF suspeita de financiamento oculto na paralisação dos caminhoneiros.

Não bastasse isso, no noroeste do estado, listas de empresas e eleitores considerados petistas são divulgadas para que sofram boicotes.

Caso as instituições democráticas não punam exemplarmente os fomentadores-financiadores de atos fascistas, nazistas e antidemocráticos que vêm agindo à margem da lei e da Constituição, a democracia ficará cada vez mais fragilizada.

Os EUA terão de punir Trump e seus asseclas. E aqui?

Os editores

 

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