OPINIÃO

Vergonhas

LUIS FERNANDO VERISSIMO / Publicado em 11 de novembro de 2022

Vergonhas: crônica de Luis Fernando Verissimo, no Extra Classe

Ilustração: Edgar Vasques

Ilustração: Edgar Vasques

O Brasil mantém vivos os mitos que faziam os europeus se lançarem ao mar em cascas de nozes na conquista do desconhecido. Eles vinham para este Outro Mundo para explorar, subjugar, catequisar e ― no caso dos portugueses ― porque era preciso, mas também vinham atrás de fantasias.

Uma das mais chamativas era a fantasia erótica. A expansão do cristianismo se misturava com a expansão dos sentidos reprimidos na Europa da Reforma.

Não é preciso ir além de Os Lusíadas para flagrar (como fez, num livro fascinante chamado The Book of Babel, o inglês Nigel Lewis) a confusão, nas almas navegadoras portuguesas, entre a Virgem Maria, padroeira de Portugal e protetora dos seus navios, e Vênus, a estrela do mar, guiando-as para a Ilha do Amor e outros prazeres pagãos em paraísos ainda não conquistados.

A Virgem com ares de Vênus de Camões é um pouco a Vênus com cara de Virgem de Botticelli, saindo de dentro de um “coquille Saint Jacques”, outra tentação marítima. A confusão é antiga.

Maria vem de “mare”. Afrodite, o outro nome de Vênus, quer dizer “nascida da espuma” (“aphrós”, em grego). A espuma do mar tem conotação sexual e simboliza o esperma em vários mitos de origem ― e não vamos nem falar nas alusões sexuais de conchas e moluscos.

A fantasia era poderosa, e os fatos muitas vezes a reforçavam, com simbolismo irresistível. A grande aventura atrás de lucro e conhecimento, mas insuflada pela testosterona, teve uma espécie de síntese casual na primeira viagem do capitão Cook, em 1769.

A viagem era para fazer um estudo astronômico da trajetória de Vênus. Acabou na descoberta da Polinésia, um arquipélago do Amor, e das suas nativas desinibidas e dadas.

Hoje, os turistas sexuais que desembarcam de aviões no Rio ou no nordeste brasileiro dispensam a estrela-guia sedutora. Navegam pela nossa reputação, mas perseguem a mesma fantasia.

E o que os entusiasma nas nossas nativas pré-adolescentes devem ser as mesmas “vergonhas tão altas e tão cerradinhas, de a nós muito bem olharmos, não tínhamos nenhuma vergonha” que entusiasmaram Pero Vaz de Caminha há 500 anos. Nada, na verdade, mudou.

Outro mito que o Brasil se encarregou de não deixar morrer é o de El Dorado, a fantasia da fortuna instantânea. El Dorado existe, e é aqui. Ou foi aqui, no mês de janeiro, quando alguns bancos lucraram de um dia para o outro o que provavelmente ninguém tinha lucrado de uma vez só, dentro da lei, em 500 anos. E não tivemos nenhuma vergonha.

“Vergonhas” é uma republicação do acervo do autor.

Luis Fernando Verissimo colabora com o Jornal Extra Classe desde 1996.

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