OPINIÃO

Panelaços

Por Luis Fernando Verissimo / Publicado em 12 de abril de 2020

Nenhuma novidade no fato de um governo
perder apoio na prática de governar

Arte: Ricardo Machado

Arte: Ricardo Machado

A inacreditável fala do presidente na terça-feira (24 de março) acabou com a profissão de intérprete de panelaços, criada na era Bolsonaro & Filhos. Um intérprete de panelaços era quem distinguia um panelaço de outro, já que os panelaços podiam ser a favor ou contra o governo, e um panelaço no Leblon
não era igual a um panelaço em outro lugar.

Até pouco tempo, era fácil interpretar panelaços, ouvidos sempre em zonas de alto poder aquisitivo ou alta classe média. Não havia dúvida sobre quem estava nas janelas e nas sacadas dos edifícios, batendo em frigideiras, travessas e surdos improvisados, em apoio ao governo que tinha ajudado a eleger com seu
barulho. Hoje há panelaços feitos nos mesmos edifícios, supõe-se que pelas mesmas pessoas,
mas acompanhados de gritos de “fora Bolsonaro!”, o que só prova como são volúveis nossas elites, como é difícil fazer sociologia a curto prazo no Brasil e, principalmente, a falta que faz um bom intérprete de panelas para nos orientar.

Nenhuma novidade no fato de um governo perder apoio na prática de governar. Promessas de campanha são como juras de amor, servem para seduzir, não necessariamente para durar. Mas, no caso da desilusão com Bolsonaro & Filhos, a decepção foi maior porque a expectativa dos seus 57 milhões de eleitores – espantosa, conhecendo-se a biografia e a personalidade do candidato – era maior. Digam o que disserem do Bolsonaro & Filhos, eles nunca esconderam o que eram ou chegaram ao poder disfarçados de outra coisa. O que os 57 milhões elegeram foi isso aí mesmo.

Quanto à mudança dos panelaços de a favor do governo para contra o governo, a causa, entre outras, é o desempenho de Bolsonaro & Filhos na guerra contra a peste que nos assola, como ficou evidente na fala inacreditável da terça-feira. Não sei como estão sendo interpretados os panelaços do Leblon, mas se são
sinais de insatisfação também são sinais de conscientização, e nos servem. Portanto, não pergunte por quem soam as panelas do Leblon, elas soam por você.

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