OPINIÃO

Todos ainda querem ser Mujica

Por Moises Mendes / Publicado em 30 de abril de 2024

Todos ainda querem ser Mujica

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

José Mujica está doente. Informou esses dias que tem um câncer no esôfago e, que se for o caso, estará pronto para ir embora. Tem 88 anos e acredita já ter feito o que pretendia fazer na vida.

E fez mesmo. A vida é bela, mas se desgasta, disse o uruguaio. Mujica é o mais suave ex-guerrilheiro latino-americano. O mais lírico, o mais literário e poético dos combatentes que gastaram o que tinham de vida enfrentando ditaduras.

Quando o vi, na única vez em que estive diante dele, em 30 de julho de 2010, tive o espanto que outros jornalistas tiveram. Mujica havia sido empossado quatro meses antes na presidência do Uruguai.

Veio ao Brasil para um encontro com  Lula na Praça Internacional de Livramento-Rivera. O povo foi recebê-los. Depois, almoçaram e assinaram acordos num quartel, o 7° Regimento de Cavalaria Mecanizado.

Concederam uma coletiva formal, Lula foi embora e Mujica ficou no pátio conversando com os jornalistas. Havia uma corda que o separava da imprensa.

Mas a todo momento ele parecia incomodado com aquela separação. E foi ali, no pátio do quartel, que conheci Mujica e me surpreendi com o que ouvia. Por que o espanto?

Porque esperava um sujeito duro, seco, um homem brutalizado por 13 anos de cárcere. Mujica era leve. Falou da unidade latino-americana, da democracia, de Lula, do Uruguai, do povo.

A Editora Diadorim publicou um livro com minhas crônicas em que o título foi tirado de um texto que escrevi sobre esse encontro de 2010. Todos querem ser Mujica.

Todos da esquerda queriam ser Lula ou Mujica. Lula sairia do governo meio ano depois daquele encontro, com alto índice de aprovação. Dilma seria eleita naquele 2010.

Mujica passaria a ser respeitado e adorado no Uruguai e em toda a região, assumindo o segundo governo da Frente Ampla, depois de Tabaré Vázquez.

Evo Morales iniciava seu segundo governo na Bolívia. Rafael Correa governava o Equador. Michelle Bachelet encerrava seu governo no Chile.

Cristina Kirchner estava no segundo mandato na Argentina. Fernando Lugo presidia o Paraguai, Hugo Chávez governava a Venezuela. A direita tinha o controle apenas da Colômbia e do Peru.

Aquele encontro em Livramento não tinha o que ser noticiado. Os repórteres não conseguiam ver relevância nos acordos. Tínhamos a não-notícia.

Porque a notícia mesmo, percebida depois, era essa: Lula havia chamado Mujica à fronteira para dizer que estava com ele no início do seu governo de cinco anos. E que o PT e a esquerda continuariam no poder com Dilma, a partir de 2011.

Lula tinha certeza da eleição de Dilma. A América do Sul era feliz. Mas o final da primeira década do século 21 mudou quase tudo.

Deve ser por isso que Lula disse ao presidente da Colômbia, Gustavo Petro, que nunca sentiu os vizinhos tão separados como agora. Lula é o único daquela época hoje no poder.

Lula e Dilma são sobreviventes de golpes, perseguições e lavajatismos em toda a região, onde o fascismo prospera com uma força antes inimaginável. Mujica é a melhor testemunha dessa sobrevivência, o maior de todos eles.

A vida é bela, mas se desgasta. Vamos tentar resistir juntos de novo. Viva mais um pouco, José Alberto Mujica Cordano.

Moisés Mendes é jornalista e escreve quinzenalmente para o Extra Classe

 

 

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