Justiça Eleitoral impede debate na Ufrgs

Aula pública Contra o Fascismo. Pela Democracia, com Boulos e Tarso Genro, foi vetada na universidade a pedido de deputados de direita
Boulos: "as instituições do judiciário que estimulam e fazem parte dessa onda autoritária podem ser vítimas dela"

Boulos: “as instituições do judiciário que estimulam e fazem parte dessa onda autoritária podem ser vítimas dela”

Foto: MTST/ Divulgação

O evento público Contra o Fascismo. Pela Democracia, organizado pela executiva nacional do PSol que estava programado para a próxima quinta-feira, às 18h, na Ufrgs, será realizado em outro local, o Brooklyn, no vão do viaduto Imperatriz Leopoldina, na Av. João Pessoa, na mesma data e horário. Participam o coordenador do MTST, Guilherme Boulos, que concorreu à presidência da República pelo PSol, o ex-governador Tarso Genro (PT), a deputada federal eleita Fernanda Melchionna (PSol) e a deputada federal Maria do Rosário (PT).

O debate organizado pelas redes sociais na Ufrgs teve a sua realização nas dependências da Ufrgs impedida pela Justiça Eleitoral. Em decisão anunciada na noite de terça-feira, o juiz auxiliar Rômulo Pizzolatti, do TER-RS acatou pedido dos deputados federais Jerônimo Goergen (PP) e Marcel van Hattem (recém eleito pelo Novo). Eles alegavam uso de estrutura pública “por grupos” para “propagandear seus candidatos e fazer apologia a não votar em outros”. Para convencer o juiz de que a intenção do debate seria “fazer propaganda eleitoral negativa em face de Jair Bolsonaro”, Goergen e van Hattem usaram uma postagem da deputada do PSol, Fernanda Melchionna, que mencionava “conversa pública diante da situação alarmante que Bolsonaro representa para o futuro próximo do Brasil”.

Para justificar sua decisão, o juiz citou o inciso I do artigo 73 da Lei das Eleições, que veda a cessão ou uso “em benefício de candidato, partido político ou coligação, bens móveis ou imóveis pertencentes à administração direta ou indireta da União, dos Estados, do Distrito Federal, dos Territórios e dos Municípios, ressalvada a realização de convenção partidária”. Pizzolatti alega que “se trata de evento político-eleitoral, seja a favor do candidato Fernando Haddad, seja contra o candidato Jair Bolsonaro”.

No dia 17, TRE determinou retirada de faixa da Casa do Estudante, em Porto Alegre

No dia 17, TRE determinou retirada de faixa da Casa do Estudante, em Porto Alegre

Foto: CEU/ Divulgação

Curiosamente, já que a proposta do debate é alertar sobre a escalada de violência e do fascismo representados pela candidatura Bolsonaro, o magistrado justifica sua decisão em favor de parlamentares de direita alegando que o evento “terá apenas a participação, no uso da palavra, de apoiadores do candidato do PT à Presidência, Fernando Haddad”. Pizzolatti alegou ainda que a data corresponde “justamente no último dia para propaganda política mediante reuniões públicas”, mas ressalvou que o debate poderia ocorrer em outro local que não a universidade. No dia 17 de outubro, o Ministério Público Eleitoral do Rio Grande do Sul (MPE) orientou a Unisinos a não permitir a realização do evento organizado por um grupo de alunos, intitulado Estudantes da Unisinos pela Democracia, sob o mesmo argumento de infração à legislação eleitoral. A denúncia que levou à polêmica decisão do promotor Thomás Colletto, no entanto, partiu de Dirceu Quadros, que foi candidato a deputado estadual pelo Partido Novo. Em outra decisão, a Justiça Eleitoral determinou a retirada de uma faixa com a frase “CEU contra o fascismo” da fachada da Casa do Estudante Universitário da Ufrgs (CEU), no centro de Porto Alegre.

CENSURA – Para Boulos, o comportamento do TER-RS foi abusivo. “É um debate para denunciar a escalada autoritária no nosso país e fazer a defesa da democracia, um evento próprio para a acontecer numa universidade pública que tem que debater as grandes questões do país”, protestou. Ele se disse surpreso com a decisão. “O judiciário vem pra cancelar o debate, alegando que feria a legislação eleitoral, o que é uma interpretação falaciosa, porque só poderia se configurar como atividade eleitoral se houvesse a presença de candidatos. Não há presença de candidatos. O Fernando Haddad não estará presente”, argumentou. O líder do MTST também contextualizou a decisão em um cenário de ataques ao judiciário pela candidatura e apoiadores do candidato do PSL. “É um disparate, é mais um sinal de como está se comportando o judiciário brasileiro nas eleições como parte dessa escalada autoritária. Já dissemos em outra ocasião, quando da declaração do filho do Jair Bolsonaro de que poderia fechar o Supremo com um soldado e um cabo, que as instituições do judiciário que estimulam e fazem parte dessa onda autoritária podem ser vítimas dela, o velho ditado espanhol: cria cuervos que te arrancarán los hojos. Mas não vão nos impedir. O debate está confirmado no Brooklyn”.

"O judiciário extrapola ao defender a impossibilidade de crítica a um projeto fascista", protesta Tarso

“O judiciário extrapola ao defender a impossibilidade de crítica a um projeto fascista”, protesta Tarso

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Para o ex-governador Tarso Genro, a decisão da Justiça Eleitoral soa como uma admissão de que o fascismo está no ar. “Ao vedar minha participação e a dos colegas numa aula pública, a Justiça Eleitoral reconhece que existe um candidato que é fascista. É uma decisão que extravasa os poderes de fiscalização do judiciário e revela uma nova face de intervenção do judiciário, que defende a impossibilidade de crítica a um projeto fascista”. Numa rede social, Tarso qualificou o veto como censura. “Dei aulas, proferi conferências em universidades da França, Inglaterra, Portugal, Espanha, Alemanha, Argentina e aqui, mesmo na ditadura. Respeitei sempre os protocolos legais dessas casas de ensino. Hoje, censurado para falar na Ufrgs, no RS que governei. Fascismo cresce”, alertou.

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