POLÍTICA

Lava Jato no Le Monde e o silêncio dos culpados

Reportagem no jornal francês sobre a influência dos EUA na operação resultou em cobranças à grande empresas de jornalismo, que ignoraram evidências da submissão da Lava Jato a interesses estrangeiros
Por Marcelo Menna Barreto / Publicado em 12 de abril de 2021
O juiz federal Sérgio Moro com Deltan Dallangnol nos bastidores da palestra que participou em agosto de 2016, intitulada Democracia, Corrupção e Justiça: diálogos para um país melhor, no Centro Universitário de Brasília (UniCEUB)

Foto: José Cruz/Agência Brasil

O juiz federal Sérgio Moro com Deltan Dallangnol nos bastidores da palestra que participou em agosto de 2016, intitulada Democracia, Corrupção e Justiça: diálogos para um país melhor, no Centro Universitário de Brasília (UniCEUB)

Foto: José Cruz/Agência Brasil

O objetivo central da Lava Jato não foi colocar em xeque a corrupção no maior país e na América Latina, mas acabar com a ameaça representada pelo crescimento de empresas brasileiras, que estavam colocando interesses dos Estados Unidos em risco. A conclusão do jornal Le Monde repercutiu forte nas redes sociais no fim de semana que passou. A matéria que ocupou três páginas do diário francês – um dos mais importantes e respeitados periódicos do mundo – parece que vai esquentar uma importante discussão nacional: o papel da grande imprensa brasileira sobre o episódio, que custou o impeachment de Dilma Rousseff e a prisão do franco favorito à presidência da República em 2018, Luis Inácio Lula da Silva.

“Dessa vez não é a mídia independente, é o Le Monde escancarando pro mundo as orquestrações dos Estados Unidos com a Lava Jato pra tirar o PT do poder e evitar o crescimento geopolítico do país. Sergio Moro e procuradores desmascarados. Traidores nacionais!”, afirmou em seu Twitter o mestre e doutor em Direito Constitucional Marcelo Uchôa.

O silêncio dos grandes veículos

Professor de Direito Internacional Público na Universidade de Fortaleza (Unifor), Uchôa sintetizou um sentimento. O total falta de comprometimento da imprensa nacional com a questão, que é considerada por muitos um dos principais motivos de colocar o Brasil em uma das piores situações de sua história.

De fato, com exceção do Grupo Folha (Folha de São Paulo e UOL) praticamente nada ecoou na dita grande imprensa nacional.

Para o advogado mineiro José Carlos Muniz, coordenador do Movimento Advogue pela Democracia, as revelações do Le Monde deveriam ser manchete nacional. “A matéria expõe telegramas que comprovam o envolvimento com interesses geopolíticos”, afirma ao sentenciar: “o golpe foi contra o Brasil!”.

Marcelo Backes, mestre em literatura brasileira pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e Doutor em Germanística e Romanística pela Universidade de Friburgo, Alemanha, já optou pela ironia. “E a imprensa brasileira? Foi um dos instrumentos da manipulação? Por que não investiga? Depois perde a credibilidade…”, declarou.

Para Backes que foi o primeiro brasileiro a receber o Prêmio Nacional da Austria pelo conjunto de sua obra traduzida, foi necessário o Le Monde apontar o escândalo protagonizado por Moro e Dallagnol e mostrar como os Estados Unidos tiraram proveito da Lava Jato.

Equipe da Lava Jato, segundo Le Monde, estaria a serviço de interesses econômicos de empresas norte-americanas e da influência geopolítica dos EUA no Brasil

Foto: MPF/Divulgação/Reprodução

Equipe da Lava Jato, segundo Le Monde, estaria a serviço de interesses econômicos de empresas norte-americanas e atuando a favor do projeto geopolítico dos EUA no Brasil

Foto: MPF/Divulgação/Reprodução

Globo

O grupo Globo foi o mais questionado nas postagens. João Avanci, autodeclarado filiado ao PT desde a “injusta prisão de Lula”, cravou: “Enquanto o Le Monde publica algo que já sabemos há tempos, a Rede Goebbels de Manipulação, partícipe de todos os golpes praticados contra a população do seu próprio país, finge não saber de nada. Daqui a uns 50 anos, quando estivermos quase todos mortos, pedirá perdão”, referindo-se ao tardio reconhecimento das organizações Globo que afirmou em 2013 ter errado ao apoiar a ditadura instalada no Brasil em 1964.

Já o jornalista e professor Ricardo Pereira, jornalista e professor optou pelo didatismo e deu uma aula de comunicação comparada.

“Quando o Le Monde faz uma matéria expondo toda a farsa da Lava Jato e a Globo dá cinco minutos pro Sergio Moro se defender no jornal nacional, fica nítida a diferença entre jornalismo e golpismo”, disse Pereira ao lembra que semanas antes da publicação do jornal francês o Jornal Nacional abriu espaço para o ex-juiz opinar sobre o julgamento da segunda turma do Supremo Tribunal Federal (STF) que o declarou suspeito ao julgar o ex-presidente Lula.

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