POLÍTICA

Governo queria mudar bula da cloroquina por decreto, confirma dirigente da Anvisa

Barra Torres relatou reunião no Ministério da Saúde em que a médica Nise Yamaguchi estava “mobilizada” para alterar indicações do medicamento
Por Marcelo Menna Barreto / Publicado em 11 de maio de 2021
Barra Torres: “Só quem pode modificar a bula é a Agência, desde que requisitado pelo desenvolvedor do medicamento. Não tem cabimento”

Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

Barra Torres: “Só quem pode modificar a bula é a Agência, desde que requisitado pelo desenvolvedor do medicamento. Não tem cabimento”

Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

O diretor-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antônio Barra Torres, confirmou nesta terça-feira, 11, em depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19, que realmente houve tentativa de alteração da bula da hidroxicloroquina para ampliar o uso do medicamento no tratamento da enfermidade, conforme afirmou à CPI, no dia 4, o ex-ministro da Saúde, Henrique Mandetta.

Barra Torres ainda disse ter se arrependido de participar em uma atividade junto do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) que provocou aglomeração. “Se eu tivesse pensado cinco minutos, não teria feito”, lamentou.

Barra Torres foi mais longe. “Destarte a amizade que tenho pelo presidente, a conduta do presidente difere da minha neste sentido. As manifestações que faço têm sido no sentido do que a ciência determina”, disse ele ao ser perguntado pelo relator da Comissão, senador Renan Calheiros (MDB-AL) sobre a postura do mandatário.

O diretor-presidente da Anvisa, apesar do grupo governista buscar atenuar a questão da hidroxicloroquina, relatou que o assunto ainda divide a comunidade científica. E afirmou: “Minha posição não contempla essa medicação”.

Bula por decreto

“Minha posição não contempla essa medicação”, frisou o dirigente

Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

“Minha posição não contempla essa medicação”, frisou o dirigente

Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

Ainda respondendo ao relator, Barra Torres confirmou que houve uma reunião no âmbito da Anvisa na qual surgiu uma hipótese de se modificar a bula da hidroxicloroquina. Participaram Mandetta, o então ministro da Casa Civil, general Braga Neto, e a médica Nise Yamaguchi, que chegou a fazer parte de uma lista de apostas para assumir o ministério após a demissão do primeiro ministro da Saúde de Bolsonaro.

“Esse documento foi comentado pela doutora Nise Yamaguchi, o que provocou uma reação deselegante minha”, informou Torres. “Só quem pode modificar a bula é a Agência, desde que requisitado pelo desenvolvedor do medicamento. Não tem cabimento”.

Segundo o dirigente, Mandetta se retirou da reunião. Barra Torres disse não saber de quem foi a autoria da minuta do decreto, mas que Nise parecia estar “mobilizada”. 

Máscaras inadequadas

Sessão foi marcada por intervenções da tropa de choque de Bolsonaro no Senado

Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

Sessão foi marcada por intervenções da tropa de choque de Bolsonaro no Senado

Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

O presidente da Anvisa também confirmou que a agência alertou o Ministério da Saúde para que não distribuísse para profissionais de saúde alguns tipos de máscara, entre elas KN95, que não são apropriadas para uso hospitalar.

“A Anvisa alertou o Ministério da Saúde quanto à existência de máscaras objeto de importação pela pasta cujo uso, como o respirador N95, estava interditado”, disse.

Barra Torres afirmou que a Agência recomendou a máscara para o uso não profissional, em vez de promover o descarte. Ele mencionou a troca de ofícios entre a Anvisa e o ministério, na qual foi sempre informada a não adequação para uso profissional da máscara.

Barra Torres foi ouvido na CPI por mais de seis horas. Outros assuntos também foram destacados nas discussões. Em especial, os procedimentos da Anvisa que culminaram com a ainda não aprovação de uso da vacina russa Sputnik no Brasil. Isso é uma preocupação especial de parlamentares do Nordeste, cujos governadores em consórcio buscam a vacina para a imunização de suas populações.

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