POLÍTICA

Não há nações superiores

O Ocidente pode estar prestes a perder, além da liderança econômica, o papel de guardião da democracia e do liberalismo, diz Fiori
Da Redação / Publicado em 5 de março de 2022

Putin e Xi Jinpin emitiram uma carta de princípios às nações

Foto: Sputnik/Aleksey Druzhinin/Kremlin/Divulgação

Foto: Sputnik/Aleksey Druzhinin/Kremlin/Divulgação

 

De acordo com o cientista político e pesquisador José Luis Fiori (UFRJ), em artigo publicado no Extra Classe, o ultimato russo à OTAN e o documento Xi Jinpin-Putin indicam que o Ocidente está prestes a perder, além da liderança econômica, o papel de guardião da democracia e da própria ordem liberal. Pequim e Moscou desafiam: “Não há nações superiores”.

Ele explica que dois acontecimentos sacudiram o cenário mundial neste início de 2022. O primeiro foi o ultimato russo, lançado em meados de dezembro de 2021 e dirigido aos EUA, à OTAN e aos países-membros da União Europeia, exigindo o recuo imediato da OTAN na Ucrânia, e propondo uma revisão completa do “mapa militar” da Europa Central, definido pelos Estados Unidos e seus aliados da Aliança Atlântica após a vitória na Guerra Fria. O segundo foi a “declaração conjunta” da Federação Russa e da República da China, no dia 7 de fevereiro deste ano, propondo uma “refundação” da ordem mundial estabelecida depois da Segunda Guerra Mundial e aprofundada após a vitória dos EUA e de seus aliados na Guerra do Golfo, em 1991.

No caso do “ultimato russo”, conforme Fiori, a questão imediata que está em jogo é a incorporação da Ucrânia pela OTAN, mas o verdadeiro problema de fundo é a exigência russa de revisão das “perdas” que lhe foram impostas após a dissolução da União Soviética. Depois de 1991, a Rússia perdeu 5 milhões de quilômetros quadrados e 140 milhões de habitantes, mas agora se propõe a reduzir essas perdas expandindo sua influência no seu entorno estratégico e afastando a ameaça ao seu território, por parte da OTAN e dos Estados Unidos. Esse ultimatum era perfeitamente previsível e veio sendo anunciado há muito tempo, pelo menos desde a “Guerra da Geórgia”, em 2008.

“Nas discussões, evidenciaram-se a divisão entre as potências ocidentais e a falta de iniciativa e liderança da parte do governo norte-americano, que se restringiu a repetir a mesma ameaça de sempre, de que imporia novas sanções econômicas aos russos caso ocorresse a invasão, que foi reiteradamente negada pelos próprios russos, enquanto a iniciativa diplomática passava quase inteiramente para as mãos dos europeus”, escreveu o pesquisador poucos dias antes de estourar o conflito. (Leia o artigo completo no Extraclasse.org.br)

Reivindicações de Rússia e China

No caso do documento apresentado à “comunidade internacional” pela Rússia e pela China, no último dia 7 de fevereiro, as reivindicações específicas e locais dos dois países são bem conhecidas e não têm maior importância neste contexto. É o que avalia Fiori.

A importância do documento vai muito além disso, porque se trata, de fato, de uma verdadeira “carta de princípios” proposta à apreciação de todos os povos do mundo, contendo algumas ideias e conceitos fundamentais para uma “refundação” do sistema internacional criado pelos europeus há quatro séculos.

É um documento que requer leitura atenta e uma reflexão séria, sobretudo neste momento de desestruturação do “bloco ocidental” e de divisão e fragilização interna dos próprios Estados Unidos.

Soberania, ambiente, direitos humanos e democracia

O que chama atenção nesse documento é sua defesa de alguns valores muito caros ao “sistema de Westfália”, como a defesa intransigente da soberania nacional, e do direito de cada povo decidir seu próprio destino, desde que respeitado o mesmo direito de todos os demais povos.

Também defende algumas das ideias do “liberal-internacionalismo” contemporâneo, como é o exemplo da sua defesa de uma ordem internacional baseada em leis, do seu entusiasmo pela globalização econômica e pelo multilateralismo, por sua defesa da “causa climática” e do desenvolvimento sustentável, e seu apoio irrestrito à cooperação internacional no campo da saúde, da infraestrutura, do desenvolvimento científico e tecnológico, do uso pacífico do espaço e do combate ao terrorismo.

A Fiori, surpreende a originalidade do documento por fazer uma defesa universal e irrestrita de valores como a liberdade, a igualdade, a justiça, os direitos humanos e a democracia.

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