SAÚDE

Pesquisador aponta os erros que resultaram em 100 mil mortes

Para Pedro Hallal, à frente da maior pesquisa sobre coronavírus no Brasil, pouca testagem e flexibilizações promovidas pelos governos federal, estaduais e municipais são os vilões
Por Flavio Ilha / Publicado em 6 de agosto de 2020
“Tivéssemos tratado o coronavírus com seriedade, não teríamos 100 mil mortes”, diz Pedro Hallal, reitor da Ufpel, e coordenador na maior pesquisa de mapeamento da pandemia no Brasil

Foto: AssCom/Ufpel

“Tivéssemos tratado o coronavírus com seriedade, não teríamos 100 mil mortes”, diz Pedro Hallal, reitor da Ufpel e coordenador na maior pesquisa de mapeamento da pandemia no Brasil

Foto: AssCom/Ufpel

À frente da maior pesquisa de mapeamento do coronavírus no Brasil, a Epicovid-19 BR, que testou e entrevistou 89.397 pessoas em 133 cidades de todos os estados do país em suas três fases, o reitor da Universidade Federal de Pelotas (Ufpel), Pedro Curi Hallal, é taxativo: se houvesse uma política pública de testagem massiva da população, com a devida identificação de contaminados e isolamento para barrar a transmissão, o saldo da Covid-19 certamente estaria longe das 100 mil mortes registradas esta semana desde o primeiro óbito causado pela doença, no dia 12 de março.

Doutor em epidemiologia pela própria universidade que dirige, Hallal deu dezenas de entrevistas nos últimos meses alertando sobre os riscos de se tratar a pandemia e o distanciamento social sem a devida seriedade que o tema merecia. Não adiantou. O saldo de 3 milhões de contaminados e 100 mil mortos alcançados na primeira semana de agosto é só a parte mais visível de um problema mais amplo: a desigualdade social, que fez a doença contaminar e matar mais pobres do que ricos, e a negação da pandemia, que transformou o distanciamento em disputa ideológica.

“As pautas da cloroquina e do lockdown são exemplos de que, antes das evidências científicas, o que moveu a convicção e a crença das pessoas foi a opinião do time para o qual votaram na última eleição. E isso é péssimo para o país”, destaca o reitor. Ciência, aliás, que deu importantes pistas de como o vírus se comporta, apesar da descrença quase geral no seu poder letal. Para se ter uma ideia, entre a primeira e a terceira fases da Epicovid-19 BR no Rio Grande do Sul, entre abril e julho, o número médio de pessoas infectadas cresceu 20 vezes no Estado.

A coordenação do Epicovid19-BR, anunciou na manhã desta quinta-feira, 6, a realização de nova etapa de entrevistas e testes rápidos entre os dias 20 e 23 de agosto em 133 cidades distribuídas entre todos os estados brasileiros. A continuidade do estudo, que teve três fases anteriores financiadas pelo Ministério da Saúde, tornou-se possível por meio de investimento do programa Todos pela Saúde, fundo criado pelo Itaú Unibanco para apoiar o enfrentamento da covid-19 no Brasil em diversas frentes, entre elas, o suporte a iniciativas de pesquisa científica.

Confiante num vacina já no primeiro semestre de 2021, Hallal lamenta o fracasso do país no combate à pandemia. “Nossa primeira recomendação sempre foi de que não deveria haver flexibilização enquanto a curva de novos casos não fosse descendente. Ponto. Essa é uma evidência nítida na literatura disponível até agora sobre o tema. Só que não nos ouviram”, disse nesta entrevista exclusiva ao Extra Classe.

Extra Classe – Quais as lições que devemos tirar desse saldo, trágico, de 100 mil mortos devido à Covid-19 no Brasil?
Pedro Hallal – Significa o nosso fracasso absoluto no combate à pandemia. Tivéssemos adotado uma política de testagem massiva, para detecção precoce e redução da transmissão, não teríamos chegado a esse número tão elevado. Tivéssemos respeitado a opinião dos especialistas, e não flexibilizado as medidas de distanciamento com as curvas ainda ascendentes, não teríamos chegado a esse número tão elevado. Tivéssemos tratado o coronavírus com a devida seriedade, desde o início, não teríamos chegado a essas 100 mil mortes.

EC – No caso da pesquisa Epicovid-19 BR, realizada desde abril pela Ufpel, os resultados obtidos embasaram muitas políticas públicas de combate à pandemia. Mesmo assim, não foi suficiente para que o financiamento por parte do Ministério da Saúde fosse renovado. O que aconteceu?
Hallal – Não sabemos. Na época, 21 de julho, divulgamos uma nota com o posicionamento oficial da universidade sobre o tema. Ficamos sabendo pela mídia da falta de intenção do Ministério da Saúde em continuar financiando a pesquisa, mas que em vez de lamentar a decisão estamos em tratativas avançadas para garantir a continuidade da Epicovid-19 BR. A pesquisa não vai parar. Nós cobramos do Ministério da Saúde, desde o início da pandemia, uma política de testagem em massa da população. Mas isso nunca aconteceu. O número de testes até aumentou um pouco ao longo da pandemia, mas esse aumento foi desordenado, sem um protocolo simples do que fazer em casos positivos. Aí ajuda muito pouco.

EC – Recentemente os jogos do campeonato gaúcho de futebol foram retomados, apesar de sua indicação de que isso fosse recomendável somente no final de agosto. A pressão do mercado surtiu mais efeito entre a população, nesse e em outros casos de flexibilização?
Hallal –Nossa primeira recomendação sempre foi de que não deveria haver flexibilização enquanto a curva de novos casos não fosse descendente. Ponto. Essa é uma evidência nítida na literatura disponível até agora sobre o tema. O modelo de distanciamento controlado até pode ser uma boa ideia, é bem pensado sim, mas para depois da curva ascendente. Só que não nos ouviram. Esses jogos que estão acontecendo agora, sem sedes definidas, sem interesse do público, e especialmente sem condições mínimas de igualdade e segurança entre os clubes, sinceramente não ajudam em nada. Infelizmente, nesse caso e em outros casos prevaleceu a pressão econômica ao invés da voz da ciência e da saúde pública nas decisões sanitárias de combate à pandemia.

EC – Numa entrevista recente à rádio Guaíba, o senhor mencionou a politização do modelo de distanciamento como causa de seu desgaste entre a população. Mas como convencer as pessoas a ficarem em casa durante mais de três meses tendo elas de trabalhar, estudar? Nesse caso, não se está exigindo demais principalmente da população mais pobre – que é a mais atingida pela pandemia?
Hallal –A palavra-chave é desigualdade. A contaminação, pelos dados apurados na pesquisa Epicovid-19 BR, tem uma taxa duas vezes maior entre os mais pobres do que entre os mais ricos. Isso que estamos falando de uma doença que chegou ao Brasil pela área internacional dos aeroportos, ou seja, justamente com os mais ricos. Mas se proliferou com mais velocidade e risco entre os pobres. Obviamente que essa população, mais vulnerável e menos capaz de levar adiante uma política de isolamento, é a mais atingida pela pandemia, especialmente pelo fracasso do Estado brasileiro em garantir a essas pessoas a possibilidade de ficarem em casa e se protegerem da contaminação. O auxílio emergencial, aprovado depois de muita negociação, é muito baixo para as necessidades dessa população. Além do mais, é burocrático e sujeito a todo tipo de fraudes. Mas colocar as pessoas mais vulneráveis na obrigação de saírem de casa para buscar o sustento de suas famílias é a comprovação do fracasso do Estado brasileiro em proteger a sua população.

No Brasil, entretanto, o que apavora é a radicalização dos discursos e o muro gigante que foi construído entre aqueles que pensam diferente de nós. As pautas da cloroquina e do lockdown são exemplos de que, antes das evidências científicas, o que moveu a convicção e a crença das pessoas foi a opinião do “time” para o qual votaram na última eleição. E isso é péssimo para o país.

Pesquisador aponta os erros que resultaram em 100 mil mortes

Foto: Ingrid Anne/Fotos Públicas

Acredito que teremos uma vacina no primeiro semestre do ano que vem. Obviamente, a imunização deve começar com os grupos de risco e com as populações mais vulneráveis

Foto: Ingrid Anne/Fotos Públicas

EC – É possível combater a pandemia sem “politizá-la”, pelo menos em se tratando de Brasil?
Hallal –Todos os temas são políticos, mas isso não é um problema necessariamente. No Brasil, entretanto, o que apavora é a radicalização dos discursos e o muro gigante que foi construído entre aqueles que pensam diferente de nós. As pautas da cloroquina e do lockdown são exemplos de que, antes das evidências científicas, o que moveu a convicção e a crença das pessoas foi a opinião do “time” para o qual votaram na última eleição. E isso é péssimo para o país. Vou dar um exemplo: essa história de que a maioria dos contaminados não apresenta nenhum sintoma está errada. Pelo nosso estudo, apenas 9% da população que têm o vírus não tiveram sintoma algum da doença. E perto de dois terços tiveram perda de olfato e de paladar, que é um sintoma muito característico da Covid-19. Ou seja, esse dado científico poderia ter servido para a Vigilância Sanitária selecionar pessoas que potencialmente poderiam ser testadas positivamente. Ter essa informação e isolar essas pessoas para evitar novas contaminações teria sido essencial. Infelizmente, houve um erro na compreensão dessa doença que não foi corrigido a tempo de evitar tantas mortes.

EC – Uma (ou mais) vacina parece estar próxima. O que fazer quando ela for liberada? Quem imunizar primeiro? Como será, na sua opinião, a demanda da sociedade por essa imunização?
EC – Hallal – Acredito que teremos uma vacina no primeiro semestre do ano que vem. Obviamente, a imunização deve começar com os grupos de risco e com as populações mais vulneráveis. Mas não podemos subestimar, de forma alguma, o desafio logístico que será entregar a vacina a toda a população brasileira. Essa empreitada precisa começar a ser organizada desde já porque a vacina virá em breve. Mas não vejo movimento nesse sentido.

EC – A educação pública é um dos principais alvos estratégicos do atual governo brasileiro. Como manter em atividade as premissas de ensino, pesquisa e extensão que norteiam as universidades sofrendo ataques constantes, justamente de quem deveria zelar por essas ações?
Hallal –
Essa é uma pergunta interessante, pois realmente o ministério da Educação se transformou no principal adversário da educação brasileira durante a gestão do ex-ministro Abraham Weintraub. Felizmente o sistema universitário brasileiro construiu uma base sólida, ao longo das últimas décadas, de forma que conseguimos resistir à maioria dos ataques que nos foram impostos. No entanto, para voltarmos a crescer, é fundamental que a população brasileira reconheça o trabalho desenvolvido nas universidades e se junte a nós na garantia de uma educação pública, gratuita, de qualidade e socialmente referenciada no Brasil.

EC – Grande parte da pesquisa brasileira é resultado do trabalho das instituições públicas. Como salvar a atividade dessa conjuntura de crise aguda, onde as pressões financeiras afetam primeiro as entidades politicamente mais vulneráveis?
Hallal – O debate sobre tamanho do Estado é um dos mais importantes para o futuro do país, mas infelizmente aqui ele acaba sempre secundarizado no meio de discussões mais polêmicas e menos produtivas. O investimento em um Estado que garanta educação e saúde para toda a população deveria ser uma das prioridades do Brasil. E nesse caso, a pesquisa entra no eixo educação, ou seja, deve ter financiamento público, como ocorre na maioria dos países. Claro que isso não impede que a iniciativa privada também atue em parceria com as universidades em determinados projetos colaborativos, desde que as regras estejam bem definidas. O que não podemos acreditar é na falaciosa ideia de que o setor produtivo deve se responsabilizar majoritariamente pelo financiamento da pesquisa no país.

EC – O que é mais importante para a pesquisa brasileira: dinheiro ou apoio político?
Hallal – Sinceramente, ambos são essenciais. Até porque estão interligados. A palavra valorização é o elo entre eles. Se a pesquisa é valorizada, ela acabará sendo financiada e terá apoio político. No Brasil, a questão do financiamento da ciência e da tecnologia é primordial. Há um histórico de redução nos investimentos que não pode continuar, sob o risco de prejudicar todos os avanços que a ciência brasileira teve nos últimos anos, tanto em termos de quantidade de produção quanto em termos de qualidade da produção científica.

Poderíamos sair dessa com muito menos mortes do que tivemos, especialmente se tivéssemos adotado políticas de testagem em massa, rastreamento de contatos e distanciamento social mais rígido

"Para se ter uma ideia, entre a primeira e a terceira fases da Epicovid-19 BR no Rio Grande do Sul, entre abril e julho, o número médio de pessoas infectadas cresceu 20 vezes no Estado", segundo Hallal

Foto: AssCom/Ufpel

“Para se ter uma ideia, entre a primeira e a terceira fases da Epicovid-19 BR no Rio Grande do Sul, entre abril e julho, o número médio de pessoas infectadas cresceu 20 vezes no Estado”, expõe Hallal

Foto: AssCom/Ufpel

EC – Na condição de cientista, como o senhor se sente sabendo que há centenas, milhares de notícias falsas negando a pandemia, atribuindo-a a um interesse comercial chinês e, inclusive, dizendo que a vacina, se for chinesa, servirá apenas para matar pessoas de bem? Como fazer as pessoas deixarem de acreditar em notícias falsas, muitas vezes inverossímeis e mal feitas, para acreditarem na ciência?
Hallal – Eu penso que a ciência sairá muito fortalecida dessa pandemia. Mesmo com a contínua redução dos investimentos no Brasil, na hora que a população mais precisou da ciência ela mostrou que está apta a dar as respostas necessárias. O combate à desinformação, agora materializada pelas fake news, deve ser contínuo, incansável. Nesse item, o papel da mídia deve ser valorizado. A rápida disseminação de informações via redes sociais e novas tecnologias não deve somente ser aproveitada pelos mal intencionados, mas também pelos cientistas e pela mídia comprometida com a verdade e com a ética.

EC – Na sua avaliação, como sairemos dessa? E para onde vamos?
Hallal – Sairemos dessa com a vacina, já no ano que vem. Tivéssemos ouvido os pesquisadores, poderíamos sair dessa com muito menos mortes do que tivemos, especialmente se tivéssemos adotado políticas de testagem em massa, rastreamento de contatos e distanciamento social mais rígido. É uma pena que tantos brasileiros e brasileiras tenham perdido a vida, e a eles e a elas fica aqui a minha homenagem.

EC – O senhor está no seu primeiro mandato como reitor e, portanto, poderia se candidatar a um segundo período. Mas já anunciou que não o fará. Por quê? O que pretende fazer quando sair?
Hallal –
Decidi não concorrer a um novo mandato, apesar da aprovação da gestão por mais de 90% da comunidade universitária, porque a política não deve ser, na minha opinião, personalista. Ela deve ser baseada em programas, que podem ser executados por qualquer pessoa que faça parte do coletivo que o construiu. Da minha parte, voltarei à sala de aula e aos laboratórios de pesquisa. E serei muito feliz ao fazer isso.

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