SAÚDE

Contágio por subvariantes da ômicron já caracteriza nova onda de covid-19

O virologista da Feevale, Fernando Spilki, avalia o crescimento do contágio por subvariantes da ômicron que já se caracteriza como uma nova onda de covid-19 no país
Por Gilson Camargo / Publicado em 17 de novembro de 2022

Foto: Caroline Souza/ Universidade Feevale

“Em 2020 e 2021 tivemos ondas de final de ano. Não há porque imaginarmos que esse ano vai ser diferente. É muita gente que está desprotegida”, alerta Spilki, ao avaliar o impacto das subvariantes da ômicron

Foto: Caroline Souza/ Universidade Feevale

Desde o início do mês de novembro, o país vem registrando um aumento de contágios por covid-19 causados pelas subvariantes da ômicron, a BQ.1 e a XBB, mutações do vírus Sars-coV-2 que ao longo do ano vinham provocando o ressurgimento de casos na Alemanha e em outros locais da Europa e também na China e nos Estados Unidos.

Nos primeiros dias de novembro houve contágios pela subvariante BQ.1 no município do Rio de Janeiro e em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. No dia 11, o Brasil registrou 21,9 mil novos diagnósticos da infecção, o maior indicador desde agosto.

No Amazonas, o grupo de trabalho da Rede Genômica da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) identificou o surgimento de uma nova variante da ômicron em outubro.

Chamada de BE.9, a mutação é uma sublinhagem da cepa BA.5, já conhecida. Tiago Gräf, pesquisador da Fiocruz, afirma que a variante é responsável pelo recente aumento de casos no estado que é referência no monitoramento da doença no Brasil.

Os casos de covid-19 no Amazonas estavam em ascensão desde a metade de outubro, saindo de uma média de 230 casos por dia para cerca de mil.

Para investigar o que poderia estar causando esse ressurgimento da covid-19 no estado, a equipe de Felipe Gomes Naveca, da Fiocruz Amazônia, sequenciou mais de 200 genomas do Sars-CoV-2 de setembro e outubro e identificou a nova variante.

O potencial de contágio das novas subvariantes e os riscos de uma nova onda de contágio, considerando que no Brasil 70 milhões de pessoas não completaram o esquema vacinal, são avaliadas nesta entrevista pelo virologista Fernando Spilki, da Universidade Feevale.

Quatro meses após a aprovação do uso emergencial da Coronavac em crianças de 3 e 4 anos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), apenas 5,5% da população brasileira nessa faixa etária receberam as duas doses da vacina.

Dados do Vacinômetro Covid-19, do Ministério da Saúde, levantados pelo Observa Infância (Fiocruz/Unifase) em 7 de novembro mostram que 938.411 crianças de 3 e 4 anos tomaram a primeira dose da vacina contra a covid-19, enquanto 323.965 tomaram as duas doses do imunizante.

No total, cerca de 5,9 milhões de crianças nessa faixa etária moram no Brasil e devem receber as duas doses da vacina.

Coordenador da Rede Corona-Ômica do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) Spilki afirma que as subvariantes de covid-19 podem ser determinantes do número de casos que no Brasil estão em alta de maneira consistente em diversos estados.

Ele acredita que o contágio tende a se multiplicar com o aumento das aglomerações de final de ano, puxado por quem não completou o esquema vacinal e diante da falta de diagnóstico e do relaxamento das medidas de proteção e distanciamento, praticamente abandonadas em todo o país.

“Em 2020 e 2021 tivemos ondas de final de ano. Não há porque imaginarmos que esse ano vai ser diferente. É muita gente que está desprotegida para enfrentar uma onda dessas e essas pessoas deveriam priorizar a vacinação nesse momento”, alerta.

Foto: Fiocruz/ Divulgação

“Quase 70 milhões de indivíduos, no Brasil, que não retornaram para receber a dose de reforço. É muita gente que está desprotegida para enfrentar uma onda dessas e essas pessoas deveriam priorizar a vacinação nesse momento”

Foto: Fiocruz/ Divulgação

Extra Classe – As novas variantes BQ.1 E BA.5 identificadas na Alemanha, China e Estados Unidos e agora no Brasil representam um refluxo da covid-19? Qual o risco de uma nova onda de contágios?
Fernando Spilki – Temos encontrado a variante BQ.1 no Brasil, mas talvez o grande tema agora seja uma outra linhagem derivada da variante BA.5 que é a variante BE.9, muito provavelmente uma recombinante entre variantes. A BE.9 é a variante que provocou um aumento do número de casos a partir do Amazonas. A taxa percentual de detecção dela frente à própria variante BA.5 e linhagens anteriores no Amazonas subiu de 25% para quase 100% em um mês como mostra o trabalho da Fiocruz. E isso talvez seja a tônica do que vamos viver a partir do momento em que uma variante como essa vai se espalhando. As sublinhagens de BA.5 e outros recombinantes importantes que ocorrem em outros estados e a própria recombinante BQ.1 podem ser determinantes para uma nova onda. Depende de como vão se cruzar e se comportar entre elas agora, mas podem ser determinantes desse número de casos que aumenta no Brasil de maneira consistente em diversos estados.

EC – Como se comporta essa nova onda em outros países e como poderá ser no Brasil? Há um padrão no número de contágios?
Spilki – Essa onda provocada por X.BB, BQ.1 e outras variantes como está ocorrendo na Ásia está provocando ondas de magnitudes diferentes. Agora mesmo acabou uma onda provocada por BQ.1 na Alemanha. Como foi essa onda? Durou ao redor de quatro a cinco semanas de elevação, um pico, um certo platô por algum tempo, e depois baixou. É mais ou menos o padrão do que a gente conhece do passado: ondas que demoram mais ou menos um mês. Agora, a magnitude dessas ondas é que tem variado bastante. Conforme o local e muito em virtude da vacinação. Mas temos que lembrar também que independente da proteção individual a gente tem um problema que são quase 70 milhões de indivíduos, no Brasil, que não retornaram para receber a dose de reforço. É muita gente que está desprotegida para enfrentar uma onda dessas e essas pessoas deveriam priorizar a vacinação nesse momento.

EC – Isso somado ao relaxamento das medidas de proteção e distanciamento pode tornar uma eventual nova onda mais grave no país?
Spilki – Quanto à gravidade é difícil prever a dinâmica ou dizer se nós vamos ter uma onda, por exemplo, com o mesmo número de casos que tivemos com a Ômicron, que chegou em dezembro de 2021, mas em janeiro e fevereiro o número de casos se torna muito impressionante. De qualquer modo, maior ou menor, deve acontecer uma onda, até porque estamos entrando naquele período de sazonalidade que já vimos nos outros anos. Em 2020 e 2021 tivemos ondas de final de ano. Não há porque imaginarmos que esse ano vai ser diferente.

EC – O que caracteriza essas variantes?
Spilki – Essas variantes BQ.1 e BE.9 trazem no seu bojo a ideia de alta transmissibilidade. Isso porque elas substituem rapidamente variantes anteriores e acabam induzindo o aumento de número de casos. Em diferentes proporções, é bem verdade, conforme o cenário que se está avaliando. A diferença básica é que elas trazem mais algumas mutações. Por exemplo, a BE.9 traz mais três mutações na proteína spike (utilizada pelo vírus para entrar nas células), além daquelas que já eram conhecidas nas linhagens parentais, ou seja, as linhagens que deram origem a ela. Isso acaba gerando um escape parcial de anticorpos que permite que mesmo indivíduos vacinados ou sem sinais clínicos evidentes possam transmitir o vírus.

EC – Provocam algum sintoma diferente daqueles já conhecidos?
Spilki – Devemos ter bastante cautela ao falar de sintomas, pois a manifestação de sintomas vai depender do estágio vacinal em que a pessoa está. Desde 2021 a gente enxerga essas variantes provocando coriza, que praticamente não se via no primeiro ano. Agora é relativamente comum, ainda mais no espectro de vacinados onde a gente espera que alguns sintomas, principalmente aqueles mais graves, não venham a ocorrer em uma pessoa completamente vacinada. O que as pessoas têm relatado é tosse, coriza, congestão nasal e um mal-estar, uma canseira muito grande. Não difere tanto do que a gente observava antes. Mas é importante estar atento a qualquer sinal de doença respiratória e buscar diagnóstico.

Foto: Caroline Souza/ Universidade Feevale

“As vacinas protegem clinicamente contra estas variantes assim como protegiam contra as variantes anteriores. O ideal é utilizar máscara no transporte público ambientes hospitalares do trabalho, das escolas, do ambiente familiar”

Foto: Caroline Souza/ Universidade Feevale

EC – O isolamento pode voltar?
Spilki – Para se manter a salvo de uma onda como essa, primeiro, se proteger clinicamente e mesmo pegando a doença, agir para que os efeitos clínicos não sejam tão graves.

EC – O que mais as pessoas devem fazer para se proteger?
Spilki – O primeiro passo é completar o calendário vacinal quem ainda não tem todas as doses, todos os reforços necessários. Segundo, buscar diagnóstico. Isso tem que ser um esforço não só do indivíduo, mas coletivo, principalmente da esfera da saúde pública: fazer mais diagnósticos, mapear onde estão as pessoas infectadas para que elas sejam adequadamente isoladas, quarentenadas, para evitar passar a doença para outras pessoas. Nisso, a gente tem falhado, o índice de diagnóstico é muito baixo. E, em terceiro, evitar a propagação e o contágio. Isso se faz através do uso de máscaras, com bom senso: se vou usar transporte público de massa ou mesmo individual, porque o motorista do uber ou do táxi tem contato com muitas pessoas… O ideal é que eu me proteja utilizando máscara nesses espaços. No transporte público de massa, então, nem se fala, porque trem, ônibus, avião, muito cheios, lotados, sem renovação de ar, são ambientes muito propícios para o contágio. O mesmo vale para ambientes hospitalares. Em ambientes de saúde, nem pensar em não utilizar máscara. E do ponto de vista dos ambientes do trabalho, das escolas, do ambiente familiar, sempre lidar com bom senso, procurando estar atento às notícias que ocorrem na volta, se alguém está com suspeita ou positivado, se há no ambiente pessoas nitidamente com sintomas, espirrando, tossindo, utilizar máscara e manter um certo afastamento.

EC – As vacinas protegem contra essas variantes?
Spilki – As vacinas protegem clinicamente contra estas variantes assim como protegiam contra as variantes anteriores. O que ocorre é que o vírus vai evoluindo e, com o tempo, ele vai conseguindo, mesmo sem causar tanta doença, se transmitir à medida em que as vacinas ainda não foram, especialmente no cenário brasileiro, atualizadas para algo mais próximo das variantes. Para a próxima temporada se espera que ocorra a chegada dessas vacinas mais atuais, mas por enquanto, sim, as vacinas protegem, elas são inclusive fundamentais ainda. Sem dúvidas, as vacinas que temos disponíveis para evitar internação e especialmente óbito reduzem muito essa possibilidade, mesmo permitindo a transmissão. subvariantes, subvariantes, subvariantes, subvariantes, subvariantes

Comentários