Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 012 | Ano 2| Jun 1997
CULTURA
CULTURA

Reserva da memória coletiva

Dóris Fialcoff

Museu. Esta palavra recebeu inúmeros significados no imaginário e na linguagem populares. Normalmente, fazendo menção ao tempo, pretende significar antigo, velho, ultrapassado. Pode ter como sinônimo a expressão “faz parte dos móveis e utensílios”, da empresa, por exemplo. Por outro lado, pode corresponder à pompa, sofisticação, lugar para públicos elitizados e intelectualizados. “Ainda existe no censo comum do Brasil a concepção do museu como um lugar onde se colocam coisas velhas. Na realidade, a concepção museológica não vai por aí. O museu é uma reserva da memória coletiva e ao mesmo tempo contribui para a formação do processo identitário de uma comunidade”, ensina a historiadora e professora da UFRGS Sandra Pesavento.

Projetar o olhar para o passado de forma a satisfazer a curiosidade, resulta no entendimento um pouco maior sobre onde se vive, com quem se divide espaço na sociedade, na etnia, na economia, política, culinária, relações humanas e traços culturais estruturais e conjunturais. Pitadas do sentimento de que os museus cheiram a mofo, adicionadas à colheradas de autodefesa frente à imaginada rejeição, mais doses consideráveis dos problemas na educação que assolam o país, só pode ter um fim: o patamar doentio do preconceito. E aí poucos sabem onde ficam os museus em suas cidades, até porque não é feita uma divulgação adequada para isso. Prédios históricos, que sinalizam momentos da história são freqüentados por um público escasso, apenas por motivação profissional. No entanto, o Rio Grande do Sul possui cerca de 200 museus distribuídos por todo o seu território. Eles guardam acervos antropológicos, arqueológicos, de arte, de comunicação e história (maioria no RS). As administrações são das esferas federal, estadual ou municipal, além dos privados. “Conforme as cidades vão se emancipando, vão querendo preservar a sua história”, explica Teniza Spinelli, diretora do Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa, o motivo do grande número de museus particulares e os ligados à fundações.

“A educação informal num país em desenvolvimento é importantíssima. Cabe aos museus, como equipamentos de educação informal, proporcionar ao público este acesso à exposições, cursos e pesquisas”, afirma Teniza, ressaltando que os museus são reconhecidos pela Unesco como equipamentos da educação informal.

A execução da pauta inicial de fazer uma reportagem sobre museus no Rio Grande do Sul pouco a pouco mostrou que a riqueza e o volume de material, com certeza, ignorado por boa parte da população, não seria esgotado em apenas uma edição. Seria um desperdício abandonar tantas informações importantes para a cultura, para a educação. Por isso, esta matéria sobre o Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa abre uma série de reportagens que pretende consolidar um inventário dos principais acervos preservados do estado. Inventário da memória começa por este museu, assinalando que há 189 anos, num dia 1º junho, Hipólito José da Costa lançava, em Londres, o Correio Braziliense, enfrentando a proibição de sua publicação. Exatamente este fato explica a motivação de amplos setores do jornalismo brasileiro que reivindicam a transferência do Dia da Imprensa de 10 de setembro para 1º de junho.

Janela para a história

O edifício que abrigou, na década de 30, o jornal do Partido Republicano Riograndense, A Federação, foi destinado para guardar um acervo respeitável de Comunicação Social, com a criação do Museu Hipólito José da Costa, em 1974. Agora, 23 anos depois, está sendo concluída a obra de restauração do prédio da esquina da rua Caldas Júnior com a Rua dos Andradas – endereço conhecido de estudantes de comunicação, pesquisadores e historiadores, principalmente. A fundação, realizada por um grupo de jornalistas e personalidades ligadas à área cultural do Estado, teve à frente o então presidente da Associação Riograndense de Imprensa (ARI), Alberto André. A instituição carrega no nome uma eterna homenagem ao homem que em junho de 1808 — quando Napoleão Bonaparte invadiu Portugal e Dom João e sua Corte vieram para o Brasil —, lançou, em Londres, o Correio Braziliense. Apesar da circulação ter sido proibida no Brasil e em Portugal, providência do primeiro édito censorial da Regência, a publicação “circulava, penetrando pelas fissuras que se abrem para o ‘proibido’” (conforme a página 10 do volume número 1 da revista Grandes Nomes da Comunicação, sobre Hipólito José da Costa, editada pelo Museu de Comunicação, Instituto Estadual do Livro, Companhia Riograndense de Artes Gráficas e ARI).

Em 1822, com a Independência do Brasil, Hipólito José da Costa não viu razão para manter o Correio Braziliense. “Era o Correio jornal de luta, de pregação moral, delineador de ética. De visão libertária. Anti-escravagista e revolucionário. Revolucionário não no sentido bélico, mas moral, cultural, de ideário social. Cessada a causa que pregava, deixou de circular”, registra a revista Grandes Nomes da Comunicação.

“O Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa guarda a história política, social, econômica e cultural do Estado. É impossível alguém sair de mãos vazias, seja lá o que for pesquisar”, garante Teniza Iara de Freitas Spinelli, diretora da instituição, assinalando a amplitude e abrangência do acervo. “Tem um público pesquisador fiel, já tradicional. Em geral são acadêmicos, vários mestrandos e até doutorandos, em fase de produção de monografias. Muitos escreveram livros, se valendo do acervo”, orgulha-se Teniza, acrescentando: “só de jornais são cem toneladas, o Hipólito é o museu que possui o maior acervo do estado. Preserva documentos e peças raras de cinema, fotografia, vídeo, televisão, publicidade, imprensa, rádio e fonografia.

Os pesquisadores representam a quase totalidade do público freqüentador do museu. O historiador Sérgio da Costa Franco resume a relevância da relação da comunidade com os documentos do passado: “museus são os instrumentos culturais mais eficazes para aproximar o cidadão comum dos fatos históricos.”

Teniza reforça tal opinião: nos museus, “se enxerga na experiência do passado a construção do futuro”. E arremata, “todo museu é um espaço político. Sempre contaram as histórias daquelas pessoas que venceram”, observa. “A nova museologia trata de todos os lados, do vencedor e dos vencidos. O público é que vai tirar as suas conclusões.”

As vozes das rainhas e reis do rádio estão sendo preservadas no setor de Rádio e Fonografia do Hipólito, como é chamado pelos seus freqüentadores habituais. Scripts de rádio-teatro, desde a década de 40 — inclusive o trabalho completo do famoso autor de rádio-novelas Érico Cramer, também conhecido nos anos 40 como Roberto Liz —, entrevistas, depoimentos, jingles, spots institucionais e mercadológicos, e mais de 350 depoimentos de personalidades desde os anos 30.

São aproximadamente 20 mil discos, a maior parte em 78 rotações por minuto (RPM), de todos os gêneros e nacionalidades. Entre as raridades está o selo Disco Gaúcho, da Casa Elétrica, a segunda gravadora do Brasil. “Nós temos aqui o gosto de várias pessoas, de várias épocas e países”, comenta Vera Stracke, coordenadora do setor, explicando que praticamente todo o acervo foi formado através de doações. Ela conta também que são sempre alunos da graduação, em geral Comunicação Social, que usufruem do material. Um toca-discos de agulha reversível (tanto 33 quanto 78 RPMs), um rádio com duplo deck, um gravador acoplado ao toca-disco e um gravador de rolo compõem a infra-estrutura oferecida. A pessoa tanto pode ouvir no local, como deixar uma fita cassete para gravação.

A imprensa escrita é dividida em dois setores: jornais e revistas. Entre os jornais do século passado está o Diário de Porto Alegre, o primeiro editado na cidade. Mais reservados, em um local conhecido como “armário de raridades”, estão exemplares do Constitucional Riograndense, O Povo, O Século, O Mercantil, Correio do Povo, Diário de Notícias, as revistas Partenon Literário e A Máscara, de cunho intelectual. “O interessante da nossa imprensa é que a maior ebulição foi no século XIX, mesmo sendo de cunho partidário”, conclui Roberto Costa Leite, coordenador do setor de atendimento da Imprensa.

As revistas somam quase mil e quinhentos títulos. Entre as mais requisitadas estão as edições da Manchete, Revista da Província de São Pedro, Realidade, Visão e Veja. Todo o acervo é ordenado cronologicamente e com as técnicas da biblioteconomia.

O público do setor de Imprensa também é bem definido. São basicamente estudantes de primeiro e segundo graus, acadêmicos e pesquisadores. “Nosso museu já viabilizou vários livros”, comemora Roberto. Para auxiliar nas condições de preservação, os jornais e revistas são retirados e recolocados nas estantes por funcionários, sendo que o visitante tem todo auxílio para realizar as consultas que desejar. O setor conta também com uma sala munida de mesas especiais, para facilitar o manuseio dos jornais, muitos em formato standart.

A ala de cinema foi, inicialmente, constituída por cinejornais do próprio estado. Porém, logo vieram doações de particulares. A Wilkens Filmes, uma produtora de cinejornais e documentários, que deixou de funcionar em meados da década de 70, fez a primeira doação em 1975: um projetor de filmes 35 milímetros. Originais em 9,5 milímetros, mostrando cenas domésticas, ainda sem som, remetem ao final dos anos 20. As doações possibilitaram a preservação e divulgação de aproximadamente 8 mil filmes, em 8 milímetros, super 8, 9,5mm, 16mm e os atuais 35mm.

Quem, por ventura, procurar imagens que já foram transcodificadas para fitas de vídeo no sistema VHS, poderá assisti-las na sala de vídeo do Museu. O que está em 16mm pode ser visto na sala do próprio setor.

Cláudio Todeschini, coordenador de Cinema fala que pesquisadores, estudantes — que também vêm em grupos para ouvir exposições sobre a sétima arte —, cinegrafistas, emissoras de televisão e historiadores são os mais assíduos visitantes.

As fotografias, arquivadas em ordem cronológica, cerca de 4 mil fotos, 40 mil negativos flexíveis, 40 negativos de vidro (utilizados no início do século), slides e cartões postais guardam momentos de vários tempos. Entre os equipamentos pode ser encontrada uma câmara alemã dos anos 20, Zeiss Ikon, para negativo 6X7.

Estudantes universitários, principalmente da Arquitetura e Ciências Sociais, de segundo grau, produtoras de cinema e vídeo e agências de publicidade são os mais habituais freqüentadores. Denise Stumvoll, a nova coordenadora da fotografia, explica que é muito mais simples quando a pessoa já traz a data do fato, porque o material está catalogado cronologicamente e não por assunto. “O objetivo é ampliar o acervo a partir do contato com os fotógrafos que atuaram em outras décadas”, esclarece Denise.

Na sala de vídeo e televisão podem ser encontrados os equipamentos e componentes eletrônicos utilizados no início da televisão no estado, em 1959, com a instalação da TV Piratini. Com o encerramento das atividades da emissora, no início dos anos 80, parte do material técnico foi destinado ao Museu de Comunicação Social.

A coordenadora Iara Carvalho diz que o acervo possui fitas do tempo em que os programas eram praticamente feitos ao vivo. As pessoas podem assistir as gravações que já estiverem em VHS e também solicitar cópias.

Hoje ainda, quem vai ao Museu de Comunicação Social precisa entrar por uma porta lateral, na rua Caldas Júnior. As reformas iniciadas no início de 1989 estão em fase de finalização. “O museu hoje está em melhores condições do que anteriormente. A restauração do prédio está proporcionando uma reorganização interna dos espaços”, avalia Teniza.

Em 1996 estão registradas 4.926 consultas. A imprensa domina, tendo atendido 3.739 pessoas. Depois o Cinema, com 600, a Fonografia com 496 e Fotografia 91.

O museu é aberto ao público das 10h às 18h. Para os pesquisadores, das 13h às 18h. No primeiro andar está a exposição permanente sobre a História da Comunicação Social do Rio Grande do Sul. Escolas podem agendar visitas dirigidas.

Notas 

VII Jornada da Literatura
Formar leitores capazes de entender linguagens peculiares a diferentes manifestações culturais e, especialmente competentes na leitura do texto literário, é o principal objetivo da movimentação cultural que se constitui nas Jornadas Literárias de Passo Fundo. Para este ano, a 7ª edição do evento – que será realizada de 2 a 5 de setembro -tem confirmado para as conversas literárias nomes como Adélia Prado, Carlos Heitor Cony, Fernando Gabeira, Ziraldo, Moacyr Scliar, Mário Prata e Leopoldo Serran. Entre autores e especialistas estrangeiros estão o moçambicano Mia Couto e o escritor francês Edouard Glissant. Os organizadores do evento também estão tentando a presença do prêmio Nobel da Paz de 1980, Adolfo Pérez Esquivel, e Dom Paulo Evaristo Arns, bispo da Diocese de São Paulo. A VII Jornada da Literatura tem o apoio do Sinpro/RS, Ministérios da Cultura e da Educação, Assembléia Legislativa do RS, Secretarias de Estado da Cultura e Educação, CNPq e Fapergs. A promoção é da Universidade de Passo Fundo e da prefeitura do município.

Centenário de Pixinguinha
O centenário do nascimento de Alfredo da Rocha Vianna -o Pixinguinha (23 de abril) está sendo comemorado com o lançamento de um pacote com dois CDs e um encarte (Som Livre) e um CD duplo com gravações clássicas (BMG), que mostram a riqueza do legado musical de Pixinguinha, que morreu em 1972.

Padre Anchieta
A Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, lançará, no segundo semestre, o Projeto 4º Centenário José de Anchieta. Durante uma semana, com início em 6 de outubro, haverá uma série de homenagens ao padre jesuíta José de Anchieta, morto há 400 anos. A principal, será a publicação inédita de uma edição do livro De Gestis Mendi de Saa (Os Feitos de Mem de Sá), escrito em latim por Anchieta em 1563. O lançamento está previsto para a Bienal do Livro, no Rio de Janeiro, em agosto. O único exemplar do poema de cem páginas, que descreve a batalha pelo domínio do Rio de Janeiro, pertence ao acervo da Biblioteca Pública Évora, de Portugal. O curador dos eventos sobre Anchieta e professor de Literatura Brasileira da Universidade Federal Fluminense, Paulo Roberto Pereira, conseguiu autorização do governo português para a republicação de uma edição especial de mil exemplares.

Festival de cinema
Seis dos nove longas-metragem estrangeiros que estarão participando do 25º Festival de Gramado – Cinema Latino e Brasileiro, de 8 a 16 de agosto, já foram definidos. Cuba virá com dois filmes: Yo Soy del Son a la Salsa, de Rigoberto López, e Pon Tu Pensamiento em Mi, de Arturo Sotto. Da Venezuela, está confirmado Santera, de Solveig Hoogesteijn. O Peru estará presente com Bajo la Piel, de Francisco Lombardi, e a Colômbia com Ilona Llega com la Lluvia, de Sérgio Cabrera. Portugal participa com O Testamento do Senhor Neponucemo da Silva, de Francisco Manso. A Espanha, Argentina e México também terão produções selecionadas para a competição.

Hiatos do Ser
A professora Zélia Helena Dendena lançou o livro de poemas Hiatos do Ser, 76 páginas, pela editora Centro Cultural Vila Sampaio. “Revelam uma peculiar sensibilidade de ver, sentir e pintar a vida. Há a demonstração de encanto e espanto perante o mistério do ser exprimido existencialmente entre limites ainda inexplicáveis do onde, para onde, porquê, para quê e quando”, escreveu o professor de Letras, Marcelo Cardoso da Silva, na apresentação dos poemas.

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