Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 025 | Ano 3 | Set 1998
ENTREVISTA | PATRÍCIA BINS
ENTREVISTA

A Feira já tem anfitriã

Stella Máris Valenzuela

A vida desta escritora, artista plástica e jornalista se entrelaça com sua obra. Até agoraPatrícia Bins foram 12 livros. O primeiro – O Assassinato dos pombos, foi presente do seu grande amor, Roberto Bins, que selecionou algumas crônicas e ilustrou a publicação. Depois Patrícia Bins criou as trilogias da Solidão, da Paixão e de Eros. A última incompleta. Produziu dois livros infantis e, o mais recente, Brasil: receita de criar e cozinhar, está fazendo sucesso no Rio de Janeiro. Patrícia foi responsável por um Suplemento Cultural do Correio do Povo, entre 68 e 84.Sua criação literária rendeu diversos prêmios. E agora está feliz por ser a patronesse da 44ª Feira do Livro de Porto Alegre. Ela é a terceira mulher a ocupar este lugar. Em 80, foi Maria Dinorah e, em 96, Lya Luft. Filha de mãe inglesa, Iris Holliday, e de pai húngaro, Andrew Stroh, Patrícia nasceu no Rio de Janeiro e veio mocinha para Porto Alegre. Mulher de cultura inglesa e educação refinada, Patrícia Bins falou durante duas horas para o Extra Classe.

Extra Classe – Quem é Patrícia Bins?

Patrícia Bins – Até os seis anos morei no Rio de Janeiro. Depois fomos para Belo Horizonte. Lá ficamos mais uns seis anos e viemos para Porto Alegre. Meu pai trabalhava numa firma americana e era um homem muito aplicado no trabalho. Eu guardei, como relíquia, a Carteira de Trabalho dele. Achei uma coisa tão bonita. Se via ali a grandeza dele. Ele era húngaro. Foi para Inglaterra estudar aos 18 anos e conheceu a minha mãe. Se apaixonaram, mas os pais dela não queriam o casamento, porque ele era de outra nacionalidade e meu avô húngaro já tinha uma noiva destinada a meu pai. Eles casaram só no civil. Partiram para Paris e ficaram um ano, mas minha mãe não falava bem o francês. Então meu pai sugeriu a vinda para o Brasil. Embarcaram num navio e chegaram no Rio de Janeiro maravilhados com a paisagem. Moraram em Copacabana, na época mais bonita. Um ano depois eu nasci. Tive esta primeira infância muito alegre e feliz. Aprendi a falar rapidamente. Em casa usávamos o inglês. Em húngaro, só aprendi a contar de um a dez. Eu era muito arteira e minha mãe não sabia o que fazer comigo, exceto contar estórias para me entreter. Ela resolveu me colocar numa escola particular de duas inglesas. Com cinco anos aprendi a ler, escrever, dançar, tocar piano, pintar, além do currículo normal. Tivemos uma vida maravilhosa. Passeávamos por Petrópolis. Num dos meus livros descrevo um piquenique daquela época. Minha irmã nasceu em Belo Horizonte, onde também fazíamos muitos passeios. Seguidamente visitávamos o Morro Velho, uma colônia inglesa. Muitas vezes ficava o fim de semana com uma família. A senhora se dedicava à jardinagem e culinária. Seu nome é Norah, com “h”. Coloquei este nome em uma das minhas personagens.

EC – E a língua portuguesa, como entrou na sua vida?

PB – Fui matriculada no Colégio Americano de Belo Horizonte. Aprendi português, não podia viver num país sem escrever e ler corretamente sua língua. Como já sabia escrever e ler em inglês, em pouquíssimo tempo aprendi o português. Adorava estudar. Era quase uma obsessão. Tinha preferências por literatura, história das civilizações, música e dança. Piano não me fascinava tanto. Não gostava de matemática, mas me esforçava.

EC – Como foi a chegada a Porto Alegre?

PB – Viemos por mar. A minha irmã adorava o navio. Mas eu detestava, por causa do cheiro de vômito. Isto tudo, de uma forma ou de outra, está nos livros. Nos hospedamos no Grande Hotel. Um senhor chamado Adroaldo, nos recebeu com frutas da época – ameixas amarelas e vermelhas. Acho que era início do verão. Eu nunca tinha comido uma ameixa. Ficamos encantadas com as ameixas.

EC – Aqui a senhora também estudou no Colégio Americano, onde recebeu o primeiro prêmio?

PB – Ganhei dois prêmios nesta época. Não me lembro bem as datas. Minha cabeça e meus livros são alineares, embora a memória seja prodigiosa. Ganhei o Prêmio Joyce Almeida, uma moça falecida. Os pais dela destinaram todo o dinheiro de sua educação à aluna de destaque. E consistia em cobrir os custos da escola, durante um ano e mais o uniforme completo. No Colégio Americano tive a oportunidade de continuar praticando o inglês. As regentes eram americanas. Estava com uns 14 anos. Depois tive uma ótima professora de francês. Ela não falava português. Foi um privilégio aprender o francês com ela. Desenho eu gostava muito.

EC – E sua formação acadêmica?

PB – Me formei em Belas Artes. Adorava História da Arte. Foi uma oportunidade maravilhosa. Meu marido, o arquiteto Roberto Bins também foi professor de História da Arte. A gente tinha muito assunto.

EC – Como foi sua iniciação literária?

PB – A primeira coisa que escrevi com um certo sentido foi uma poesia chamada O Beijo. Era um soneto, a antecipação de um beijo adulto, nem sei de onde tirei. A minha mãe ficou horrorizada, pois só tinha nove anos. O primeiro prêmio foi o conto sobre um rapaz que se apaixonou por uma menina cega. Fiquei contente, sonhava em ser escritora.

EC – Além de artista plástica e escritora, a senhora também é jornalista…

PB – Trabalhei no Correio do Povo de 1968 a 1984. Não completei o curso de Jornalismo, porque meu marido ficou muito doente. Eu era responsável por um Suplemento Cultural, com poesias, contos, entrevistas e reportagens. Eram diversos escritores que colaboravam com este suplemento, entre eles Lygia Fagundes Telles, Moacyr Scliar, Lya Luft, Laury Maciel, entre outros. Meu marido, meu filho e minha nora, Ivone Rizzo ilustravam o jornal.

EC – Nesta época surgiu o primeiro livro?

PB – O primeiro livro – O Assassinato dos pombos, foi um presente do meu esposo. Ele escolheu umas crônicas, fez as ilustrações e me deu no Natal.

EC – A partir daí surgiram as trilogias da Solidão, da Paixão e de Eros?

PB – Eu já estava escrevendo o Jogo de fiar, editado em 1983, pela Nova Fronteira. Antes publiquei o primeiro capítulo deste livro, como uma crônica. Mas num olhar mais detido percebi que poderia transformá-lo em livro. Produzia um livro por ano, e também recebia um prêmio a cada 12 meses.

EC- Até que ponto a senhora introjetou a cultura gaúcha?

PB – Não gosto de chimarrão, prefiro chá inglês. Mas introjetei a arte dos gaúchos. Adoro muitos artistas gaúchos antigos e modernos, como Xico Stockinger, Vasco Prado, Lutzenberg pai – que era um grande escultor e foi meu professor -, Fernando Corona, Alice Brieggemann e Alice Soares. A arte literária também, como por exemplo Dyonélio Machado e João Gilberto Noll. Louvo o Guaíba. Tenho o privilégio de vê-lo todos os dias. Quando tem poente é uma beleza. As cores são cambiantes, vão do dourado ao prateado, do bronze ao espelhado.

EC – Que autores lhe influenciaram?

PB – Minhas influências foram mais inglesas – Virgínia Wolf, James Joyce.

EC – Qual a escritora brasileira que mais lhe atrai?

PB – Clarice Lispector. Ela tem um humor quase imperceptível. Brinca com as palavras. A Clarice mulher foi muito sofrida. Eu me dava bem com a Olga, que escreveu o último livro, quase juntando pedacinho por pedacinho, porque a Clarice não podia escrever com a mão direita. Ela tinha se queimado. Esboço para um possível retrato é o nome do livro.

EC – Até 1995, a senhora teve uma grande produção, então deu uma parada. O que houve?

PB – Meu marido estava muito doente. Ele faleceu no dia 29 de janeiro de 1997. Os últimos anos me dediquei muito a ele.

EC – Como é a Patrícia poeta?

PB – O mais recente livro era de poesia – Instante do Mundo. Mas minha editora do Rio alertou que poesia é difícil de comercializar. Só vende poetas como Carlos Drummond, João Cabral de Mello Neto, Ferreira Goulart, Marli de Oliveira e Mário Quintana. E os que musicaram suas poesias, como Vinícius de Moraes, Gilberto Gil, Tom Jobim, Caetano Veloso. Ela sugeriu que eu o transformasse em romance. Foi o que fiz. Com as primeiras palavras, de cada poema, construi uma espécie de epígrafe. Ficou um romance bastante bonito, também alinear, como é o meu feitio. Ele está na editora. Não sei se vai sair este ano. Mas também produzi um outro com a Dileta Silveira Martins – Brasil: Receita de Criar e Cozinhar. A inspiração me veio do Proust. Ele gostava muito de comer coisas diferentes. Um certo dia, quando estava tomando um chá e comendo uns biscoitinhos amanteigados, molhou o biscoitinho no chá, para ficar mais macio. E quando deu a primeira dentada, veio num flash todos os volumes de Em busca do tempo perdido. Acho esta estória fascinante. Me ocorreu que a criação pode vir da memória gustativa. E assim eu sugeri para a Dileta, que a gente convidasse 55 autores brasileiros para criar esta obra. Todos aceitaram. O livro está sendo muito bem sucedido, principalmente no Rio de Janeiro.

EC – E quanto a Literatura Infantil?

PB – Queria perseguir este filão, porque não gosto de literatura moral para criança. Prefiro uma coisa mais solta, mais livre. Então pensei que talvez eu pudesse escrever uma coleção, com os mesmos personagens, mas com histórias diferentes, como eu faço com as trilogias. Mas daí me deu vontade de reformar o livro de poesias.

EC- Como se dá seu processo criativo?

PB – Meu sistema de escrever começa na cabeça. Deito e crio personagens, temas, acontecimentos – se é que se pode chamar de acontecimentos, ou não acontecimentos. Quando está mais ou menos pronto, começo a escrever à mão, pois a mão está diretamente ligada ao coração e à cabeça. Sinto que é uma forma de escrever. Depois a secretária faz a digitação.

EC – A senhora está vivendo um momento criativo. O que vem por aí?

PB – Não vem história infantil. Estou com o terceiro livro dos contos da trilogia de Eros por completar e tenho esperanças de poder escrever até o meio do próximo ano.

EC – Como é a Patrícia Bins mulher?

PB – Está em toda parte fazendo as coisas mais banais. Tentando deixar que essas coisas banais fiquem valorizadas, pela maneira como são executadas. Na cozinha, a gente faz com afeto, para não ser uma coisa desmanchada. As contas eu detesto. Acho que tinham que inventar uma outra forma. Detesto esta coisa de que cada dia vence uma. O pagamento deveria ser todo na mesma data.

EC- A senhora é feminista?

PB – Não. Sou partidária de uma reforma do ser humano. Acho que o ser humano está dando para trás, embora tenha computador e Internet. A própria mulher não se encontrou ainda. Não tem espaço, ganha pouco e então não pode realizar as coisas que gostaria. Também há muita violência entre casais. A falta de equilíbrio assusta um pouco. Não sou feminista porque os homens são necessários. Mas penso – não é só homem que deve fazer política. Me parece que as mulheres têm mais jeito. A política não seria tão belicosa.

EC – Como a senhora recebeu a indicação para ser a patronesse da 44? Feira do Livro de Porto Alegre? Esta indicação abre mais espaço para o feminino?

PB – Acho que sim. Recebi muitos telefonemas, não só de mulheres, mas de homens também. Eles estão respeitando esta distinção. Gostaria que todos pudessem ser patronos ou patronesses. Mas é só um de cada vez. Fiquei muito feliz. Um grande respeito está surgindo. Isto não aconteceria há 10 anos. Mas nós mulheres estamos batalhando na educação, na saúde.

EC – Quais os seus planos para a Feira?

PB – Vou recepcionar os visitantes, oriundos de várias partes do mundo. A idéia do Mundo na Praça me alegrou, vou ter a possibilidade de me comunicar em outros idiomas.

EC – Esta distinção veio num bom momento?

PB – Sim, estava muito triste com o falecimento do meu esposo. Parece até que foi interferência dele. Não tenho religião – mas a energia dele deve ter chegado em mim. Ele deve ter dito – tu tens de continuar. Não podes ficar triste, porque todos vamos morrer.

EC- A senhora tem filhos?

PB – Tenho dois filhos homens, um arquiteto e o outro artista plástico.

EC – E netos?

PB – A Helena com 18 anos é top model. Ela é a menina que não tive. O Cristiano com 17 anos, já trabalha e está cursando Comércio Internacional, na Unisinos, e a Gabriela com 11 anos.

EC – A cultura inglesa é forte na sua personalidade?

PB – Sonho em inglês, penso em inglês, escrevo um pouco em cada idioma. Vou escrevendo e ilustrando também. Gosto de deixar bastante espaços em branco nos meus livros, para que os leitores possam dar suas opiniões. Eles se tornam cúmplices e têm a possibilidade de mudar o que não gostam.

EC – O que a senhora diria a seus leitores?

PB – Para os que têm filhos, que os incentivem, desde cedo a ler, porque a leitura é como respirar. Para aqueles que não têm filhos, que leiam eles próprios e não fiquem muito ligados à televisão, pois esta está sendo um substituto para o livro.

A OBRA

– O assassinato dos pombos, Metrópole, 1982;

Trilogia da Solidão:
– Jogo de fiar, Nova Fronteira, 1983;
– Antes que o amor acabe, Nova Fronteira, 1984;
– Janela do sonho, Nova Fronteira, 1987.

Trilogia da Paixão:
– Pele nua no espelho, Bertrand Brasil, 1989;
– Theodora, Bertrand Brasil, 1991;
– Sara e os anjos, Bertrand Brasil, 1993.

Trilogia de Eros:
– Caçador de memórias, Betrand Brasil, 1995;
– O resgate da fábula – CS Zona Sul Editora;

Livros Infantis:
– O diário da árvore, Bertrand Brasil, 1995;
– Pedro e Pietrina, Bertrand Brasil, 1995.

Livro mais recente:
– Brasil: receita de criar e cozinhar.

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