Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 031 | Ano 4 | Maio 1999
ESPECIAL

O pão nosso de cada dia

MARCIA CAMARANO

Com a nova realidade do mercado de trabalho, as pessoas com ou sem qualificação encontram cada vez mais dificuldade para ganhar o dinheiro que permitirá a sobrevivência digna no final de cada mês. Para celebrar o Dia do Trabalhador, o Extra Classe foi ouvir histórias de gente como o agrônomo Gérson Antoniazzi, que tem de vender água mineral para viver

“Cortar o cabelo, cortar o cabelôôô!”, diz o primeiro entregador de papelzinho em meio ao burburinho da rua Voluntários da Pátria, centro de Porto Alegre. O segundo completa a oferta: “é dois real o corte de cabelô”. Ninguém tem tempo de contar quantas vezes é interrompido em sua caminhada, mas se alguém se desse ao trabalho iria se surpreender. Conforme o itinerário, nas ruas mais movimentadas é difícil dar dez passos sem ser abordado por algum distribuidor de propaganda, desde o corte de cabelô, passando por fotografia “a três real, moça!”, ofertas de grandes lojas de artigos populares, venda de terrenos, promoções das mais diversas que possam render algum trocado.

Além deles, há os vendedores de qualquer coisa, como cigarro contrabandeado, vale-transporte, teletubbies de borracha. E quando a pessoa pensa que se livrou das interpelações ao entrar num ônibus, assiste ao entra-e-sai de portadores de deficiências, vendedores de balas e mesmo malandros eventuais vendendo alguma coisa ou simplesmente pedindo dinheiro. Para muita gente, essas abordagens são uma grande chateação. Mas para quem aborda, é a única forma de levar dinheiro para casa.

A maioria sabe que o nome desse trabalho é bico e se iludem achando que a fase é temporária, “até encontrar coisa melhor”, como dizem Jorge Adão Grippa, ex-porteiro de condomínio, hoje distribuindo material de propaganda na Rua da Praia, e Celionara Ramires Maldonado, vendedora de cigarros contrabandeados. Grippa embolsa R$ 7 por dia se conseguir distribuir os mil panfletos que a empresa lhe dá. Celionara, nos períodos de venda boa, leva R$ 10 limpinhos para casa. Mas isso se trabalhar até às 23h.

Ambos não têm qualquer especialização profissional, estão excluídos do mercado formal de trabalho, mas acalentam o sonho de um dia fazerem parte da seleta camada de trabalhadores com direitos assegurados em carteira. Não sabem que, daqui para a frente, dificilmente conseguirão coisa melhor.

Há, entretanto, os que mesmo com formação profissional e currículo impecável também foram expulsos do mundo do trabalho. Pior, sabem que pela idade ou estreitamento de mercado, só um milagre fará com que retomem suas profissões. É o caso da técnica em contabilidade Vanda Cerutti, que hoje faz faxina por absoluta falta de colocação profissional.

Formada em Contabilidade em 1980, ela passou boa parte da vida dedicada às contas e outros setores nos bancos por onde passou ao longo de 18 anos de vida profissional. Em 1994, com a demissão em massa na categoria, Vanda teve de se virar para sustentar os filhos de nove e quatro anos com o marido. “Não tenho vergonha do que faço, pois vergonha é não pagar as contas no fim do mês”, diz.

E quem não tem na família, em plena virada do milênio, alguém desempregado? “Temos hoje a taxa de desemprego mais elevada do país, sem precedentes em toda nossa história”, explica o professor da área de Economia do Trabalho na Unicamp (Universidade de Campinas), Jorge Matoso.

O economista e professor da Ufrgs (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) Flávio Fligenspan ressalva que o desemprego hoje é um problema mundial. “Mas em países que crescem pouco economicamente como o Brasil o caso se agrava porque fica a impressão de que emprego é artigo de luxo”, argumenta. Ou seja, trabalhador que possui carteira assinada é um felizardo, um ser em extinção.

Ele fala inglês, francês e russo

O peso da falta de trabalho acertou em cheio o agrônomo Gerson Henrique Antoniazzi. Em 1982, ele saiu feliz da vida da Universidade de Passo Fundo com seu diploma embaixo do braço e, não satisfeito com isso, resolveu estender seus conhecimentos para línguas estrangeiras. Aprendeu inglês, francês e estudou russo. Quase 17 anos depois, 42 anos de idade, Gerson não consegue sustentar a família. Casado, pai de três filhos, com ele também moram a sogra, a avó da mulher e um cunhado, também desempregado.

O único dinheiro certo para as oito pessoas da casa é garantido por dona Julieta, 81 anos, funcionária pública federal aposentada. Gerson depende da venda de garrafões de água mineral, um negócio que mantém com a sogra, Maria Sílvia. “Vendemos de manhã para ter o que comer à tarde”, diz ela.

É até irônico um país com tantas carências como o Brasil prescindir de alguém com um currículo como o de Gérson, que também já deu aulas particulares de Matemática e Física, mas parou por falta de alunos (ou de dinheiro dos pais para pagar as aulas). “Faço uns bicos por aí, para ajudar no orçamento”, diz ele. Entre essas ocupações, ele eventualmente cuida do bar de um amigo por R$ 20 o dia.

Gerson vem de uma família de classe média. Os irmãos são todos formados, o pai tem uma fazenda no interior do Paraná. Ele ficou lá por muitos anos, ajudando a cuidar da propriedade e utilizando seus conhecimentos profissionais. “Éramos eu, o velho e as onças”, lembra. Com a morte de seu Henrique, há um ano e meio, Gerson ficou como “pingue-pongue” entre Porto Alegre e a cidadezinha paranaense de RioAzul. Levou a família, mas a aventura não deu certo.

Com medo das grilagens, os Antoniazzi voltaram no final do ano passado. A procura por trabalho, no entanto, continua tirando o sono de Gerson. “Espalhei currículo por todos os cantos e não tive nenhuma resposta; acho que é por causa da minha idade”, arrisca.

O casal matriculou os dois filhos mais velhos na escola pública, mas o material escolar foi obtido graças à ajuda de vizinhos e amigos. A filha pequena fica aos cuidados da mãe, que se reveza com Maria Silvia para atender a dona Julieta. Por causa disso, mãe e filha não podem procurar emprego. O cunhado também está desempregado e mora na mesma casa. Mesmo trabalhando desde os 16 anos, Gerson teve sua carteira assinada só uma vez, por quatro meses. “Se conseguir trabalho, será como autônomo; carteira assinada hoje, nem sonhar”, admite.

Mais de 2,6 milhões sem um trabalho

Alterações no mercado de trabalho. Eis um tema que deve interessar a todo aquele que faz

alguma atividade em troca de dinheiro. A falta de emprego e as saídas que as pessoas vêm buscando tem chamado a atenção de economistas, historiadores, pesquisadores. Um deles é o professor de Economia do Trabalho na Unicamp, Jorge Matoso. Segundo ele, é preciso discutir as causas que eliminam o trabalho e entender os mecanismos que estão atuando na transformação do mercado. “A taxa de desemprego atual é a mais elevada da história do Brasil”, diz.

Mesmo tomando taxas diversas como as pesquisadas pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e pelo Dieese (Departamento Intersindical de Estudos Sócio-econômicos), o recorde é uma realidade. No caso do IBGE – o índice adotado oficialmente pelo governo – a taxa bateu em 8,15% em março passado. Poucas vezes o instituto registrou um número tão alto. No acumulado dos primeiros três meses do ano, o recorde: 7,79% de desemprego.

Taxa alta assim nos primeiros meses do ano só haviam sido registradas em 1984, quando o índice de desemprego chegou a 7,69%. O pior trimestre que o país já teve, segundo o IBGE, foi no final de 1998, quando a taxa chegou a 8,01%. Nas seis regiões metropolitanas pesquisadas pelo IBGE (São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife e Salvador) o número de pessoas sem emprego chegou a 1,360 milhão.

No Dieese, cujos dados são geralmente utilizados pelas entidades sindicais, a realidade é ainda mais cruel. Em fevereiro o índice ficou entre 16% a 20% dependendo da região. Em São Paulo, maior concentração de trabalhadores do país, o cálculo apontou para um desemprego de 19,9% na região metropolitana.

A diferença de um órgão para outro é de metodologia. O IBGE leva em conta para efeitos de emprego quem desempenhou algum tipo de atividade remunerada, mesmo os chamados bicos. O Dieese, por sua vez, cataloga todos que estão à procura de emprego e considera-os sem trabalho. Para Matoso, o desemprego inusitado tem relação com a precarização das relações de trabalho. “Isso é resultado da informalização e de outros mecanismos que não burlam a legislação trabalhista”, explica.

De acordo com o professor, há uma deterioração importante a ser notada no mercado de trabalho. “Dizem que isso é um problema de inovação das tecnologias, mas essa não é uma boa explicação porque já tivemos o mesmo fenômeno em outros períodos; o que acontece é que o crescimento econômico foi mais baixo que a produtividade das empresas”, sustenta. Ou seja, elas têm conseguido aliar menor oferta de vagas a um resultado financeiro crescente. Matoso sustenta ainda que reduzir a absorção de mão-de-obra num determinado setor não significa que as empresas estejam empregando pessoas em outros. O professor afirma que a estagnação da economia é resultado da política do governo federal, que se baseou em um tripé que pode ser identificado como abertura indiscriminada do mercado exterior (comercial e financeiro), sobrevalorizaçãodo real e juros muito elevados.

“Esse tripé criou uma armadilha ao crescimento da economia; com ele, houve a desestrutura da esfera produtiva (indústria e agricultura) e, paralelo a isso, ocorreu a deterioração das contas públicas e das contas externas”, explica. O que surpreende Matoso é que a década de 90 termina com uma taxa de crescimento médio anual inferior à década de 80, que foi considerada por muitos como a década perdida. “Nos anos 80, o crescimento anual foi de 2,6% e estamos encerrando os 90 com cerca de 1,25% ao ano”, informa. Ou seja, menos que o crescimento populacional. Ele enfatiza que a década de 90 foi destrutiva principalmente do emprego. “Por isso estamos com taxas de desocupação recordes”, avalia.

Em março, a taxa de desemprego aberto medida pelo IBGE bateu em 8,15%;
O contingente de trabalhadores com carteira assinada caiu 3,3% em um ano, ao passo que o núemro de empregados sem carteira assinada expandiu-se 4%;

No primeiro trimestre do ano, foram 27 mil desempregados a nais que no mesmo período do ano passado;

Aumentou em 11% o volume de pessoas que nunca haviam trabalhado e que estavam à procura de emprego;

O tempo médio de procura por ocupação remunerada subiu de 20 semanas e 51 dias para 21 semanas e 16 dias em um ano.

Vanda quer ter salário fixo de volta

De economia, Vanda Helena Cerutti também entende um bocado. Alguns dias da semana ela dedica a faxinas em casas de famílias e escritórios, parecidos com o que ela dividia com os colegas de trabalho nos tempos de emprego fixo. Vanda também cuida dos filhos de pessoas conhecidas, quando elas precisam sair.

“Faço qualquer coisa, não tenho vergonha, medo do trabalho ou qualquer preconceito”, conta, orgulhosa.

Vanda – que é técnica em Contabilidade – trabalha também com compra programada de eletro-eletrônicos, faz escrita fiscal em casa e vende sorvete no verão “até não achar coisa melhor”. Ela precisa auxiliar o marido, sapateiro, a manter os filhos na creche e na escola. Enquanto faxina um escritório no centro de Porto Alegre, ela pensa em como seria bom ter de volta um trabalho com carteira assinada. “Não precisaria ser um salário alto, eu poderia fazer qualquer coisa”. Enquanto diz isso, Vanda lembra dos tempos de bancária e nas ações sindicais que resultaram em conquistas como auxílio-creche a ticket-refeição. Tempos esses que já vão longe.

Maria Salete Pitt também foi bancária por 15 anos, mas perdeu essa condição no Plano Collor. Aos 44 anos, dois filhos, um de 14 e outro de oito anos, ela está desempregada desde 1991. “O problema é a idade”, acredita. E constata que os colegas que permanecem trabalhando estão a perigo: “quem está lá, está no sufoco”.

Salete tem buscado atividades bem diferentes para levar dinheiro para casa. Por algum tempo vendeu docinhos, sorvete e sacolé pelas ruas. Mas como outros desempregados começaram a fazer o que ela fazia, esse mercado também inchou e ela teve de procurar outras ocupações. “Antes, dava para comprar o pão e o leite com essas vendas. Mas depois baixou tudo”, lamenta.

A falta de emprego e de perspectivas atingiu até a saúde de Salete, que tem problema de baixa estima e estresse emocional. Ela conta que chegou a 103 quilos, tamanha a ansiedade da falta de perspectiva. A bancária buscou o trabalho comunitário para se defender, que não rende nada mas, pelo menos, lhe dá “compensação de vida”.

Na associação de moradores, falando com um e com outro, ela conseguiu algumas faxinas para fazer. Com o companheiro de 41 anos também desempregado em casa, ela conta que tentou abrir com ele uma empreiteira. Mas com a crise na construção civil, o projeto foi para o espaço. Como saída, ele fez um curso de corretor de imóveis e, com o dinheiro de alguma venda esporádica, a casa é mantida.

“Não temos mais lazer, não compramos roupas, não podemos abrir crédito. Minha casa não tem móveis, abrimos mão de tudo”, revela. E quando pensa no futuro, Salete diz, depois de um longo suspiro: “a gente vai levando a vida como pode”.

1º de Maio
Milhares de pessoas participaram no sábado, 1º de maio, de uma manifestação de trabalhadores na fronteira do Brasil com o Uruguai. O ato reuniu sindicalistas do Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile

Desemprego vai persistir em 99

O economista e professor da Ufrgs, Flávio Fligenspan, tem feito algumas pesquisas sobre a chamada informalidade – pessoas sem carteira de trabalho e que atuam por conta própria. “O desemprego cresceu e isso, por si só, é um horror”, observa. Asaída, para a maioria das pessoas, é apostar na criatividade. De acordo com Fligespan, a questão do desemprego é mundial mas se manifesta de forma mais intensa em países com problemas graves de crescimento econômico, como o Brasil. Em situações como essas, segundo ele, “as pessoas aceitam qualquertrabalho, sem garantia de nada”.

Fligenspan explica que, em 1998, o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) foi zero, o que significa que não houve expansão da economia. “Portanto, não houve a menor possibilidade de criação de emprego”. Em 99, está prevista uma retração de 3% na economia em função da crise financeira que atingiu o país no final do ano passado. “Este ano vai-se produzir menos que no passado. Se a situação estrutural já está ruim, o decréscimo significará mais gente sendo jogada para fora do mercado”.

Da metade de 1992 até fevereiro de 99, segundo ele, houve uma evolução representativa da informalidade. Em junho de 92, ela era de 43% do total das pessoas empregadas. Em fevereiro de 99, elas passaram a 51%, de acordo com a Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE, feita nas seis regiões metropolitanas mais importantes (São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Salvador e Recife).

Nesse universo, o economista observa que a informalidade (que reúne os trabalhadores sem carteira assinada aos que trabalham por conta própria) avançou no total de pessoas em 8 pontos percentuais, “o que é muito”.

O economista calcula, com base em seus estudos, que deveriam ser gerados 1,7 milhão de novos empregos por ano no Brasil somente para absorver os jovens que chegam ao mercado de trabalho. Nesses dois anos de estagnação econômica, o saldo foi o fechamento – e não a criação – de vagas. Resultado: os jovens continuam sendo rejeitados na sua procura por trabalho.

Para Fligenspan, expectativa de melhora só com crescimento econômico acelerado do país. No caso do Brasil, observa, isso não está previsto para os próximos meses. “Só para fechar essa conta de gerar 1,7 milhão de empregos o país precisaria crescer de 4% a 5% ao ano”, contabiliza. Como a perspectiva é de que a economia volte a crescer somente no ano 2000, o drama do desemprego continuará afetando os lares brasileiros.

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R$ 7 ao dia por mil panfletos

Na rua da Praia, no centro da capital, o ex-porteiro Jorge Adão Grippa, 42 anos, está há alguns dias se acostumando ao trabalho que arrumou depois de muito caminhar em busca de um novo emprego. Ele distribui material de propaganda de uma loja. Se distribuir mil panfletos, ganha R$ 7 por dia. É tudo quanto ele tem para sustentar o filho de cinco anos, que fica aos cuidados de uma tia.

O emprego de porteiro Grippa perdeu há três anos, quando o condomínio em que trabalhava teve de enxugar os gastos. O primeiro corte foi a cabeça dele. Desde então, é um biscate atrás do outro. A mulher não agüentou a dureza e foi embora. Fugiu, deixando a família para trás. Jorge conta todos os dramas de sua vida sem mudar o tom da voz. É como se nada mais o emocionasse. Há 20 anos ele veio de Uruguaiana para Porto Alegre e, desde então, trabalhou sem parar. A situação atual ele encara como um bico, temporário. Do dinheiro que arrecada diariamente, ele precisa separar ao menos R$ 70 do aluguel de uma casa em Eldorado do Sul, na região metropolitana. “A minha demissão foi por causa do plano Real”, comenta. Grippa conta que preencheu fichas de emprego em vários lugares da cidade, sem ter obtido nada de concreto até agora. “Uns pedem para passar amanhã ou depois, mas esse dia nunca chega”, consola-se.

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