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Nº 034 | Ano 4|Agost 1999
MEMÓRIA
MEMÓRIA

A história do payador que enganou a morte

Renato Dalto

O poeta Jayme Caetano Braun, que morreu no início de julho, eternizou seus versos nos rostos e vozes que compõem a imagem do pampa

“Havia a palavra e, mais do que o verbo, a voz para declamar versos de uma rudeza que, num primeiro momento, pareciam beirar a grossura. Da pacholice gaudéria, extraía metáforas entre a aspereza e uma certa ironia campeira. Num de seus poemas mais famosos, “Bochincho”, ele descreve um baile e a bela chinoca pela qual se encantou. E vai à dança: “Eu me agarrei na percanta/o mesmo que um carrapato”. Mas logo depois constrói toda a delicadeza daquela mulher, “misto de diaba e de santa”, com o refinamento de um grande poeta. “Daquele corpo moreno,/ Sentia o mundo pequeno,/ Bombeando cheio de enlevo/ Dois olhos – flores de trevo/ Com respingos de sereno!”.

Estes versos integram a obra imortal de Jayme Caetano Braun, payador nascido em São Luiz Gonzaga, nas Missões, que morreu no último dia 8 de julho aos 75 anos de idade. É a obra dos galpões, dos velhos campeiros, das paisagens abandonadas, das tropeadas, dos brigas de galo, estilhaços de um “Rio Grande selvagem”, como ele mesmo escreveu. Os versos de Jayme iluminam o verde sem fim dos campos gaúchos, universalizam a cultura platina, dão forma e voz às taperas esquecidas, aos gaúchos pobres sem rumo, à força do vento, à solidão das árvores mergulhadas no silêncio. Não é, porém, uma obra restrita no curral do regionalismo. “Ele conseguiu colocar o galpão dentro do panorama do universo e trouxe os fatos universais para dentro do galpão”, opina o folclorista e pesquisador João Carlos Paixão Côrtes.

A alma campeira de Jayme Caetano Braun tem raízes profundas. Nascido no distrito da Timbaúva, em 30 de janeiro de 1924, foi um guri do campo. E ali cresceu, observando a natureza e seus segredos. Para reve-lá-los depois, em versos. “É hora de caçar lagartos/ e peleguear camoatim,/ Hora das artes sem fim/ Que o grande faz que ignora/ E quando o guri de fora/ criado no desamor,/ Numa infância de rigor/ Só foi guri nessa hora”, escreve em “Hora da Sesta”, a hora do sol a pino onde os adultos dormem e a gurizada curiosa do campo se diverte.

A fonte da payada é o verso oral, de sete sílabas, rimado e acompanhado ao violão, muitas vezes no improviso ou no desafio a outro payador. Jayme levou esse gênero ao rádio, especialmente na década de 70, onde apresentava o programa “Brasil Grande do Sul” na rádio Guaíba, de Porto Alegre. “Ele declamava e eu fazia o bordoneio da milonga no violão”, recorda o amigo Pedro Ortaça, outro missioneiro que chegou a transformar em música os poemas de Jayme Caetano Braun, único payador em língua portuguesa mas que transitava com extrema fluência também pelo idioma espanhol – a língua do grande Atahualpa Yupanqui, uma de suas influências confessas.

O historiador e poeta Mozart Pereira Soares acompanhou Jayme por muito tempo. Conheceram-se na “Estância da Poesia Crioula”, a academia nativista dos poetas campeiros. Mozart depõe: “Creio que foi o maior dos improvisadores que o Rio Grande e o Brasil produziram. Some-se a isso o fato dele ser um poeta culto, muitíssimo informado sobre a história e a literatura do Rio Grande do Sul e ainda de toda a área platina”. Fala de afinidades com os poetas do Prata, o conhecimento profundo do “Martin Fierro”, do argentino José Hernandez, das influências de Osiris Rodriguez, Sandálio Santos eYupanqui e o conhecimento de poetas como Olavo Bilac, Castro Alves e Vinicius de Morais.

Entretanto, Jayme Caetano Braun era um missioneiro do cerne. Confessava uma certa devoção à sua origem e à sua gente. Junto com Pedro Ortaça, Noel Guarani e Cenair Maicá, gravou o disco “Troncos Missioneiros”. Foi o homem também multiplicado em outras circunstâncias. Trabalhista por convicçao, fez poemas para Getúlio Vargas e para o senador Ruy Ramos. Ainda em São Luiz Gonzaga, sua terra natal, leva ao ar o programa radiofônico “Galpão de Estância”, que viraria título de seu primeiro livro, publicado em 1954.

Também trabalhou em jornal. “Ele era meu companheiro de página no ‘O Interior’, era um gauchão véio independente, alegre e meio sarcástico quando tinha que ironizar os poderosos”, lembra o humorista Santiago, que teve o livro “Milongas do Macanudo Taurino” (L&PM, 1984) prefaciado pelo próprio Jayme.

O legado do payador está espalhado nos seus livros, nos seus versos gravados e, sobretudo, na fala e na memória de sua gente. Paixão Côrtes faz alusão a essa linguagem campeira, capaz de ser apreciada em qualquer recanto, que emociona pelo requinte de alma do poeta, por sua sapiência da natureza, por algo que chama de “dom sublime”, a palavra crua que, pela sua musicalidade, dispensa a razão do entendimento – como a prosa de um João Guimarães Rosa. Assim, o payador não partiu. Seus versos viverão em outras vozes, como escreve o mestre Yupanqui. A voz de Jayme Caetano Braun está nessas várzeas e coxilhas, nesses rostos cujas marcas lembram os sulcos da terra. Versos que trespassam as armadilhas do tempo. Payadas que enganam a morte.

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