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Nº 041 | Ano 5 | Mai 2000
EDITORIAL
EDITORIAL

As empresas de papel

O professor Luiz Gonzaga Belluzzo, da UnB, não deixa dúvidas ao comparar a valorização dos ativos financeiros na era da globalização com o correspondente lastro que eles deveriam ter em forma de produção: há uma notável inflação no valor virtual, de papel, das empresas que se negociam nas bolsas de valores mundo afora. Uma inflação invisível. Bem, mas e daí? Daí que inflação é inflação, como bem sabem os brasileiros, e seja qual for a sua origem (alta generalizada nos preços dos bens de consumo ou dos ativos financeiros), o fato é que só uma parte da sociedade é quem paga a conta. Valorizar demais qualquer produto gera crises de desvalorização constantes, em que todo mundo que não soube se proteger acaba ficando mais pobre.

É a isso que estamos assistindo impassíveis, enquanto os detentores do capital perdem e ganham montanhas de dinheiro num simples pregão de bolsa. Dar às empresas um valor que elas não têm cria uma falsa ilusão de riqueza, de prosperidade. É comum famílias americanas tomarem dinheiro emprestado aos bancos para investir em ações dessas companhias turbinadas, aumentando os riscos de colapso do sistema em épocas de pressões de baixa nos preços.

É mais ou menos assim: há um produto que todo mundo quer comprar, seja qual for o preço do momento. Então, tomamos dinheiro emprestado, compramos uma quantidade suficiente para pagar a dívida e gerar lucro e saímos a vender. Só que muita gente teve a mesma idéia, não há tantos compradores assim e a expectativa de preço alto, em um determinado momento, não se concretiza. Aqueles do fim da fila acabam não realizando lucros, acabam não honrando suas dívidas e o sistema todo pode ir à breca. É como aquelas correntes milagrosas que voltam e meia nos oferecem: os do início da fila sempre se dão bem.

Esse jogo ocorre tanto entre pessoas físicas e empresas quanto entre países. E esse é o nosso caso. Quando as empresas de ponta da economia norte-americana perdem fôlego, os investidores retiram suas posições e adotam como lema a cautela. Imediatamente o movimento é repetido aqui, com as oscilações de baixa nos preços e a conseqüente desvalorização das empresas. Só que as companhias americanas têm muito mais lastro produtivo que as nossas. Encarar um jogo desse tamanho é imitar o super-homem no que ele tem de fantasioso. Não dá.

Mas não é só. Para multiplicar sua valorização, as empresas têm também de fazer o mundo inteiro acreditar no seu poder de mercado ou, como diz Belluzzo, “na força de suas armas de concorrência”. Isso, obviamente, riscando do mapa as concorrentes mais frágeis, adotando práticas de monopólio, aumentando o poder de fogo. Não foi exatamente o que fez a Microsoft até ser barrada pela Justiça americana?

Mais uma vez o economista da UnB não deixa dúvidas ao comparar um modo de gestão empresarial tradicional com outro contemporâneo: “A natureza intrinsecamente especulativa da gestão empresarial, nessa modalidade de capitalismo moderno, traduz-se pela importância crescente das práticas destinadas a ampliar ficticiamente o valor do capital existente, tornando necessária a constituição de um enorme aparato financeiro”. Esse é o mundo em que vivemos, chamado carinhosamente de globalizado.

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