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Nº 043| Ano 5| Jul 2000
L. F. VERÍSSIMO

O Outro

Luís Fernando Verissimo

O presidente disse que, se alguém tirou proveito da compra de votos para a sua reeleição, não foi ele. Cumé quié?! É isso mesmo. O presidente disse que, se alguém tirou proveito da compra de votos para a sua reeleição, não foi ele. O presidente disse que, se alguém… Espera um pouquinho. Está tudo explicado! A surpreendente declaração, antes de comprometer o presidente, na verdade o absolve. Agora sabemos por que ele condena a injustiça social no Brasil e em cinco anos fez tão pouco para diminui-la e colaborou tanto para agravá-la. Finalmente revelado como ele pode fazer aqueles discursos no Exterior contra a dependência no capital volátil internacional e ao mesmo tempo presidir a rendição incondicional do Brasil à agiotagem globalizada. Está claro por que ele se choca sinceramente com a violência e a miséria que crescem e só falta atacar um governo que tira verba do social para remunerar a especulação, como se o governo não fosse dele.

É que ele não é ele. Ou ele não se reconhece nele mesmo. Ou ele é ele e também é outro, que ele só observa, sem se envolver. Foi para reeleger o Outro, não ele, que compraram os votos para a emenda da reeleição. Ele não aprova, mas não quis se meter, era assunto do Outro. Quando discursa no Exterior, ele precisa se controlar para não criticar o Outro e o que o Outro está fazendo na presidência. Seria deselegante. Afinal, ele só freqüenta o Planalto porque o Outro está lá. Só vai a cerimônias, coquetéis etc. porque representa o Outro. Só pode fazer suas viagens, e suas observações, e suas frases, por uma deferência do Outro. Se o Outro não tivesse sido reeleito – por qualquer meio, não é assunto dele –, ele não estaria onde está. Por isso ele precisa ter tato ao tratar com o Outro, embora discorde de muita coisa que o Outro faz. Por isso, quando comenta a situação do país, nunca cita o responsável. E quando diz que quem tirou proveito da compra dos votos para a reeleição não foi ele, deixa apenas subentendido o fim da frase: “Foi o Outro”.

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