Jornal Extra Classe - Jornalismo além da superfície
Nº 045 | Ano 5 | Set 2000
CULTURA

A maioridade do Porto Alegre em Cena

Jimi Joe

Luciano Alabarse está mais do que contente com a realização da sétima edição do Porto Alegre Em Cena entre os dias 16 e 30 de setembro: está exultante. O motivo principal de tanta alegria é a confirmação da vinda de Peter Brook, conhecido no Brasil por filmes como O Mahabaratha, de 1989.
“É o diretor teatral mais importante do século XX que vai estar no Brasil pela primeira vez”, festeja Alabarse.
Para o diretor da Usina do Gasômetro e coordenador do festival internacional de teatro, a vinda de Brook com sua nova peça, Le Costume, é o “ponto alto de toda a história do Em Cena”.

Michelle Bloedow

O Em Cena não é um festival comercial. Creio que é justamente por isso que o evento se consolidou da maneira como aconteceu. Nos interessam muito mais as tendências e movimentos da vanguarda do que os sucessos garantidos,” afirma Alabarse, um completo apaixonado pelo teatro cuja obra como diretor acabou perdendo terreno para o realizador de eventos culturais à frente de uma equipe sediada na Usina do Gasômetro. Essa postura da coordenação fez do Em Cena um festival de “experiências estéticas” na visão de Alabarse. Para ele, a vinda de Brook gera o que classifica como “uma coisa incompreensível”: em busca de parcerias no Centro do País para reduzir custos de produção, Alabarse ficou alarmado por não ter havido interesse em apresentar Le Costume em São Paulo ou no Rio de Janeiro. “De certa forma é bom,” compraz-se o coordenador do Em Cena. “Assim, Porto Alegre acaba recebendo a atenção da mídia e mais uma vez inverte-se a expectativa e o resto do País tem de olhar para nós”.

Cena de A Comédia do Trabalho, do grupo paulista Cia. Latão

Foto: Guilherme Mohallem

Cena de A Comédia do Trabalho, do grupo paulista Cia. Latão

Foto: Guilherme Mohallem

O festival que já encantou e estarreceu platéias com grupos como o espanhol La Fura Dels Baus ou o alemão Volksbimes e peças como a provocativa Needles and Opium, também serve como espelho para a produção teatral porto-alegrense e gaúcha. “É uma amostragem do que temos de melhor, sem paternalismo”. A seleção dos espetáculos é feita por uma comissão integrada por representantes de entidades como DAD (Departamento de Arte Dramática da Ufrgs) e Sated (sindicato que representa a classe teatral). “É claro que todo mundo quer entrar”, admite Alabarse, “por isso, a seleção”. Este ano a parte da programação marca o retorno de Maria Helena Lopes à direção com o espetáculo Solos Em Cena.

Mas o Em Cena sempre quis ser bem mais do que um invento criado para atrair a atenção da mídia. Alabarse acredita que o festival, surgido como uma forma de intercâmbio cultural, tem servido ainda para conferir à capital gaúcha um status de maioridade cultural. Com isso, as programações têm presenteado o público com obras “plenas de visceralidade, sem concessões”. O coordenador do Em Cena lembra que a peça Decadência, do inglês Steven Berkoff, encenada em Porto Alegre em agosto último por Beth Goulart e Guilherme Prado, teve sua estréia nacional no Em Cena há três anos através de uma montagem argentina. Mesmo admitindo ter em mãos um festival amadurecido pela consagração de público e crítica, Alabarse diz que todo o ano é a mesma luta em busca de apoios e patrocínios. “Fora a parte da prefeitura de Porto Alegre, que sempre cumpre seu papel, a cada edição é preciso todo uma batalha para convencer novos patrocinadores e apoiadores.” Essa tarefa é facilitada justamente pela crescente aceitação do festival como evento consolidado no calendário cultural não só de Porto Alegre como do Mercosul.

“Já há a preocupação de festivais similares como na Argentina, em evitar a coincidência de datas até para que possamos agir em conjunto, aproveitando as mesmas atrações”, explica. O pique de trabalho é intenso e ocupa o ano todo para Alabarse e para a equipe de produção. “Há um momento de pico, quando as atrações começam a chegar e está na hora de começar mesmo, mas o trabalho não pára no resto do ano.” Enquanto entrava na reta final de preparação para o 7o Porto Alegre Em Cena, por exemplo, a equipe já tinha acertada uma primeira atração para a oitava edição, em 2001, o maestro e compositor Goran Bregovic. A música também teve sua parcela este ano, reservada para o espetáculo de pré-lançamento do festival, no dia 4 de setembro com apresentação da cantora italiana Milva, de muito sucesso nos anos 60, interpretando composições de Astor Piazzolla.

Assim como transcende o plano do teatro com o show de Milva, o 7o Porto Alegre Em Cena dá continuidade à diversificação com outros eventos paralelos como o ciclo de filmes Buenas Noches, Buenos Aires que reunirá produções argentinas em curta e longa metragem na Sala P.F. Gastal. Antecipando o clima do festival, entre os dias 13 e 15, acontece o seminário Para Onde os Ventos Sopram, reunindo o diretor baiano Márcio Meirelles, o crítico teatral Alberto Guzik e o dramaturgo cubano Reinaldo Montero. “A idéia do Porto Alegre Em Cena é estabelecer um diálogo com o resto do mundo e nisso ele difere, fundamentalmente, de outros festivais.”

 

Marcado .Adicionar aos favoritos o permalink.
© Copyright 2014, Jornal Extra Classe - Todos os direitos reservados.

Os comentários estão encerrados.


CONTEÚDOS RELACIONADOS